Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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quarta-feira, abril 22, 2015

A década do PS. Finalmente o PS volta a entrar na vida política portuguesa e reentra pela porta grande. Aleluia, que já não era sem tempo.


No post abaixo já falei dos novos livros que aqui vieram juntar-se à babilónia que me cerca. Fiquei toda contente com eles, tão diferentes uns dos outros, trazendo-me tantas novidades, mesmo como eu gosto.

Mas isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra. Vou falar do Partido Socialista e não vou falar mal. Aleluia que já estava farta de nada dali me alegrar.




E vamos com música que acho que é caso para estarmos bem dispostos. 
Fandango com castanholas. 
Olé.




Li o documento Uma Década para Portugal que aqui pode ser visto na íntegra e gostei. Está bem escrito, bem fundamentado, é um trabalho feito por gente séria que se esforçou por apresentar um trabalho limpo, cuidadoso, bem estruturado. E há uma fundamentação política, humanista, na orientação que conduz os raciocínios e enforma as medidas propostas.


Ao contrário das provas de indigência intelectual a que temos assistido nos últimos anos por parte deste grupo de incompetentes que nos desgoverna, nota-se que o documento do PS está feito com rigor e que há uma linha condutora que deixa explícito ao que vem.

Ouvi, entretanto, a reacção primária, igualmente indigente, por parte do PSD e do CDS, mas não me admirei: aquilo é mesmo gente sem noção de coisa alguma. Depois de terem imposto sacrifícios desumanos a grande parte da população e de terem destruído parte do tecido social e económico do país com o intuito de diminuir a dívida - acabando com ela mais alta do que quando começaram o seu exercício de burrice - aparecem agora armados em comediantes dando lições de moral aos outros.

Sinceramente, ao fim de todo este tempo, acho que ainda mais do que mal intencionados, eles são é ignorantes e incapazes. Destituídos das capacidades cognitivas mínimas. Não perceberam ainda o que aconteceu, não perceberam porque é que o que fizeram funcionou ao contrário e são bem capazes de ser corridos daqui sem perceberem nada de coisa nenhuma. Mas, enfim, desde há algum tempo que já não me motiva desancar neles, é gente que, para mim, passou à história.

Volto ao documento do PS: todas as políticas estão voltadas para uma aposta forte no relançamento da economia. 


Há medidas que se destinam a introduzir liquidez no sistema, outras que se destinam a que se volte a sentir confiança, outras que facilitam o investimento. 
Todas visam o respeito pela dignidade das pessoas, com especial preocupação pelos mais pobres,  ao mesmo tempo que incentivam a que parte da retoma se faça pelo lado do consumo interno. 
Mas há o outro lado: uma aposta forte na inovação, na ligação da universidade às empresas, na abertura para mercados externos e na internacionalização - e isso é vital e está lá muito bem evidenciado. 
E há apoio ao ensino em todas as idades e percebe-se que o conhecimento voltará a estar na ordem do dia. 
E todas estas medidas, quando conjugadas, permitirão, não tenho dúvida, um impulso relevante no clima económico. 
O desemprego baixará, haverá apoio ao regresso e integração dos que se viram forçados a sair do país. 
E há atenção os sistemas que dão corpo a um estado social e democrático quer a nível da saúde, da educação, da justiça, dos apoios sociais.

E as contas estão feitas e há fundamentação para as despesas e para as receitas e todo o documento é credível e sustentado.


Ouvi com satisfação António Costa dizer que não é uma bíblia. Interpreto que, com isso, está a dizer que é um processo aberto, que incorporará melhorias, que se adaptará às circunstâncias.

No entanto, com esta minha satisfação pelo que ali vejo, não quero dizer que me cole a 100% ao documento. Mas tenho esperança que, com a discussão que certamente agora irá decorrer, os aspectos que abaixo refiro e outros que muitas outras pessoas bem intencionadas formularão serão, de uma forma ou de outra, incorporados nas medidas para a década.

Explicito os pontos.

Há um aspecto que eu gostaria de ver ali mais desenvolvido e com uma força quase central. Tenho para mim que um dos grandes problemas do país é o da demografia. Claro que a demografia, mais do que causa, é também consequência das políticas do país. Mas, pela gravidade que a situação actual apresenta, penso que mereceria uma atenção mais forte.

Não tenho dúvidas que com um aumento dos níveis de emprego, de poupança, com casas mais baratas, com uma carga fiscal mais suportável, os casais tenderão a ter mais filhos.

Mas é preciso mais do que isso. Tem que haver uma política concertada e total de apoio à natalidade: têm que haver creches, infantários e escolas gratuitas (ou quase gratuitas) com horários alargados como o são os das escolas privadas. Os meus meninos andam todos em colégios privados porque os pais trabalham e os avós quase todos também e porque não há escolas públicas que recebam as crianças a partir das oito da manhã ou antes e que os tenham até depois das dezanove ou que tenham carrinhas para os levar a casa e que não fechem nas férias. Mas colégios privados são caros e não haverá muitos jovens casais que os possam suportar. E esta questão é determinante na decisão de ter ou não filhos ou de ter mais do que um ou de dois. Um investimento forte neste domínio é indispensável. 

E tem que voltar a haver postos médicos públicos com horários alargados e com urgências. No outro dia, no meu prédio, vinha uma senhora com uma miúda no elevador e disse-me 'agora, por causa de uma conjuntivite, temos que ir às urgências do hospital, horas e horas, uma pouca vergonha!'. Eu perguntei 'Mas já não há aquilo do SAP?' e a senhora disse, 'Agora... ? Acabaram com isso tudo'.

Pois. Um jovem casal com crianças pequenas, que trabalhe e que ao fim do dia, porque as crianças estão com uma virose, tenha que ir para o hospital horas a fio, não é o melhor incentivo para que fique com vontade de ter mais filhos.

E tem que ser possível que, quem tenha filhos pequenos, possa dispor de dois a três dias por mês para poder ficar com os filhos caso necessário pois sei bem o drama que é para os meus quando os miúdos estão doentes e não têm quem fique com eles e nem sempre se justifica ir para o médico para obter atestados. Tem que haver um sistema simples que facilite a vida aos pais de crianças pequenas.

É essencial repor os níveis equilibrados de natalidade e só com medidas efectivas, pragmáticas e integradas é que se consegue que as pessoas se sintam confiantes para pôr mais crianças no mundo.

Também gostaria de ter visto alguma atenção à questão da terceira idade. Para quem trabalha nas cidades e tem os pais velhos longe, sem lhes poder prestar grande apoio e sem rendimentos sobrantes para ter apoio condigno, é um pesadelo. Conheço pessoas que vivem num tormento porque os pais não têm dinheiro que chegue para pagar um bom lar ou um apoio doméstico integral, têm que ser eles a apoiá-los - e a verdade é que se vêem aflitos para o conseguir. Com a maior longevidade das pessoas, isto tende a agravar-se e não apenas retira qualidade de vida a pais e filhos como retira liquidez do mercado. Com um apoio articulado e inteligente, com mais equipamentos e estruturas de apoio qualificado, não apenas se criaria emprego nesta área como toda a gente beneficiaria a todos os níveis.

Também gostaria de ter visto mais desenvolvida uma aposta forte na cultura. É certo que se vê atenção na recuperação de património histórico mas isso na perspectiva da construção civil que é um sector que, quando estimulado, é fortemente empregador - mas acho que deveria ter havido mais ênfase em tudo o que tenha a ver com cultura. A cultura não é apenas uma base matricial para a identidade de um povo, é também uma forma de abrir as mentes ao conhecimento, à vontade de aprender e caminhar para o futuro, é uma forma de estar em fruição de beleza. Mas é também uma fonte de rendimento não negligenciável. O turismo cultural poderá um dos pilares importantes de revitalização económica. Apoiar toda a cultura, formar um cluster económico em torno das actividades culturais deverá ser uma das vertentes a ter em atenção.

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Seja como for, acho que o PS e a equipa que desenvolveu este trabalho estão de parabéns e serão certamente capazes de incorpor novos contributos. António Costa deixou claro que isto é uma base de discussão, medidas de índole macroeconómica, não o programa de governo. E, assim sendo, a bem do País, sejamos construtivos, ajudemos quem quer ajudar a melhorar a vida dos portugueses.


(Se eu não fosse tão comodista, diria que podiam contar comigo. Assim, limito-me a deixar aqui estes apontamentos mas confesso que começo a sentir, volta e meia, uma certa vontade de me chegar à frente. O diabo é a minha alergia total às partidarites bacocas que estão por todo o lado...)

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As imagens representam obras de Ilda David.

A música é Fandango de Boccherini pelo The Carmina Quartet 


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Relembro que, se quiserem dar uma espreitadela aos livros que comprei ontem, poderão descer até ao post seguinte.
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma quarta-feira muito feliz. 
Haja esperança.

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2 comentários:

Vitor disse...

Disse MUITO BEM, estimada UJM !
Texto esclarecedor para todos os seus Leitores que subscrevo , por inteiro , e agradeço .
Quanto ao " chegar-se à frente " . . . já o tinha referido em comentários anteriores.
Contributos de Pessoas como a estimada UJM , precisam-se !
Melhores Cumprimentos
Vitor

Anónimo disse...

Boas noites!

Ate que enfim o PS acordou...ufa!

Sim! Chegue-se à frente UJM, é de gente competente, com ideias e soluções justas e sustentáveis que este País precisa para ser gerido com rigor e responsabilidade.

Fiquem bem!
Boa Noite!
V