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quarta-feira, março 04, 2015

Um tigre azul deixou-me uma rosa azul


No post abaixo já falei de Passos Coelho, essa triste figura que nunca deveria ter sido Primeiro-Ministro. Mas foi e está à vista o que fez ao País. Portugal está hoje pior conforme todos os indicadores o comprovam. Mas, pior que isso, pior do que o drama da dívida, pior do que o colapso da economia, pior do que o desemprego elevado, pior do que a preocupante emigração, é a devastação na esperança, na moral, na honra dos portugueses.

Os últimos dados conhecidos revelam também que é um cidadão relapso, sem vergonha, despreocupado com os seus deveres. E a sua última actuação nas jornadas parlamentares do seu partido revela-o também cobarde.

Dificilmente os portugueses lhe perdoarão este tipo de comportamentos. Por isso, para bem dele e, sobretudo, dos portugueses, Passos Coelho deveria demitir-se. Já.

Mas, enfim, sobre isso falo no post seguinte. Aqui, agora, a conversa é outra. Rêverie de novo.

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Estou vestida de negro, apenas com uma capa de veludo azul escuro por cima. Tenho os cabelos presos. Tenho o coração apertado. Tenho a minha cabeça num outro lugar. Quando todos dormem e contra toda a prudência, eu penso naquele que está num outro lugar, longe, longe. Contra toda a prudência quero responder ao chamamento silencioso que dele se desprende. 

Nada sei dele, não sei onde vive, não sei como se chama, não sei o que faz, nada. Mas sei que ele me chama.

Espreito pela janela. O rio corre, negro, lá ao fundo. Nem uma luz. A cidade dorme. Apenas eu vagueio, inquieta.

Então esgueiro-me e saio de casa. As ruas estão desertas, escuras. Sinto um frio, um tremor, e sei que é medo. Penso que é perigoso. A madrugada vai alta, o frio está húmido. Penso que deveria, talvez, correr. Mas não sei para onde.

Então vou andando, cosida às paredes, atravessando as ruas desertas, escuras, esperando que o chamamento silencioso que ecoa no meu coração me transporte.

Mas é para o rio que os meus passos me levam, o rio, sempre o rio. Lá chegada, assusto-me com as correntes de ferro que rangem, com as pancadas dos navios no cais. Estreito-me contra as casas em ruínas, sou uma sombra silenciosa que atravessa a escuridão. Por vezes parece-me ver sombras, vultos, e o meu coração bate, descompassado, e eu tremo, tremo muito. Tenho medo. Mas continuo.

Penso que estou cada vez mais longe, a noite não me deixa perceber até onde os passos já me levaram. O cheiro da maresia, o marulhar leve das ondas deixa-me perceber que continuo perto do rio.

Depois começo a perceber que os meus pés pisam terra macia, erva. Já não sei onde estou.

E, então, sinto respirar. Perto de mim. Arrepio-me. Ah mas arrepio-me tanto. Transida, a respiração suspensa, quase paralisada. Já não sei se estou parada ou a andar, a todo o momento espero ser atacada. Não consigo olhar para trás, tanta a inquietação. Uma respiração quente, um bafo. Não ouço passos, só sinto um respirar denso perto de mim. Arrepiada, sinto que os olhos se me enchem de lágrimas, e não é medo, é uma perturbação muito forte, é como se alguém pudesse entrar em mim, entrar na minha pele, tomar o lugar do meu corpo. A respiração aproxima-se, sinto-o, tão arrepiada.

Depois uma serenidade estranha começou a invadir o meu corpo, a respiração quente torna-se ofegante, inquieta e eu cada vez mais calma. Espero. Tiro a minha capa de veludo azul. Sem a ver, apenas pelo tacto, deito-me sobre ela. Não vejo nada nem ninguém. Apenas a respiração está cada vez mais próxima.

E então, arrepiada embora estranhamente tranquila, a pele emocionada, sinto que um vulto macio se deita ao meu lado. Aproximo-me e sinto a sua pele macia, muito macia, a respiração agora muito suave, e deixo que o seu corpo morno se encoste ao meu.

Não sei quanto tempo ali estive. Nem sei explicar que paz tão infinita invadiu o meu corpo. Como se nunca antes tivesse sentido uma felicidade tão absoluta.

Depois o dia começou a querer alvorear. Senti vontade de adormecer. E acho que adormeci. Sonhei então com um tigre imenso, assustador, sonhei com uma gruta negra por onde uma luz azul entrava escorrendo como água muito escura. Sonhei que o tigre medonho se tingia de azul e eu escondida, com medo, perseguindo o tigre e o tigre perseguindo-me a mim, espiando-nos, descobrindo-nos, assustados os dois, sentindo um desejo aflito, sentindo o perigo, querendo senti-lo. O olhar do grande tigre azul penetrava o meu, e o meu coração não aguentava tanta emoção, tanto medo, tanto querer e eu sentia que o meu olhar brilhava no escuro e que o tigre não desviava o seu olhar do meu. Arrepiada, assustada, sem vontade, com vontade.




Depois acordei. O céu começava a iluminar-se. Senti-me sozinha. Sentei-me e olhei em volta, procurando aquele que, na noite escura, se tinha deitado ao meu lado. Ninguém. Depois ouvi um rumor, um leve mexer de folhas, ou uns passos, ou um murmúrio. Procurei com o olhar.

E então pareceu-me ver. Ou imaginei, não sei. Era como se, de longe, um tigre azul me olhasse com infinita tristeza. Como se estivesse parado a olhar para mim. Fiquei em suspenso, a respiração parada, a olhar o olhar triste daquele que eu apenas adivinhava.

Senti que as lágrimas se soltavam dos meus olhos. Não sabia se estava a adivinhar uma separação, um amor impossível, se a percepção de que o perigo era um abismo do qual não poderia fugir.

Desviei o olhar, levei-o até ao rio que corria lá em baixo. A madrugada aproximava-se. Levantei-me. A capa de veludo estava húmida e eu gelada. O meu corpo tremia.




Coloquei a capa sobre os ombros. Olhei de novo. Por detrás de um arbusto, pareceu-me ver o tigre escondido, olhando-me. Tive vontade de me aproximar, saber se era mesmo, se era um sonho, se era loucura. Mas respeitei-o, respeitei o silêncio que senti que se desprendia do seu olhar inventado.

Quando comecei a andar, senti que os meus pés pisavam qualquer coisa. Baixei-me sem ver bem e tacteei o chão. Senti que eram talvez folhas, talvez pétalas lisas, macias. Apanhei-as, trouxe-as comigo. Pareceu-me que, de longe, o tigre azul me espiava, cúmplice.

Apressada, vim-me embora.

Cheguei há pouco a casa. A primeira coisa que fiz foi vir até aqui, acender a luz. Vim ver o que trazia nas mãos. E, então, comovida e trémula, vi que são rosas azuis, quase negras, muito belas, carregadas de noite. São rosas que tenho aqui comigo, perfumadas, macias como veludo. Não sei se foi milagre, se foi magia, não sei quem as pôs junto a mim. Não sei, não quero saber, não quero encontrar explicações para tudo o que acontece na minha vida. Sei apenas que me sinto estranhamente feliz e, talvez pela emoção tão incompreensível mas tão intensa, sinta que os meus olhos se estão a cobrir de lágrimas. E vejo agora que, numa das pétalas da mais bela de todas as rosas, brilha também uma lágrima. Uma lágrima azul.




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Dame Kiri Te Kanawa interpreta "Vocalise" de Rachmaninoff

Jorge Luis Borges também passou por aqui.

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Caso queiram experimentar o efeito da sauna, passando do calor para o frio, permitam que sugira que desçam até ao post seguinte onde um verdadeiro balde de água fria vos espera.

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Desejo-vos uma bela quarta-feira.

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1 comentário:

Pôr do Sol disse...


Adoro estes seus felinos "devaneios". Fico sempre à espera de mais azul misterioso em madrugadas negras.A curiosidade vicia e sei que tem coragem para a seguir.
Boa noite.