Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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segunda-feira, fevereiro 16, 2015

Eis-me sem explicações, não calando a voz do chão que grita dentro de mim e que, nestas paredes e nestes caminhos, irá para além de mim. Sou feliz in heaven.


No post abaixo questionei-me sobre o que é o amor e, a propósito de uma mulher que despertou paixões várias, Gala, mostrei um poema de um homem que muito a amou, Paul Éluard.

Mas isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra.







Aqui chegados, a casa estava fria, quase húmida de tão fria. Reparei que o galo, a galinha e os seus galitos parecem ter-se zangado. Costumo dispô-los uns atrás dos outros e agora uns estão para um lado e outros para outro. Devem sentir a nossa falta, parecem amuados, temos vindo pouco, o tempo não chega para dar corpo a todos os afectos.




Desta vez a salamandra animou-se, ainda agora fui espevitá-la. Vem de lá um calorzinho bom, um perfume a cedro, a azinheira, a pinheiro, a pinhas: são as minhas árvores queridas que nos dão sombra, perfume, cor e também calor.

Estava no sofá, reclinada, a ler uma entrevista a T.S. Eliot, quando reparei que o fogo se reflectia no vidro da janela, parecia uma fogueira no jardim, quase como se da pedra enorme que tenho aqui no chão à porta nascesse uma chama.




Sinto-me feliz com coisas assim: sabia que os meus filhos estavam juntos, divertindo-se em família, todos mascarados, as crianças numa alegria, e sabê-los amigos enche-me de felicidade. E eu aqui, sabendo isso, e sabendo que o meu pai está a ser bem tratado e talvez recupere ligeiramente, que a minha mãe está a descansar um pouco, sentindo o afago bom do calor perfumado da salamandra, vendo o dia a cair do lado de fora, lendo, rodeada de afecto, senti-me agradecida. Sei como são frágeis os acasos que fazem uma pessoa ter motivos para estar feliz, frágeis, efémeros. Tantas pessoas que os não têm e que tanto o mereciam. Por isso, sempre que me sinto abençoada, sinto-me também agradecida, quase como se, sentindo-me agradecida, conseguisse a benesse de por mais tempo me ser concedida a graça de o continuar a ser.

Antes de me deixar estar aqui na sala, descansada, a ler, tinha andado a passear. Que bom é passear por aqui, in heaven. Reparo em cada pequeno pormenor. Uma árvore mais verde, um bocado de musgo solto - e penso, um gato, um coelho talvez, ou a chuva ou o vento - e está mais fofo e aveludado, uma pedra que parece mais coberta de terra.




Os cedros estão carregadinhos de pontos dourados. Gosto muito de cedros, crescem muito, dão belas sombras, são elegantes, os ramos tombam como capas, como mantos.

O que antes era uma terra de mato rasteiro tem agora pequenos bosques perfumados. Baixo-me para descer as escadas de pedra cobertas de musgo e folhagem que mal se vêem debaixo das ramagens das árvores. Depois sinto que fiquei com folhas presas no cabelo e hesito em tirá-las. 

As figueiras continuam despidas, ramos escuros que desenham arabescos no ar. Mas, na ponta de cada um, um pequeno rebento. São as folhas que começam a pressentir-se.




Fico sempre emocionada quando assisto a este milagre. Todos os anos as figueiras se despem para o inverno, e ficam nuas, ramos que poderiam prenunciar o seu fim. Mas depois a natureza faz renascê-los e dos ramos começam a surgir provas de vida.

Daqui por algum tempo as folhas começarão a desenhar-se, depois as árvores ficarão frondosas e os figos crescerão até que, pesados, deixarão que uma gota de mel se solte.

Continuo.

Gosto de andar com a máquina fotográfica. Guardo o registo do que me parece ser mágico, quase indizível. Tantos tons de verde, ramos nus, cinzentos, misturando-se com folhagens verdes de várias tonalidades. No meio tenho bancos, uns de pedra, outros que desenhei, pequenas conversadeiras que forrei a azulejo. Pensava: vai apetecer-me sentar-me no meio das árvores a ler um livro ou a conversar, deve haver ali um sítio onde seja bom estar. E apetece, tenho é pouco tempo para poder fazer tudo aquilo que quero.




Quando andava a passear em silêncio, vi o gato preto que por aqui anda por vezes. Ele não me via e eu andei ainda mais silenciosamente. Mas, então, ele apercebeu-se da minha presença. Virou-se para mim, olhou-me com aquele seu olhar verde e intenso. Arrepiei-me. Fiquei estática a olhar para ele e ele para mim. Depois, quando eu começava a ganhar consciência e me preparava para o fotografar, fugiu. Este gato desafia-me, teme-me, encanta-me sendo tão arisco e ágil, perturba-me pela forma como me olha.

Mais à frente, outra alegria. Quase poderia dizer que eram dois botões, de um tom de pétala de rosa deixada ao embalo do sol. Maravilho-me com coisas assim, com a beleza muito pura.




Na parte de fora da pequena capela, lembrei-me de ter Adão e Eva. A Igreja (a Igreja antiquada e com a qual não me identifico) acha que cometeram um pecado e, por isso, deixa-os de fora. As crianças que nascem desse pecado têm que ser purificadas antes de poder ser aceites no seu seio. Eu não considero que os actos de amor ou de prazer possam ser pecado e, por isso, não baptizei os meus filhos. Nasceram puros porque nasceram de actos de amor.


E juntei falas a Adão e a Eva.
Adão, encantado por Eva, usa as palavras de David Mourão-Ferreira e diz

A vestir-te
o corpo
nu
ou a sede
que é minha
ou a seda que és tu


E Eva faz suas a s palavras de Natália Correia para dizer

Eis-me sem explicações
crucificada em amor:
a boca o fruto o sabor

Mais à frente, rodeei as azinheiras por um muro em redondo onde fiz pintar estrofes ou pequenos poemas.

Trocar tudo por ti, se for preciso

Pensei nesta espécie de canteiro como um poço do amor de onde se erguesse a vida traduzida em árvores. São cinco poemas de amor. O senhor que aplicou os azulejos suou as estopinhas para conseguir fazer a curvatura do murete mantendo os azulejos encostados de forma a que as palavras ficassem bem desenhadas. Gosto de andar aqui e ler os poemas e sentir que o amor está bem marcado na minha vida, impresso na pedra.

Sou eu que aqui me encontro. Um dia desaparecerei e talvez as ervas e os musgos tudo invadam. Talvez as árvores tombem cansadas de carregarem as suas pesadas ramagens. Ou talvez os meus filhos e os seus filhos e os filhos dos seus filhos tentem manter este espaço e continuem a achar que é o seu heaven. Não sei. Mas acredito que muito de mim continuará a existir para além de mim, aqui nestas paredes, nestes poemas, nestes desenhos, nestes caminhos, nestes recantos. Como disse, era uma terra inóspita, só pedras e mato, e agora sou eu aqui envolta em palavras, em árvores, em luz, perfumada pelos cheiros íntimos desta terra que me adoptou e que eu sinto que me ama de uma forma silenciosa e fértil, doce, maternal.


Para dizer que sou eu aqui, diante de mim

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A límpida e maravilhosa música é Llongau Térou-bi interpertada por Catrin Finch e Seckou Keita

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Relembro que, descendo até ao próximo post, encontrarão as minhas dúvidas sobre que coisa é o amor e um poema muito belo, dito e cantado, de um homem que muito amou uma mulher que o viria a fazer sofrer, Éluard e Gala.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa semana, a começar já por esta segunda-feira.
E sejam muito felizes. 
E façam por amar e ser amados, está bem?

..

3 comentários:

Anónimo disse...

Essa sua casa é uma poesia! Sítio encantador! Pela poesia exposta nas paredes, como pelas imagens rústicas.
P.Rufino

Rosa Pinto disse...

Ai, há quantos anos que eu parti chorando
deste meu saudoso, carinhoso lar!...
Foi há vinte?... Há trinta?... Nem eu sei já quando!...
Minha velha ama, que me estás fitando,
canta-me cantigas para me eu lembrar!...

Dei a volta ao mundo, dei a volta à vida...
Só achei enganos, decepções, pesar...
Oh, a ingénua alma tão desiludida!...
Minha velha ama, com a voz dorida.
canta-me cantigas de me adormentar!...

Trago de amargura o coração desfeito...
Vê que fundas mágoas no embaciado olhar!
Nunca eu saíra do meu ninho estreito!...
Minha velha ama, que me deste o peito,
canta-me cantigas para me embalar!...

Pôs-me Deus outrora no frouxel do ninho
pedrarias de astros, gemas de luar...
Tudo me roubaram, vê, pelo caminho!...
Minha velha ama, sou um pobrezinho...
Canta-me cantigas de fazer chorar!...

Como antigamente, no regaço amado
(Venho morto, morto!...), deixa-me deitar!
Ai o teu menino como está mudado!
Minha velha ama, como está mudado!
Canta-lhe cantigas de dormir, sonhar!...

Canta-me cantigas manso, muito manso...
tristes, muito tristes, como à noite o mar...
Canta-me cantigas para ver se alcanço
que a minha alma durma, tenha paz, descanso,
quando a morte, em breve, ma vier buscar!
Guerra Junqueiro - Regresso ao Lar

Pôr do Sol disse...

Que bom sentirmo-nos em paz, sabendo os nossos amores bem e inundada desse Paraiso. Lava a alma, revigora e alimenta o espirito para mais uma semana. É nas coisas simples da Naturesa
que encontramos o melhor desta vida.
Boa semana e um beijinho.