Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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segunda-feira, fevereiro 02, 2015

Decadência


No post abaixo falei da Grécia, da dupla Tsipras e Varoufakis que anda a deixar a velha guarda sem saber como articular a gramática ao falar deles, e da santa papalvice dos saloios tugas que por aí andam metidos a bestas a dar ensinadelas aos novos ministros. Cometi um atentado enfeitando o texto com obras de Paula Rego e, para terminar, mostrei um vídeo encantador que mete um cachorinho perdido, uns cavalos leais e um lobo mau.

Mas isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra.







Depois das aulas, depois do lanche, depois dos deveres cumpridos, era-me permitido entrar na sala dos crescidos. Tinha que me comportar, falar em voz baixa, permanecer discreta enquanto os adultos conferenciavam entre si. Levava um livro, um bordado, um jogo. Deveria sentar-me à mesa mas pedia sempre para me sentar na senhorinha de veludo cor de rosa. O olhar que recebia era de repreensão, Sempre a querer aquilo que não te está destinado, mas, para evitar palavras desagradáveis, ouvia um Só por hoje ciciado em tom de censura.

Por vezes eles jogavam cartas, outras vezes falavam de partilhas, da vizinhança, da homilia, de dinheiros, de empregados, de dívidas. Sempre que a conversa envolvia juros, que eu não sabia o que era, ou bancos, a minha mãe fazia um ar aflito e falava ainda mais baixo. O meu pai cada vez aparecia menos. Eu tinha medo que ele morresse, quase parecia meu avô, e cada vez o via com um ar mais preocupado.

O tempo foi passando e as carpetes ficando puídas. Os adultos foram envelhecendo, o tom de pele das tias foi perdendo o viço, as primas foram para longe. Aos poucos a casa foi ficando mais vazia.

As empregadas começaram a falar pelos cantos, havia preocupação nos semblantes. Eu perguntava porque não se arranjavam os tapetes ou os cortinados e ninguém me respondia. Depois, aos poucos, os tapetes e os cortinados também foram desaparecendo.

Até que os homens da casa começaram também a deixar de aparecer. O caseiro, o jardineiro, o pai. Perguntei. Que iam tratar de uns assuntos noutras terras. Assustada, E voltam? e logo que Esta criança, só perguntas. Fui a criança até muito tarde pois estou em crer que, com tantos problemas, ninguém reparou que eu ia crescendo.

Depois foram os castiçais que desapareceram. Perguntei, Mãe, e os castiçais grandes? e logo uma resposta seca, Estavam amarelos, precisavam de ser areados. Mandei pôr uns mais simples, são mais fáceis de limpar. E eu percebia que não devia perguntar mais nada.

De pequena fui, assim, aprendendo a perceber a angústia no silêncio dos outros.

Depois as mulheres começaram também a escassear. As tias já quase não apareciam. Amigas nunca as conheci. A seguir foi a cozinheira. Começámos a comer mal. Sopa que parecia água, arroz com couves. Mãe, porque é que não se junta um ovo? e a minha mãe, nervosa, Sei lá se ainda há galinhas.

Um dia, o chão tinha bocados de gesso. Olhei para o tecto e reparei que estava a desfazer-se. Não disse nada porque senti a tristeza no olhar da minha mãe. 

A partir daí, quase não falávamos. Não queríamos verbalizar a tristeza perante a decadência da casa e das nossas vidas. Fui crescendo, magra, pálida, vendo a minha mãe sempre triste, cabelos precocemente brancos, vestidos mal arranjados. Sentávamo-nos as duas na sala. Ela já não se importava que eu me sentasse a ler na senhorinha de veludo quase sem cor. Sentava-se a olhar para a janela ou para o quadro grande na parede em frente. Por vezes trazia também um livro, uma revista velha mas, a maioria das vezes, vinha com as mãos vazias. Sentava-se à mesa, apoiava as mãos no tampo que geralmente tinha pó e ficava a olhar para elas. 

Sentindo-a tão sozinha, habituei-me a trazer comigo uma bolsa de pano juntamente com o livro que estava a ler e, quando a via mais triste, levantava-me e punha-me atrás dela. Ela não se mexia, era como se nem me sentisse. Então eu tirava o pente e ganchos da bolsa e começava a penteá-la. Gostava de lhe fazer uma trança que depois lhe enrolava em volta da cabeça. Outras vezes fazia-lhe duas tranças e ela parecia uma boneca velha, uma trança branca de cada lado. Depois levantava as tranças e prendia-as em cima, parecia saída de um quadro antigo. Ela não dizia nada mas eu sentia-a abandonada, como que entregue ao afecto que se desprendia das minhas mãos.

A casa estava cada vez mais desolada, fria, pobre. A decadência abria fissuras cada vez mais profundas nas paredes, nas janelas, nos tectos, nas terras, na mente da minha mãe.

Um dia cheguei a casa e a porta estava aberta, as janelas abertas. O cão andava de divisão em divisão, ganindo. Chamei por ela. Ao fim de muito tempo apareceu, despenteada, o vestido roto, suja de terra. 

Perguntei-lhe onde tinha andado, o que tinha acontecido. As lágrimas escorriam-lhe pelo rosto, mas o choro era silencioso. Depois disse-me para eu vender o quadro grande e, com o dinheiro da venda, ir estudar para longe. Tive vontade de chorar mas há muito que me tinha aprendido a conter. Mãe, não diga isso. Não nos vamos desfazer do quadro da sua irmã. Desde que a minha memória alcançava que não se falava naquela tia mais velha, que tinha morrido quando eu era pequena. Então a minha mãe disse, Não é minha irmã, é a mulher do teu pai. Fiquei sem palavras. E ela saíu de casa para nunca mais voltar.


No outro dia voltei lá. A casa está igual, a sala parece perdida no tempo e, em frente do retrato da mulher do meu pai, pareceu-me ver o vulto transparente da minha mãe, perdida nas suas recordações, olhando as suas magras mãos vazias.

Depois, fui a pé pelos campos. Subi até ao alto do monte na extrema da vila, queria falar com o padre, saber de alguma novidade. A grande igreja do cristo azul estava também ao abandono, o vento frio trespassando-a. Não sei o que aconteceu para que todas as minhas memórias estejam a ser tão cruelmente apagadas.

Ajoelhei-me, os joelhos sobre a pedra fria e suja, e, com as lágrimas finalmente escorrendo pelo rosto, pedi ao cristo azul que não me abandonasse.

Quero acreditar que não me abandonará.




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As fotografias são da autoria de Martijn Fabrie e a Casta Diva (Bellini) é interpretada por Renée Fleming



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Permitam que relembre que sobre a Grécia e sobre as patéticas referências da corte passista falo no post já a seguir.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela semana a começar já por esta segunda-feira.

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3 comentários:

Rosa Pinto disse...

Retrato de Amigo
Por ti falo. E ninguém sabe. Mas eu digo
meu irmão minha amêndoa meu amigo
meu tropel de ternura minha casa
meu jardim de carência minha asa.

Por ti morro e ninguém pensa. Mas eu sigo
um caminho de nardos empestados
uma intensa e terrífica ternura
rodeado de cardos por muitíssimos lados.

Meu perfume de tudo minha essência
meu lume minha lava meu labéu
como é possível não chegar ao cume
de tão lavado céu?

Ary dos Santos, in 'Fotosgrafias'
Beijinho

Anónimo disse...

UJM,
Reitero que devia um dia dedicar-se à escrita. Vá guardando isto que aqui escreve e um dia publique, junto com o que lhe ocorrer na ocasião.
O que escreve tem todos os condimentos para ser publicado num livro e ser lido com interesse!
P.Rufino

FIRME disse...

BOA TARDE.Se escrever,faça-o com a mesma firmeza que me consola.Seja "bruta" como torga,cristalina ,como Aquilino,certeira como ,SARAMAGO...Mas mantenha a firmeza séria DA CÁUSTICA realidade,que muitos aprendem elegantemente,a desprezar...Isso NÃO...