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quarta-feira, fevereiro 04, 2015

As respostas de Sócrates à SIC


Chamei-lhe 'as respostas de Sócrates à SIC' e não 'entrevista' porque numa entrevista há contraditório enquanto aquilo que vi mais me pareceu um casamento por procuração, um jornalista a ler as perguntas e outro a ler as respostas de Sócrates, o famoso preso 44, concedidas por escrito a partir da prisão de Évora (ou obtidas por um jornalista que, aparentemente lá terá ido visitá-lo).



E vamos com a boa música que gente boa me enviou
(para ver se digerimos melhor este malfadado assunto)

Charles Lloyd - sax; Jason Moran - piano




Eu estava num lado, o meu marido noutro porque queria ver o Augusto Santos Silva. Passado um bocado, ouvi-o a chamar-me mas deixei-me ficar a ver o Borgen. Mas, logo que o Borgen acabou, vim ver qual era o fogo que o levava àquele alarido e ainda apanhei as últimas respostas de Sócrates. Entretanto, o meu marido já me pôs ao corrente das anteriores. Agora está Ricardo Costa e o Rogério Alves a comentar.





Pois do que ouvi, respostas e posteriores comentários, nada acrescenta a nada. Continuamos a navegar na maionese.

Achei, sim, da parte dele um tom revoltado e informal o que é mais do que compreensível. Um ex-primeiro-ministro está preso preventivamente sem conhecer os factos de que o acusam, está preso há mais de dois meses enquanto a acusação anda à cata de indícios que o possam incriminar, vê-se sujeito a toda a espécie de mesquinhices, desde não o deixarem usar as botas, até não quererem entregar-lhe o cachecol de Sócrates - e o extraordinário é que ainda se mantenha tão enérgico e pronto para a luta.

Aquilo de que se vai tendo conhecimento seriam anedotas se não visassem a aniquilação da dignidade de um homem.

Enquanto isso, vão sendo passadas informações descontextualizadas para os jornais, informações que já lemos em versões contraditórias sem que se saiba dali se alguma coisa é verdadeira. Malas com dinheiro, cofres com dinheiro, dinheiro que não é do amigo, que é dele, casas que não são do amigo, são dele - coisas que vão sendo apregoadas sem provas, tudo coisas que visam destruí-lo junto da opinião pública e que ele, veementemente, refuta.

Já aqui o tenho dito: não faço ideia de qual a verdade no meio desta caldeirada toda mas desejo, por todas as razões e mais uma, que Sócrates não seja culpado de nada do que o venham a acusar. Mas, depois de todo este regabofe justicialista e mediático, quero saber, como qualquer cidadã deve querer, qual a verdade dos factos e quero que, se ele for condenado, expie a sua culpa. Mas, se não for, como espero que não seja, só desejo que quem o está a sujeitar a isto sofra também as consequências.

Do que tenho visto até aqui, em termos objectivos - e tendo sempre presente que, até prova em contrário qualquer cidadão é inocente - tudo me parece uma ficção macabra. Sinto-me mal, insegura e indefesa, eu, vulgar cidadã, quando vejo a forma prepotente e quase desumana como está a ser tratado um ex-primeiro-ministro relativamente ao qual não houve ainda nem condenação nem, sequer, acusação.

Provavelmente lá virá o Leitor do costume lembrar-me que está a ser aplicada legislação aprovada por Sócrates. Azar. Ninguém é perfeito e se ele aprovou legislação tão desumana fez mal. Talvez este caso tenha o mérito de nos mostrar o quão frágeis são os nossos direitos e liberdades e nos faça perceber como deveremos ser mais cautelosos em tudo o que tenha a ver com a dignidade humana.

De resto, estou-me nas tintas para a forma como ele gastava o dinheiro dele, para os amigos que tem, para a forma como se dá com a ex-mulher ou para todas essas intrigas próprias de vizinhas coscuvilheiras.

Era o que faltava que, se eu tivesse sido figura pública, às tantas andassem os Correios da Manhã desta vida a especular sobre o número de livros que compro, os sapatos que tenho, se vou a restaurantes caros, se alguém me empresta dinheiro, se os meus pais me ajudam ou transferem para a minha conta o fruto de vendas que façam. É que era mesmo o que faltava. Se houvesse dúvidas sobre a minha honorabilidade e respeito pelas leis então que investigassem mas investigassem a sério - mas comigo em liberdade e sem me enlamearem pelos jornais e televisões.

Finalmente: Sócrates é um homem com uma surpreendente força anímica e não tenho dúvidas de que vai sair de tudo isto mais forte e melhor pessoa. Tudo isto deve estar a trazer-lhe brutais ensinamentos e escrevi a palavra brutais deliberadamente. A vida não lhe tem sido fácil, tem passado por provações, nomeadamente a nível pessoal, que enfraqueceriam qualquer um - mas ele tem conseguido manter-se inteiro. Estou certa de que hoje é um homem melhor, mais consciente dos verdadeiros valores da vida, mais humano e mais tolerante do que quando era um jovem fura-vidas, ou, mais tarde, um falcão fazendo por singrar na vida partidária e afirmar-se nos meios lisboetas. E, quando tudo isto acabar, vai ter muito que contar.


Insignificantes são os seres humanos perante a grandeza do mundo.
Mas os mais insignificantes de todos são os que se acham acima dos outros, os que se julgam com direito a humilhar os outros.

A fotografia mostra uns quantos homens trilhando um caminho na neve dos Alpes e é da autoria de Jakub Polomski

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Lá em cima a bela música está a cargo de Charles Lloyd no sax e Jason Moran no piano.
E muito obrigada a quem mos deu a conhecer!


5 comentários:

Anónimo disse...

O único comentário minimamente equilibrado que li sobre o caso Sócrates foi do ex-deputado do PS Henrique Neto que disse apenas que achava muito estranho todos estes empréstimos de um amigo…
Acho que qualquer pessoa dita normal também tem a mesma opinião.
Quanto às respostas do Ex Primeiro-Ministro, só serviram para o enterrar ainda mais, contradizendo-se em vários pontos e nunca negando o que é essencial, que recebeu grandes montantes de dinheiro… a troco de nada…. Mas será que alguém acredita nisto?
Quanto ao próprio Sócrates e o facto de ser Ex Primeiro-Ministro, para mim, batatas….. Preocupa-me a qualidade das Leis, mas, muito sinceramente, não poderia esperar muito mais dado a qualidade e irresponsabilidade dos nossos políticos.
Sinceramente não percebo esta campanha a favor do Ex Primeiro-Ministro. No caso Isaltino, não houve nada disto, nem do Duarte Lima nem do Vara….
Daqui a pouco está-se a dizer que preferimos alguém corrupto que faça alguma obra do que alguém integro que não faça nada… como se pudéssemos ou sequer devêssemos, mesmo que de forma abstrata, pôr as coisas nestes termos.
Concluindo, neste momento, é mais razoável ter mais confiança na justiça do que na palavra do Ex Primeiro-Ministro.
Espero que vá a tribunal e que seja absolvido, sem recurso a nenhuma "tecnicidade" do processo…

BB

FIRME disse...

Vamos ver se a justiça,não é cega surda,muito menos injusta! Hoje em dia,não estranho NADA...

Anónimo disse...

Não pretendendo entrar na discussão sobre a situação de José Sócrates, o que me parece grave, mas isto é um defeito da nossa legislação penal (de que o ex-PM afinal, como diz, é vítima daquilo que fez aprovar, para além de legislação anterior existente), é um indiciado ser preso e manter-se nessa situação sem saber o teor concreto da suspeita que recai sobre ele, ou seja, daquilo de que é investigado e poderá vir a ser, potencialmente, acusado. Esta situação diminui a capacidade da Defesa e reforça a da Acusação, quando, se vier a ser o caso, tiver lugar a instrução preparatória (se requerida, naturalmente). E este procedimento, esta desigualdade, não se adequa ao de um Estado de Direito. Mesmo por ocasião dos interrogatórios, com vista a finalizar o inquérito, a Defesa, perante esta situação, fica em pior posição, face à Acusação. Nesse aspecto, o sistema criminal e penal anglo-saxónico e norte-americano dá mais hipóteses a um acusado de se defender, no início do processo, embora, depois, sobretudo no sistema americano, os julgamentos sejam um teatro e os juízes apenas árbitros dessa encenação, ao contrário do sistema europeu, onde os juízes têm um papel mais relevante e decisivo – e condutor nos julgamentos. Por outro lado, esta contínua fuga de informações por parte da Acusação para a imprensa em geral (e alguma em particular, como o CM que no seu canal de TV todos os dias gosta de perorar sobre o caso, com informações que lhe vão chegando!), poderá ter um efeito perverso, de boomerang, pois, se Sócrates acabar por não ser acusado, ou vindo a ser, a Acusação não conseguir fazer prova em julgamento, para o condenar, saindo ele absolvido, a imagem da nossa Justiça sairá deveras desprestigiada. Após tanta “acusação” publicada nos “media” se tal vier a ser o desfecho, por hipótese, que será da nossa Justiça? Fica esta reflexão.
P.Rufino
PS: ouvi entretanto que não tinha sido encontrado o contrato de compra e venda da casa do PR, em Albufeira, embora se tenham encontrado o de outras figuras como Catroga, etc. Cavaco, se é verdade, continua a ser notícia e não pelos melhores motivos.

Anónimo disse...

Há coisas que me encanitam. Sócrates não pode dar entrevistas, mas há pelo menos um recluso em Évora que até tem um blog onde fala da vida de Sócratas na prisão: https://dosdoisladosdasgrades.wordpress.com/
MCarmoMarcos

FIRME disse...

Parece mesmo que neste REGABOFE,de conclusões jurídicas,este País virou quintal de JUÍZES...Vamos ver então,quem de sua justiça,porá ordem nisto! Espero que nenhum h.neto,interfira no assunto,pois o seu conceito de justiça,mede-se em duas palavras:ÓDIO-INVEJA !A arma dos vencidos da vida,por muito ricos que sejam...