Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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terça-feira, janeiro 27, 2015

Que bom que é esperar uma carta e saber que ela há-de chegar


No post abaixo falei e mostrei Yanis Varoufakis, um homem com pinta e que fala como se estivesse a dar o peito às balas. Dele se diz que vai ser o Ministro das Finanças da Grécia e, olhando para ele, acho que promete.

Mais abaixo ainda, mostro um casal a falar e exemplificar algumas posições sexuais. Não fujam porque não mete medo. Pode ser útil, tem graça e não ofende.

Mas, enfim, isso é a seguir. Aqui, agora a conversa é outra.








Há mil anos atrás, estava na praia quando chegou uma família inglesa com uma miúda da minha idade. 

Tinha um fato de banho curioso e toda ela era diferente. Alta, espigada, muito branca, cabelo quase branco de tão louro, cortado a direito pela nuca. Teria eu talvez uns onze ou doze anos, ou talvez fosse nas férias em que fiz treze. O que me chamou a atenção não foi tanto o fato de banho que tinha um folhinho à altura da anca, parecia um modelo antiquado ou cinematográfico, nem sei, sei que, na altura, a achei muito diferente de mim. Mas o que mais me surpreendeu é que não sabia nadar. Por essa altura estava eu farta de saber nadar e de gostar de ir para fora de pé. Mas ela não. Sendo tão alta, parecia na água uma criança pequena.




O pai, enorme e bem mais velho que o meu, punha-lhe o braço por baixo da barriga e ela deitava-se sobre o braço e depois riam-se e ela desequilibrava-se. Para a incentivar o pai chamava-lhe a atenção para mim, menina do mar, que por ali andava nadando, contornando as rochas mais afastadas da beira de água. Depois o pai perguntou-me como é que eu me chamava e que idade tinha e chegámos à conclusão que eu era da idade da filha. Chamava-se Jill. Às tantas já andávamos as duas a brincar, eu incentivando-a a trepar às rochas mais pequenas e mais perto da areia, levando-a a saltar comigo, rindo. Durante alguns dias encontrámo-nos sempre no mesmo sítio e, claro, acabámos amigas. Quando nos separámos, trocámos moradas e passado algum tempo éramos pen friends.




Sempre gostei muito de escrever e era para mim um prazer escrever-lhe a contar o que fazia, o que lia, contar-lhe dos meus amigos. Depois recebia na volta um envelope de avião como o que eu lhe enviava mas num tipo de papel diferente e com selos da família real inglesa. Na letra típica dos ingleses, ia sabendo de uma outra forma de viver a adolescência, ela numa liberdade natural e eu tendo que disputar a minha. Fomos crescendo, tendo vários amores e íamos descrevendo como eram eles, o que dizíamos, as nossas descobertas e aventuras, as nossas brigas com os nossos pais. Pelo menos uma vez por semana eu enviava uma carta e recebia outra. Era sempre uma alegria quando o carteiro trazia uma carta da Jill. Também enviámos de vez em quando fotografias uma à outra. Ela ia-se fazendo uma adolescente alta e magra, sempre com o mesmo corte de cabelo, bonita. Acho que interrompemos a correspondência quando começámos a ter namoros absorventes, não havendo tempo de sobra.

Houve outra situação.




Nem sei bem que idade teria, talvez uns treze, quando fui com um grupo de amigas acampar numa quinta frondosa não me lembro bem onde, talvez para as bandas do Lumiar. Acho que fomos com a professora de Educação Física e talvez com outra mas não tenho ideias precisas a propósito das professoras, tenho sim das colegas. Não sei a que propósito foi isso. O que sei é que a quinta era densamente arborizada, muito bonita e que lá fomos encontrar outras miúdas de outros liceus. A maioria seria de Lisboa mas também Cascais, Leiria, Setúbal,  Porto e provavelmente de outras localidades. Montámos tendas e fazíamos as refeições, à noite havia lareira e nós todas sentadas à volta a cantar, we are my sunshine, my only sunshine, e levámos pick ups e discos e algumas de nós dançámos em coreografias que ensaiávamos de tarde. Uma festa, em suma. Nunca fui dos escuteiros nem ligada a actividades paroquiais pelo que não faço ideia do que lá se passa, talvez haja festas similares. Mas eu sempre gostei de conhecer gente e de estar em sítios desconhecidos pelo que, para mim, tudo aquilo era uma alegria.

Depois na despedida houve abraços, antecipação de saudades e, claro, troca de moradas. Fiquei a corresponder-me com uma menina do Porto e outra de Leiria. Tornámo-nos mesmo muito amigas. Durante anos durou aquela correspondência. Com a do Porto, a São, então, escrevíamos cartas imensas uma à outra.




Por isso, todos os dias era com impaciência que eu esperava pelo carteiro ou, quando a hora não o permitia, vinha do liceu já na expectativa do que me esperaria na caixa do correio. Que alegria.

Sempre adorei ler como já aqui falei várias vezes mas, entre os livros, havia a alegria da leitura das cartas que recebia. Vivia a minha vida e a vida difícil da menina do Porto que tinha muitos irmãos e uma casa pequena demais para tanta gente, vivia a vida complicada de uma menina rica de Leiria que tinha uma casa enorme mas uma mãe que vivia deprimida e a fazer curas de sono e vivia, também, a vida de uma menina inglesa que me falava de costumes e liberdades nos antípodas das nossas.




Depois, anos mais tarde, tive um namorado dado à escrita e à poesia. Um mês por ano ele ia de férias com os pais para a casa da família no Algarve e eu ia com a minha família para Porto Covo ou Curia. Por vezes, o mês dele não coincidia com o meu pelo que podíamos passar mais de um mês sem nos vermos. Esse distanciamento era compensado através de palavras escritas. Não havia mail nem sequer telemóvel. Quando estávamos fora de casa, tínhamos horários combinados. Eu ligava do hotel para casa da avó dele, por exemplo. Parecem outros tempos. Mas, sobretudo, havia as cartas dele sempre belas e apaixonadíssimas, por vezes com poemas.

Às vezes, tomávamos o gosto às cartas e, mesmo depois de férias, calhava escrevermos cartas de amor um ao outro. Acho que as dele eram mesmo de amor. As minhas, acho que eram mais de amor à escrita do que a ele – mas isso digo eu agora. Na altura, acho que não sabia distinguir.

A esta distância o que me recordo é do prazer de escrever e de ler. Mas de ler de fresco, pela primeira vez.

Quando saí de casa não quis trazer uma única carta, que nunca reli, e devem ser centenas. A minha mãe ainda as lá teve ter. Se calhar leu-as. Sempre me foi indiferente. O que é do passado, deve ficar no passado. Apenas me interessa o rasto que as coisas deixaram em mim e interessa-me enquanto perdura. Quando esqueço, não me interessa repescar. Por isso não participo em jantares de curso, em encontros dos alunos da turma não sei quantos, dos colegas de empresa de quando estávamos não sei onde. Quero lá eu saber disso. O tempo mal me chega para o que quero descobrir quanto mais andar a desperdiçá-lo com o que ficou no passado.




Mas, voltando ao ponto que me trouxe aqui: escrever, receber cartas. Já não as escrevo nem recebo em papel. Mas escrevo e recebo mails. Alguns são especiais. Por vezes, num flash descobrem-se afinidades imprevistas. Outras vezes fica-se perto de quem se admirava de longe. Outras vezes parece que falamos entre irmãs, amigas de verdade, com quem a gente se preocupa e a quem quer bem. Outras vezes as respostas tardam, inquieto-me, o que será feito? Estará tudo bem? E tenho vontade de escrever, saber se a vida profissional vai bem, se a vida pessoal também, e gostava de me sentir surpreendida, de receber boas notícias.
O tempo é-me muito curto. Tenho vinte e dois ou vinte e três dias de férias por ano, nem sei ao certo quantos são agora. Trabalho cerca de oito horas por dia ou mais. Para além disso tenho a hora do almoço e as horas para as deslocações. E tento fazer uma hora de caminhada por dia. Se levo a máquina fotográfica, essa hora dilata-se. E tenho as compras e as coisas da casa para tratar. E tenho uma família a quem sou chegada e por quem me distribuo. E ainda tento ler e tento manter disponibilidade para o cinema e para alguns passeios. Se pudesse passar sem dormir, ajudava - mas todos os dias algumas (poucas) horas de sono são inevitáveis. Todos os dias gosto de escrever aqui e como sabem, estico-me, escrevo, escrevo. 

Ou seja, não consigo responder a todos os mails que me enviam mas há alguns que, quando os vejo, me enchem de expectativa, mal abro a caixa de correio já vou na esperança de os ver e tomara eu ter todo o tempo do mundo para lhes responder logo de seguida, de conversar, de perguntar, de comentar o que disseram e de não ter receio de ser maçadora e perguntar, perguntar, na esperança que, nas respostas venham palavras raras, recordações sinceras como histórias de criança, ensinamentos, notícias de outras terras, de outras vidas, para eu me poder sentir transportada para jardins silenciosos ou casas frescas onde o sol se esconde por detrás de espessos cortinados. E eu misteriosa, oculta na sombra que o sol desenha no canto mais secreto da casa, a ouvir, encantada.

Gosto de conhecer pessoas, gosto mesmo muito de conhecer pessoas, de lhes descobrir a alma. No fundo, acho que tudo se resume a isso.




(Tanta conversa para uma conclusão tão simples, não é?)

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As fotografias são de Tim Walker

Antony and the Johnsons interpretam Bird Gerhl

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E eu permito-me relembrar que, a seguir, há mais dois posts, um sobre um homem com muita pinta que eu faço votos para que meta o Schäuble no bolso e outro sobre posições sexuais.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa terça-feira.

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4 comentários:

Anónimo disse...

Cara UJM

Gosto muito de ler o que escreve!
Que bom é vir aqui todos os dias.

Tenha dias muito felizes.
Abraço amigo da
Leanor

Rosa Pinto disse...

Boa tarde.
Não recebi carta.


A bunda que engraçada

A bunda, que engraçada.
Está sempre sorrindo, nunca é trágica.

Não lhe importa o que vai
pela frente do corpo. A bunda basta-se.
Existe algo mais? Talvez os seios.
Ora – murmura a bunda – esses garotos
ainda lhes falta muito que estudar.

A bunda são duas luas gêmeas
em rotundo meneio. Anda por si
na cadência mimosa, no milagre
de ser duas em uma, plenamente.

A bunda se diverte
por conta própria. E ama.
Na cama agita-se. Montanhas
avolumam-se, descem. Ondas batendo
numa praia infinita.

Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz
na carícia de ser e balançar.
Esferas harmoniosas sobre o caos.

A bunda é a bunda,
rebunda.

Carlos Drummond de Andrade

Beijinho

Pôr do Sol disse...

Na nossa geração havia o prazer pela escrita. Todos passámos por essa face. A troca de correspondência era muito importante. À sua conta fiz uma colecção de selos muito interessante, com os animais de Africa, bandeiras de países que já não existem etc., tenho pena de lhe ter perdido o rasto. Mas ainda mantenho mais de mil postais ilustrados e mais de cem de Natal e Parabens.
Lembro-me de escrever a todos os amigos e familiares quando estávamos de férias e de pedir a todos que viajavam que me mandassem tambem. Conheci muitos monumentos do estrageiro assim.
Hoje quando abrimos a caixa do correio, raramente sorrimos com uma missiva amiga. A maioria é lixo, são catalogos, folhetos, contas.
De vez em quando escrevo postais à minha neta. Umas vezes identifico-me, outras não. Escrevo em nome das estações do ano ou outros temas, o que faz com que ela já espere correspondencia do "João Ninguem". A pequenita sente-se importante por a receber e eu acho divertido e tento cultivar-lhe esse gosto.

Anónimo disse...

Pôr do Sol tem toda a razão. Perdeu-se o hábito de se escrever a alguém, de se enviar um postal, uma carta. Lamentável. Que Mundo este onde vivemos! Por norma, quando recebo e-mails de gente amiga, respondo de forma ainda mais breve. Se é um SMS para saber de mim, como estou, etc, digo-lhes para me telefonarem para conversarmos. E se for á noite, só para o fixo - e depois da hora de jantar. Esta cambada já nem horas de refeição respeita! Se é um daqueles SMS de Natal, Fim de Ano, etc (parabéns) dos que a porcaria dos TLM produzem para toda a gente, nem respondo. Se alguém nem sequer é capaz de imaginar umas linhas para me enviar, ignoro-os. Quanto à malta nova, perdi as esperanças, é quase como se não existissem. Nunca se lembram de ninguém, nem querem saber de ninguém, a não ser dos da geração deles. A não ser nos anos, se os pais os organizam - para eles. Felizmente, que os nossos filhos ainda nos contactam com frequência e nos encontramos com regulariedade. Eles próprios queixam-se dos primos que já só socializam por facebook e outras tretas, que eles não seguem, porque não querem ser iguais à cambada que só se contacta através dessas redes sociais. É fotos, encontros e outras pessegadas que a malta põe hoje nas tais redes sociais, numa ânsia de se mostrar, que faz impressão. Perdeu-se o recato, educação, postura, tudo. Gente vulgar! Uma trampa!
P.Rufino