Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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domingo, janeiro 25, 2015

Pode um puto marado fazer-se passar por quem não é e enganar meio mundo? Pode, então não pode...? As pessoas andam sempre desejosas de ser enganadas, qualquer bicho careta o consegue.


No post a seguir a este já falei na moda dos calções e calças de crochet para homem e para mulher e mostrei uns modelitos para inspirar os menos criativos.

Mas isso é mais abaixo. Aqui, agora, a conversa é outra.


No prédio onde morei antes de morar na casa onde vivo agora, habitava, no andar por baixo do nosso, um casal com uma filha da idade da minha. A miúda volta e meia ia brincar para minha casa. Em contrapartida, a minha filha nunca queria ir brincar para casa dela pois dizia que não gostava dos pais dela, achava-os estranhos.

Os pais eram altos, porte erecto, ele de cabelo muito louro e muito curto, ar germanófilo, e ela era idêntica, loura, cabelo forte e curto, uma autêntica sargenta das SS. Mas o pior não era isso. O pior é que, volta e meia, a casa quase vinha abaixo com as discussões entre ambos. Gritavam um com o outro até mais não poder, atiravam portas, ouvia atirarem coisas que se partiam, um pavor. A voz dela ouvia-se em surdina mas o que ela dizia deixava o marido de cabeça perdida. Gritava-lhe com voz desesperada, furibunda, 'Oh Luísa! Tu não me digas isso!'. E lá ia mais uma coisa contra a parede. Outras vezes corriam um atrás do outro, deitando abaixo os móveis que se lhes atravessassem no caminho. Se fosse hoje, acho que chamava a polícia mas, nessas alturas, só me preocupava com o mal que aquilo deveria fazer à criança. Ficava eu e o meu marido muito calados, a ver o momento em que deveríamos intervir. 

Mais do que uma vez, ao chegar ao prédio, vi a miúda no hall, junto aos elevadores, ar meio perdido. Quando lhe perguntava o que estava ali a fazer, dizia que estava ali enquanto os pais conversavam. E, ao sair do elevador no meu piso, ouvia logo que tipo de conversa estavam eles a ter: mais um daqueles arranca-rabos em que metade dos bibelots ia à vida. Contudo, invariavelmente, quando os via na rua, ia o calmeirão com o braço por cima dos ombros da calmeirona, lampeiros, conversando e rindo como se fossem um casal feliz. 

Mas aquilo deve ter provocado uma pancada das valentes na miúda porque, já eu não morava lá, estava uma vez numa ourivesaria, entra a rapariguita, talvez tivesse uns quinze ou dezasseis anos. Não me viu e ainda bem. Dirigiu-se ao dono da ourivesaria, com voz de menina mas com ar convicto, e pediu para ver uma gargantilha de ouro que estava na montra. O senhor tirou a bela jóia, mostrou-lhe, ela mirou, remirou, ar entendido, ajustou-a ao pescoço, viu-se ao espelho. Depois, com ar igualmente confiante, disse: 'Obrigada, é muito bonita. Não vou levar agora porque não vim prevenida'. E saíu, passada forte, desenvolta.

Fiquei perplexa. Uma fedelha armada em mulher feita, sem se dar conta do ridículo. Contudo, para minha surpresa, o senhor que a atendeu não pareceu chocado com aquilo. Não se desatou a rir quando ela saíu, não disse 'há com cada maluco!', nada. 

Lembrei-me disto ao ler, há bocado, que um rapazito de 17 anos se fez passar por ginecologista num hospital durante um mês. Um mês! A coisa passou-se em West Palm Beach, na Florida, Estados Unidos e apenas um médico achou estranho que ele fosse tão novo. Mas até lá ninguém achou impossível que um puto já fosse médico, e ele andou a enganar todos quem com contactava na maior das facilidades.

Faz-me lembrar aquele outro rapazolas de quem muito se falou há uns três meses, o pequeno Nicolas, que enganou meia Espanha, apresentando-se como um influente homem de poder, bem relacionado. E, no entanto, olha-se e o que se vê é um puto. Como foi possível ter enganado tanta gente?

Transcrevo:


Francisco Nicolás Gómez-Iglesias, um burlão de 20 anos, fez-se passar por assessor do Governo e chegou a frequentar festas da realeza. Foi detido. 


O médico diz que tem uma personalidade delirante e megalómana.



Francisco Nicolás Gómez-Iglesias tem 20 anos, mas movimentava-se nos círculos do Partido Popular (PP) espanhol como um «peixe na água». 


Apresentava-se sempre bem vestido e bem-falante e talvez por isso ninguém tenha desconfiado. 


Dizia-se tão bem relacionado com o poder espanhol que até conseguiu estar presente na coroação de Felipe VI e apertar-lhe a mão. Mas agora descobriu-se que tudo não passava de um embuste. Francisco Iglesias foi detido a 14 de outubro, após cinco anos a inventar uma vida paralela e a enganar toda a gente. No rol de acusações constam suspeitas de falsificação, usurpação de funções públicas e esquemas fraudulentos.


Francisco Iglesias sonhava ser famoso e, para realizar esse desejo, colecionou fotos onde aparecia ao lado de figuras como o ex-primeiro-ministro José María Aznar, a autarca de Madrid, Ana Botella, a antiga presidente da Comunidade de Madrid, Esperanza Aguirre, ou até mesmo, como já foi dito, a cumprimentar Felipe VI no momento da proclamação como rei de Espanha, à qual assistiu. 

Assistiu também a jogos na bancada VIP no estádio do Real Madrid ou no do rival Atlético, ao lado de Radamel Falcao, quando este ainda jogava no clube espanhol. 

(...)

Frankie, como o tratam os amigos, apresentava-se a quem ia conhecendo como alguém que ocupava um alto cargo numa qualquer instituição, fosse como assessor do Gabinete Económico do Palácio da Moncloa (a sede da Presidência do Governo de Espanha e a residência oficial do primeiro-ministro), dirigente do Partido Popular, ou representante das direções da Guarda Civil ou agente dos serviços secretos. 

Fê-lo sempre sem apresentar qualquer documentação.

(...)



E o artigo continua e nós pasmamos: mas não era óbvio que, com aquela idade (e aquela cara), o puto nunca poderia ser quem se dizia ser? Mas não. Por inacreditável que possa parecer, todos se deixaram enganar. 


Vídeo com: El pequeño Nicolás y el CNI




Vendo casos como estes, em que as pessoas aceitam acefalamente embustes tão facilmente desmascaráveis, percebe-se que se deixem igualmente enganar quando lhes dizem que foram culpadas pela crise financeira internacional ou que devem deixar os filhos partir para o estrangeiro, ver os ordenados ou reformas diminuídos, ou aceitar ficar a viver sem dinheiro, agradecendo o assistencialismo que lhes fornece a sopinha dos pobres. Aqueles dois casos de que falei (excluindo o caso da miúda minha vizinha) passaram-se respectivamente nos EUA e em Espanha mas poderiam ter-se passado em qualquer outro lugar onde os valores estejam virados do avesso e onde as pessoas tenham sido atacadas por essa estranha forma de cegueira que não tem origem em factores clínicos. A pior cegueira é a de quem não quer ver - é é bem verdade.


PS: E espero que hoje a Grécia dê uma lição aos palermas desta vida, especialmente aos que tão estupidamente têm passado estes anos de chumbo a apregoar que 'nós não somos a Grécia'.

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Aos poucos a vida vai voltando a entrar nos eixos e, depois de, este sábado, ter feito mais uma visita aos meus pais, este domingo vou ter de novo a casa cheia de pimentinhas e respectivos pais; e o riso dos meus meninos vai, de novo, soar e a desarrumação vai de novo tomar de assalto a minha casa que tão arrumadinha tem andado. Por isso, e porque tenho que preparar a amesendação para aquele bando de comilões e porque antes ainda farei a minha caminhada matinal, não posso agora dedicar-me a outros assuntos mais estimulantes, tenho que me ficar por aqui para me ir deitar.

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Bem. Relembro que modelos de calções e calças em crochet para todos, incluindo para homens, é já a seguir.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo dia de domingo.

E, a propósito de um belo dia de domingo, para vós uma canção que, há mil anos atrás, gostava de ouvir nas manhãs de domingo. Ouvíamo-la alto e bom som e cantávamos também alto e bom som, muitas vezes enquanto nos balançávamos ou dançávamos. Nessa altura, tínhamos com frequência uns amigos lá em casa ao fim de semana e ele era um pândego, agarrava-se à mulher, a quem tratava por Mariazinha (apesar de o nome dela ser outro), cantando-lhe também a plenos pulmões este Um dia de Domingo.

Um dia de domingo - Tim Mais e Gal Costa


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2 comentários:

Rosa Pinto disse...

Nós não nos enganamos com as pessoas, nós enganamo-nos somente a nós, quando acreditamos que elas são nossos semelhantes, no pensar e no agir.
Acredito que a única coisa perfeita nesse mundo é ser imperfeito, tudo dentro do maior respeito, claro!

Beijinho

Rosa Pinto disse...

Achei interessante.

A mitomania é uma distúrbio de personalidade onde o paciente possui uma tendência compulsiva pela mentira. Esta doença é também conhecida como mentira obssessivo-compulsiva.

Uma das grandes diferenças do mentiroso esporádico ou "tradicional" para o mitômano, é que no primeiro caso o indivíduo não tem resistência em admitir a verdade, enquanto o portador da compulsão por mentir usa a mentira em proveito próprio ou prejuízo de outro de forma imoral e insensível sem sentir necessidade de desfazer o engano.

O mitômano é o indivíduo que mente compulsivamente. Algumas vezes são pequenas mentiras, enquanto que outras vezes são pitorescas, elaboradas detalhadamente, que induzem o próprio mentiroso a acreditar nelas. Na mitomania o paciente usa a mentira de forma consciente para enganar pessoas e tirar vantagens, ele nunca admite suas mentiras embora tenha plena consciência de que são histórias imaginárias, e também não se constrange quando suas mentiras são descobertas.