Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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quarta-feira, outubro 29, 2014

A gramática livre dos gestos, a ausência de espaço, o fim da tarde, o sabor das leituras, a memória dos anos. Maria Gabriela Llansol, Pedro Eiras e Bach.


No post abaixo falei-vos e mostrei-vos um business case de sucesso garantido, uma barbearia-pornô. Depois falei de como é fácil abrir uma conta numa offshore e surripiar ao fisco o dinheirinho ganho com tanto suor.

Mas esses forrobodós são a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra. Vamos a coisas sérias.


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O quarto lembra-me um quarto de dormir e, ao mesmo tempo, uma sala de jantar. O quarto está absorvido na ausência de espaço e, quando Catarina, acordada, olha para mim, quer criá-lo. É como se o quarto estivesse cheio de paixão, e não tivesse lugar para o amor. Há uma televisão, um candeeiro sobre uma cadeira, letras que lutam em jarras de flores. Há objectos marcados por significações - terrina, bule, solitário, quebra-nozes, azulejo com o azul de uma estrela, cão de bronze, quadro pequeno e quadro grande. Sessão de leitura. Há dossiers pelo chão, enquadrados pelo vão da janela, tabuleiros, tapetes, roupas e arcas, funâmbulos que foram brinquedos de criança. 

Há o fim da tarde - luz viva que decresce. 

Há sempre e sempre Catarina que pensa levar-me hoje pelas ruas desta cidade atrás de si. "Nada é monótono quando a vibração é intensa". Adivinho o seu olhar. 

Principio a desenhar com a minha falta de habilidade - somente porque gosto de escrever desenho.




De certo modo, é verdade; já não são as mesmas frases, agora trazem-me o sabor das leituras e a memória dos anos. Recordo os instantes - o fragmento do tempo? - em que li, de cada vez; debruçado sobre as folhas de um livro. Como se os dias passados se inscrevessem no papel, e os anos ficassem impregnados na tinta, apontamentos e sublinhados, tempo preso na mina do lápis. Leio, releio, reencontro quem fui, lendo, outrora. Comentários breves, tentativas sobrepostas, leituras sobre leituras: as notas à margem parecem-me agora omissas, insuficientes; e já nem a minha caligrafia é assim.

Fome de copiar o texto, ficar tão perto: "O meu real é estar a descascar ervilhas e ouvir Bach", "Bach vagamente longe, na Hohe Messe in H-Moll, e perto de mim, entrando pela porta que está atrás do meu ombro". Porquê a Grande Missa em Si Menor? Confesso-te: sempre tive alguma dificuldade em apreciar esta Missa. É uma súmula de toda a obra de Bach, e nela reencontro árias, reescritas, de tantas cantatas que amo; mas sempre me pareceu demasiado monumental. Tão difícil para mim ouvir essa obra, compreender essa escala. E ainda que tudo seja sublime na partitura, agasta-me a ambição da totalidade.




Estou na cozinha com outra mulher a preparar, incluindo para os três homens, a comida. Descasco batatas, corto cebolas, ela prepara o coelho. Não falamos, não dizemos nada a não ser a gramática livre dos gestos, que se traduz, neste momento suspenso, por serenidade.

Tenho pensamentos soltos que aspergem a comida a preparar-se. O que eu sinto a pensar tem a natureza do alimento e dos objectos que, pelas mãos, esperam ser impelidos ao trabalho. Ter as convulsões do amor, de olhos fechados ou abertos, sobre a face próxima ou na escuridão dessa face, dá um carácter diverso à apreensão do rosto. 

Esta franja de suavidade é de uma qualidade tal que eu murmuro para esta fluidez de entendimento
a cozinha é um reino reservado ao pinhal que a envolve.




Mexo o açúcar no fundo da chávena de café, sinto a pequena resistência na colher, depois a força da inércia quando o café entra em rotação. 

A coluna de vapor sobe até à lâmpada do candeeiro e perturba-se, desfaz-se em voltas barrocas. 

Pouso a colher numa folha de papel: reflecte a luz, reflecte-me, no côncavo, a imagem invertida. 

O calor no metal recua, um breve halo. E lembro-me da tua frase:


Meu Deus, esta colher está agora aqui, e no espaço edénico.

Agora aqui, esta colher.



E reabro os teus livros, Gabriela.


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  • Os textos em itálico são excertos ao acaso de A palavra imediata, Livro de Horas IV de Maria Gabriela Llansol

  • Os textos que não estão em itálico são excertos não inteiramente sequenciais de Bach (capítulo: Maria Gabriela Llansol) de Pedro Eiras

  • A música é de J.S.Bach - Die Hohe Messe in H-moll (Grande Missa em Si Menor) - Aria: Benedictus qui venit. Carlo Maria Giulini, Chor & Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks.

  • As fotografias das bibliotecas provêm do blogue Bookshelf Porn que, em boa hora, um Leitor a quem muito agradeço me deu a conhecer.

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Relembro: por aí abaixo há mais dois posts com humor, barbearias e fuga ao fisco. É só escolherem.


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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela quarta-feira.


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3 comentários:

Anónimo disse...

Bom dia, UJM

penso estar aqui uma boa solução para deixarmos os livros à solta :)

http://www.youtube.com/watch?v=f8giE7i7CAE


GG

Maria disse...

isto vai de mal a pior

http://www.tvi24.iol.pt/sociedade/ics/revista-analise-social-suspensa-devido-a-linguagem-ofensiva

GG

Anónimo disse...

nada como um vídeo bonito - http://www.youtube.com/watch?v=4DjdJydl-ds#t=188

e já agora , fiquei de olho na música (linda) - http://www.youtube.com/watch?v=DKL4X0PZz7M


Bob Marley