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sábado, setembro 20, 2014

Magia ao Luar. A mente intuitiva e a mente racional.


Um Woody Allen em versão soft, alguma falta de densidade mas, para uma noite suave que quase parece de outono, uma comediazinha romântica não sabe mal.

Desta vez, em minha opinião, brilha com todas as letras a Tia Vanessa, Eileen Atkins, divertida, um humor delicioso, diálogos de uma inteligência irónica, induzida.

O argumento do filme faz reverter a importância da racionalidade, do raciocínio lógico, a favor da emoção, da intuição, da magia. Essa é a moral da história. 



Magia ao Luar, de Woody Allen com Emma Stone e Colin Firth






E, curiosamente, vem bem a propósito de um vídeo que Leitor que partilha comigo o interesse pelas coisas do cérebro me enviou.


A mente intuitiva é uma dádiva sagrada, e a mente racional é um fiel servo. Criámos uma sociedade que venera o servo e que esqueceu a dádiva.



The Divided Brain


Renowned psychiatrist and writer Iain McGilchrist explains how our 'divided brain' has profoundly altered human behaviour, culture and society. 





Já contei aqui que, depois de, em pequena, querer ser cabeleireira, a minha escolha para profissão a seguir recaíu em Psiquiatria. Não sabia de Neurologia, nunca ninguém me falou nisso, mas também não ia adiantar. A mente sempre foi, para mim, o primeiro e o último dos mistérios. Mas, quando soube que primeiro tinha que fazer Medicina (com Anatomia e corpos frios, abandonados, esventrados, e essa desgraça toda pelo meio), desisti. Depois, ainda pensei em Psicologia mas não era a mesma coisa e, na altura, o curso não tinha grande reconhecimento, o curriculum pareceu-me pouco consentâneo com o que me motivava. Desisti. Mas a curiosidade e o gosto mantiveram-se. Sempre se hão-de manter. Queria poder ver ao espelho o meu cérebro tal como vejo o meu rosto. Se rio, choro, se me zango ou me preocupo, se me vir ao espelho, vejo-o na minha expressão. Mas sei que, ao mesmo tempo, dentro da minha cabeça, muitas ligações se estabelecem e isso eu não vejo nem sei de que se trata, não faço ideia do que lá se passa mas sei que os pontos que se activam ou se comunicam não dependem da minha vontade.

A mulher de um colega meu teve há uns anos um AVC. Teria na altura uns quarenta anos. Perdeu a fala e o andar. Depois recuperou, mas apenas mais ou menos pois não dizia coisa com coisa, era como se falasse uma língua inexistente. A família olhava-a com estranheza enquanto ela dizia palavras incompreensíveis com a naturalidade de quem diz coisas normais. Aos poucos foi aprendendo mas ainda tem lapsos, só que aprendeu a dar a volta, faz a descrição das coisas, ou, de vez em quando, troca disparatadamente as palavras. Mas quem não saiba achará apenas que por vezes parece deslocadamente rebuscada ou que é despistada, daquelas que se trocam todas. Apesar de totalmente desaconselhado, continua a fumar e, querendo o cinzeiro, pede 'passas-me o relógio, por favor?'. Claro que faço de conta que nem dou por nada, passo o cinzeiro com naturalidade. Diz que coxeia ligeiramente mas ninguém dá por nada, também disfarça. O cérebro aprendeu a obter o pretendido através de outros caminhos.

Mas o tema do filme e do vídeo nem é sobre isso, só estou a falar nisto porque é tema cativante para mim. Somos aquilo que o cérebro nos faz ser mas o cérebro não é fundamentalista nem ortodoxo, sabe adaptar-se. 

Quanto à magia e à intuição, claro que me são conceitos caros, toda eu alinho por esse diapasão. Antes de ser racional (e sou), sou intuitiva. Já contei: casei com um homem por quem senti um violento amor à primeira vista. Não sei se deverei dizer amor ou se era atracção, mas também não sei se era atracção global ou se era apenas atracção física. Não faço ideia. O que sei é que faria (e fiz) qualquer coisa para me acercar dele, para fazer com que ele me viesse parar às mãos. Tive sorte, não tive que me esforçar: a coisa foi recíproca, embora do lado dele a coisa fosse mais simples. Quando lhe perguntei porque me olhava daquela maneira quando se cruzava comigo, contou-me que o seu pensamento era mais focado, queria digerir-me, digamos assim (tenho que ter cuidado com o que digo porque os meus filhos lêem o que escrevo). Tal como ele não me conhecia, também eu não fazia ideia de quem era e, no entanto, logo confessei àquele com quem namorava na altura: conheci o homem da minha vida. Claro que esse tal meu namorado ficou siderado, gelado. Mas eu sabia que era tão verdade que não poderia escondê-lo. Não sabia quem esse tal era, como era, nada, nada, nada. E, no entanto, senti no coração, no corpo e na alma que toda eu queria aquele homem, então ainda tão jovem quanto eu. Contei à minha mãe que ficou enervada: mas quem é? Via que a filha estava disposta a trocar um namoro sério, com quase três anos e já envolvendo as famílias, por alguém que lhe era totalmente desconhecido. Eu não sabia nada, apenas intuía que era um tal que estava de caso com uma minha colega e de quem ela falava como se falasse do Brad Pitt. Mas isso não me interessava nada, era-me indiferente, só sabia que não ia descansar enquanto não ficasse com ele para mim. Por ele e com ele fiz o que nunca tinha feito antes com os dois outros namorados, por ele senti a magia do amor irracional, total.

Coisas do cérebro, magias, cenas involuntárias - que há-de uma pessoa fazer?


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