Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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sábado, julho 19, 2014

Solto palavras no espaço e recebo, na volta, flores doces como mel


No post a seguir a este dou a palavra a uma libertina, uma mulher que não se arrependeu nunca de ter praticado um dos mais gostosos pecados capitais, a luxúria. 

Para lerem algumas das suas indecorosas confissões terão, pois, meus Caros, que depois deste, seguir até ao post mais abaixo. Isto, claro, se não forem de se escandalizar ou, se apesar de serem umas virgens pudibundas, amarem demais a língua de Camões.


Mas agora, se não se importam, vamos com as palavras. Voar.

Wings to Paradise






Eu poderia - em especial nestas misteriosas noites de verão e hoje ainda mais porque o céu e o rio já não se iluminam com aquele luar belo e decadente de há dias - abrir a janela e começar a falar, deixando que o ar levasse as minhas palavras.

Depois de umas noites perigosasamente quentes, hoje a noite está fresca, sopra uma brisa leve e entra-me pela janela o cheiro húmido das incertas chuvas de verão. Estive a espreitar e o rio está escuro, silencioso. Estive em silêncio também. Mas podia ter falado.

Todo o vasto espaço que me cerca está cheio de palavras, zeros e uns que se encadeiam, ondas e feixes, sinais invisíveis que transportam sons, sonhos, pensamentos, tudo cruzando-se, dançando, rodopiando, de uns para outros, de um para outro lado.

Também sob os meus pés e percorrendo quilómetros, atravessando oceanos, imensos cabos transportam incessantes vaivéns de músicas, filmes, palavras, zangas, ameaças, amores, inconfessáveis desejos, secretos crimes, arrependimentos, tristezas, obscuros amores. E nós, que andamos como se soubéssemos tantas coisas, não sabemos sequer as palavras que pisamos, as palavras que respiramos (tal como não sabemos que estranhas vidas habitam o interior do nosso corpo).

Mas, dizia-vos eu, podia abrir a janela e começar a falar. Mas não sei se as minhas palavras faladas chegariam a alguém. Estou em crer que não.

Mas já com as que escrevo é diferente. Gosto de imaginar que as palavras que escrevo, mal se soltam de mim, ganham asas (tal como se refere no texto que ontem transcrevi). As minhas seriam umas asas muito transparentes, um pouco como as dos pinhões dos meus grandes pinheiros de flandres, uns pinhões muito pequenos, que não servem para comer, e que têm uma espécie de asas que os levam para longe.

O meu pai conta que há muitos anos, era ele ainda jovem, chegavam da Dinamarca equipamentos para a fábrica. Os equipamentos vinham em cima de paletes feitas com madeira de pinheiros de flandres e, por vezes, sobre as paletes vinham ainda pequenos pinhões desses, pequenos pontos quase transparentes. Com o vento, os pinhões voaram e vieram a transformar-se em pinheiros que povoaram a serrania. Isto conta o meu pai. E o irmão dele também o diz. 

Quando comprámos o terreno cheio de pedras e mato e com uma casa muito antiga lá dentro, o meu pai achou que estávamos a fazer um disparate porque nunca conseguiríamos fazer nada daquela terra bravia e pedregosa. Mas isso não nos desmoralizou. Eu dizia que ainda haveria de lá ter um petit bois e todos se riam como se eu fosse lunática. Mas um dia o meu pai apareceu lá com três pequenos pinheiros de flandres e três mansos. Tinha ido adquiri-los a um viveiro onde se preparam espécies para reflorestar a serra da sua juventude.

Os pinheirinhos que trouxe eram pequeninos, um palmo se tanto, mas o terreno era tão pedregoso que ele achou que deveria cavar um buraco grande para que as pedras não viessem, mais tarde, a estrangular as raízes. Suou as estopinhas para arrancar as pedras da terra e o tempo todo dizia que estava com aquilo para nada, porque apenas com centímetros de terra e tanta pedra, nunca as árvores vingariam.

Vingaram. Fizeram-se enormes. Não param de crescer, já entram pelo céu adentro. A terra inóspita tornou-se verdejante, cheia de árvores, pássaros, coelhos, borboletas, flores. É o meu heaven.

Um dos pinheiros de flandres caíu num dia de ventania há ano e meio, uma imagem triste como poucas, o enorme pinheiro ajoelhado, caído por terra. Teve que ser cortado, uma dor de alma – quem por aqui me acompanha há algum tempo, talvez se lembre do desgosto que tive.

Mas as sementinhas aladas que dele e dos dois irmãos saíram têm-se espalhado pelo terreno. Hoje já lá estão mais uma meia dúzia e certamente mais estariam se não fossem cerceados quando se corta o mato e não se sabe o que lá está dentro.

Assim, como os pinhõezinhos alados,  imagino eu estas minhas palavras. Ninguém as vê, de pouco valem, mas voando através de ondas invisíveis ou entre milhões de zeros e uns lá vão encontrando o seu caminho e chegando até vossas casas.

Mas isto são as palavras escritas porque eu não sou muito de palavras ditas. Sempre fui mais de escrever do que de falar. Inibo-me um bocado. Estas palavras que agora estou a escrever, ditas, soariam a excentricidade.

Imagino-me, junto dos meus colegas, a dizer coisas assim. Pensariam que sou maluca. Já de mim não alinho no léxico comum, não digo que no fim do dia isto ou aquilo ou que o que interessa é o bottom line. Agora imagine-se o que seria eu pôr-me a falar de palavras aladas…? Polidos como são, não diriam nada, apenas sorririam e, delicadamente, mudariam de assunto. Provavelmente, quando se apanhassem longe de mim diriam com um leve toque de indulgência ‘e ainda querem que haja mais mulheres nas equipas de gestão…’.

Por isso, prefiro escrever. E as minhas palavras escritas voam e vão até vós, namoram o vosso olhar, brincam nas vossas mãos, entram na vossa cabeça. Estou, pois, agora, dentro de vós.

E depois acontecem milagres.

Com as minhas palavras nas mãos, alguns de vós abeiram-se de mim e trazem-me outras palavras, belas como flores, doces como mel, felizes como presentes de criança. Fico, então, comovida, lágrimas nos olhos, emudecida, agradecida. 

Por estes dias, tem acontecido isso comigo. Milagres. Pontos de luz que chegam até mim e entram directamente no meu coração.

Obrigada.

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Relembro: no post abaixo, uma escandalosa mulher sentada, quase nua, evoca a sua vida de escândalo e prazeroso usufruto. Vem pela mão de alguém que nos deixou muitas e belas palavras que viverão para sempre junto de todos quantos amam a língua portuguesa.


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Desejo-vos, meus Queridos Leitores, um belo sábado.

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3 comentários:

Vitor Gomes Freire disse...

L I N D O , estimada UJM !
Um Feliz fim de semana para si e sua Família.
Melhores Cumprimentos
Vitor

Tété disse...

As palavras que solta no espaço vêm realmente ter connosco, voando.
Nós seguimo-la, quer em leitura, quer em imagens e o mais que podemos fazer é dizer obrigada pela ajuda que nos permite sonhar e voar também.
Algumas vezes ainda faz com que consigamos esquecer algumas das coisas que nos acinzentam os dias.
Bom fim de semana e um abração
Teresa

FIRME disse...

Agora que o relógio pouco conta pra mim,leio com imenso prazer,as suas "escrituras" !Eu beirês,quase das terras do "demo",guardo com orgulho,o paraíso que por lá o meu pai deixou!Desde piqueno,me fez confusão,quando ao lado dele (10 anos+ -,)reparava que as aves fugiam de mim!meu pai ,tendo + q. fazer,fingia não ouvir!!! 45 anos,+ tarde tive 1 surpresa agradável...Numa garagem por mim restaurada,havia 1 ninho de andorinha que descuidada,a chocar os seus ovitos,ficou fechada!!!Maio 10 h noite entrei,vi a beleza á minha mão 1 andorinha! Dei-lhe água na minha mão!pu-la no ninho,deixei a garagem aberta e demanhã lá andava ela ou ele tratando da família!!!Coisa rara,por estes tempos!!!