Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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sábado, julho 19, 2014

As ditosas palavras de João Ubaldo Ribeiro que, com certeza, Deus tem agora em Sua Glória, estando a rir com este seu novo vizinho





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Para as mulheres



Tudo no mundo é secreto


(...)


Começou então a escravidão dele. No dia mesmo do banheiro, já mencionei esse dia, ele não queria me botar nas coxas em pé, atrás da porta de um banheirinho que nem bidê tinha, porque estava com medo de que a mulher dele, tia Regina, nos pegasse. Mas eu, que gostava do perigo de tia Regina nos flagrar, disse que, nesse caso, nunca mais faria nada com ele, ou ele topava ou adeus. Então ele topou e eu ainda lhe dei uma mordida no pescoço para deixar marca e ele ter que inventar uma história qualquer, ele que se lixasse, eu achava que não tinha nada a perder. Tia Regina não me suportava, morreu me odiando, meio caquética, mas ainda lúcida o suficiente para odiar. Claro que ela nunca teve condições de provar qualquer coisa, e eu fazia guerra de nervos, não tinha dó. Cheguei a pensar em comer ela também, mas não dava, só os perfumes que ela usava já broxavam qualquer um e, além de tudo, não acredito que ela caísse, era do tipo meu-negócio-é-homem, uma dessas antas falocêntricas, falófilas, falólatras que não morrem porque lhes falta vergonha. Para não falar que, sem eu ter nada com ela, meu domínio sobre o sacana era integral, era só dizer que ia contar tudo a tia Regininha - e ele sabia que eu era inconsequente, maluca e corajosa o bastante para contar - que ele ficava às portas da morte, quase apoplético.

(...)

Minha doença mesmo, minha doença, antes que ela acabe e ninguém saiba o que fui. É um aneurisma no meio do cérebro, inoperável. Sempre esteve aí, só soube faz algum tempo. No começo me assustei, mas não levei dois dias assustada, achei que será uma boa morte, provavelmente rápida. Já deixei instruções para doarem o que puder ser doado e tocarem fogo no resto e socarem as cinzas onde quiserem.

Mas não era uma boa razão para eu me maldizer e blasfemar? Ser avisada de que, a qualquer dia, dormindo ou acordada, minha cabeça pode explodir em sangue? Claro que não, morre-se de algum jeito, e considero o meu bom. Não seria tão bom se eu seguisse as prescrições, mas eu não dou a menor importância a quase nenhuma delas, ajo como sempre agi minha vida toda. Blasfemo nada, até agradeço. Faço tudo que me dá na cabeça, não quero saber de limitações. Eu não pequei contra a luxúria. Quem peca é aquele que não faz o que foi criado para fazer. E eu fiz o que Ele me criou par afazer. Não quero entender nada. Quero acreditar, mas não posso ter certeza, não se pode ter certeza de nada, que Deus me terá em Sua Glória e sei que ele agora está rindo.



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O que acima se lê são excertos de A Casa dos Budas Ditosos (livro que, quando foi publicado em Portugal pela Dom Quixote, no final de 1999, despertou polémica. O Continente e o Jumbo/Pão de Açúcar não o quiseram vender) de João Ubaldo Ribeiro, Prémio Camões 2008, que partiu esta sexta feira, aos 73 anos, na sua casa no Leblon no Rio de Janeiro ao ter sofrido uma embolia pulmonar durante a noite.


Sobre ele, transcrevo do Público:

Era poliglota, estudou e formou-se nos Estados Unidos, Alemanha e França, era mestre em Ciências Políticas e também membro da Academia de Letras do Brasil desde 1993. Na conferência de imprensa que deu antes da sua participação na FLIP, em 2011, Ubaldo defendeu que não era um homem de letras. "Encaro, geralmente, com imenso tédio o papo de um homem de letras. Não tenho interesse literário. Eu li por circunstâncias da vida. Fui criado numa casa cheia de livros, tive um pai muito rigoroso em relação à minha formação e, ao mesmo tempo, muito liberal no meu contacto com esses livros. Eram milhares e milhares de livros. Um casarão cheio de livros. Então eu li. Li muito, mas hoje não sou um velho de letras preocupado como vão as coisas do mundo literário brasileiro, quem são os novos autores que surgiram. Não sou realmente um bom papo de letras", disse.


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Lá em cima Chico Buarque interpreta Essa Moça Tá Diferente

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As imagens são de Gustav Klimt, 1913. 
A primeira, Nu sentado com olhos fechados, é a que ilustra a capa da 1ª edição portuguesa.

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1 comentário:

Anónimo disse...

João Ubaldo Ribeiro era óptimo! Não li muito dele, creio que 3 livros, mas a sua irreverência e linguagem utilizada muitas das vezes eram notáveis!
Ainda era novo. Um pena este seu desaparecimento.
P.Rufino