Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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quinta-feira, julho 17, 2014

Atenção às opiniões facilitistas em relação ao BES e ao papel do Estado neste processo. Há coisas com as quais convém não brincar e esta é uma delas. O risco sistémico no sistema bancário de um País pode ser sinónimo de falências em cadeia e de pobreza súbita para muita gente.


No post abaixo, dou conta de mais um acontecimento que merece que se faça silêncio em sua volta: um novo vídeo do Cine Povero e, desta vez, as palavras desenham árvores que vêm com pássaros dentro.

A seguir, e já que a noite está de luxo, há Chanel em várias vertentes mas o requinte, a simplicidade e a beleza são as de sempre. Pena é o preço - mas a gente fecha os olhos e pensa que isso não é problema. Ou vemos no computador e imaginamos que estamos a ver ao vivo, que estamos lá mesmo, a escolher uma sumptuosa peça de roupa, a colocar um esguinchinho de Jersey (um de Les Exclusifs, justamento aquele que tem um pouco de heaven lá dentro).

Mas isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra. E é, outra vez, das chatas, daquelas em que o luxo virou esgoto.


Distant Gardens 

(Mesmo distantes, mais vale pensarmos em jardins do quem atoleiros)





Vamos, pois, falar de BES. De GES. De Rioforte. E de outras embrulhadas.


Bolas para isto, digo-vos eu. O meu marido bem que me quis impedir mas, ainda assim consegui ouvir um bocado. Os papagaios do costume. Se calhar razão tem ele, que já não consegue ouvir aquela gente.

De um lado uma mulher horrorosa falava da natalidade com o seu habitual ar enjoado e sabichão e, estúpida, dava a entender que as mulheres não têm filhos porque não querem ter a maçada de acordar de noite, quando eles são bebés. E o troca tintas que fala de arrastão e que parece que está em todo o lado, lá estava, dizendo todas as parvoíces que lhe vêm à cabeça, sem querer saber de coerência, consistência ou decência dos argumentos. Todos lhe servem para defender as coisas parvas que gosta de defender. Devia ser proibido levar gente tão idiota à televisão. Mas, enfim, sobre natalidade a ver se falo amanhã já que hoje já não me parece que vá dar (é tardíssimo e ainda estou no princípio deste post).

Do outro, outra papagaiada capitaneada pelo José Gomes Ferreira, desta vez a falarem do BES. Que Passos Coelho fez muito bem em não se meter, que não poderia ter feito outra coisa, que isto, aquilo e o outro. E um diz uma coisa e lá vão todos atrás, como caniches atrás de um osso. Apenas a senhora do Público (de que não fixei o nome: seria Luísa?) parece conseguir pensar pela própria cabeça, benza-a Deus. Que gente leviana, que fala-baratos, senhores.


Pois, sobre se o Governo deve fazer ou não alguma coisa nisto do BES, eu não sei. Não digo já que sim mas não sou capaz, peremptoriamente, de dizer que não. Só gente que tem boca de trapos é que fala de coisas tão melindrosas como se estivesse a falar de um assunto menor e, portanto, como se pudesse falar de cor, sem conhecer os números, as consequências, as envolventes.

Não pode.

Neste momento ninguém sabe a verdadeira dimensão do problema pelo que ninguém, em plena consciência, pode dizer com certezas absolutas tem que se fazer isto ou não se pode fazer aquilo. Que é um escândalo financeiro, disso ninguém tem dúvida. Que depois disto, talvez muita coisa mude, talvez. Mas pouco mais se sabe, em concreto.

Contam-me que vai um grande nervosismo no Banco de Portugal: ninguém sabe exactamente o que se está a passar, nem a dimensão, extensão e implicações dos rombos.


Não sabe agora. Porque até há uns dias toda a gente louvava a maravilha que era o Carlos Costa e companhia: eram os maiores, tinham feito um trabalho maravilhoso, tinham blindado o BES, o BES era robusto, à prova de bala.

Vê-se.

Começam, aos poucos a saber-se os casos concretos da desgraça. Desde logo, a PT que aplicou os 800 milhões em papel comercial da Rioforte, um papel que, pelo que agora se sabe, vale o mesmo que uma folha riscada, amarrotada, boa para o lixo. 

Para quem não está muito por dentro, em traços largos e simplistas, papel comercial é como que uns títulos de dívida de quem os emite a favor de quem os toma. Uma empresa (neste caso a Rioforte) precisava de se financiar e, então, para equilibrar a sua tesouraria, pede dinheiro emprestado. Por outro lado, alguém tem dinheiro de lado e quer aplicá-lo. Poderia fazer um depósito. Mas os depósitos remuneram mal. Quem está a precisar de se financiar paga melhor. Ou seja, é uma aplicação interessante. 

O BES, tal como todos os bancos, vende papel comercial, títulos de dívida, o que se queira. Têm algum risco mas dão mais do que os depósitos. São operações normais e comprar ou vender papel comercial não tem mal nenhum, é o dia a dia da gestão financeira das organizações.

Não tem mal se as empresas sobre as quais se está a titular a dívida forem solventes e puderem restituir os montantes aplicados na data acordada. Caso contrário, estará a vender-se gato por lebre, lixo tóxico. Ou seja, o que esteve na base da crise financeira mundial de há meia dúzia de anos. Ou seja, comercializar papel comercial respeitante a empresas insolventes é uma fraude




Acontece que as pessoas (sejam particulares, sejam empresas) olhavam para o BES como um banco respeitável, sólido. Nunca imaginando uma desgraça destas, milhares de particulares aplicaram as suas economias nestes produtos, em dívida de sociedades do GES; e muitas empresas aplicaram igualmente o seu dinheiro aí.

Quando, como agora se está a ver, a Rioforte e outras dessas empresas do GES que estão falidas, deixam de ter como pagar o que pediram emprestado aos clientes, o BES, que comercializava esses produtos, fica com o menino nas mãos.

Mas não foi só a PT que se ferrou, claro que não. Nem foram só os milhares de pessoas particulares que ficam com zero onde julgavam que tinham um bom pé de meia (as poupanças evaporadas do retalho, a não ser isto estancado, serão, certamente, uma grande dor de cabeça para a nova gestão do BES).

É também Américo Amorim que aplicou parte da sua fortuna pessoal em lixarada dessa. E, lendo isto, muita gente pensará: Que se lixe o Amorim. Tem muito. Mesmo que perca muitos milhões, tem outros noutros sítios. Talvez, não faço ideia.


Mas também a Porto Editora, a empresa, está a braços com o mesmo problema. E a CGD. E o BANIF. E a EDP. E muitas, muitas, muitas outras, tantas que nem vai fazer sentido enumerar uma a uma.


Ora, se ficam sem o dinheiro que aplicaram nessa lixarada, como fica a exploração dessas empresas? Pode ser que algumas possam encaixar perdas de milhões. Pode ser. Mas poucas. Mas muitas outras não podem. E não podem porque deixam de ter dinheiro para pagar aos fornecedores, para pagar as matérias primas de que necessitam para laborar, para pagar ordenados.

Foi o Ricardo Salgado e toda essa gente que padecia de rapacidade crónica e que o cercava que fez toda esta borrada ao longo de anos para benefício próprio e para benefício daqueles junto de quem sempre quis estar bem. É certo que não vai agora o Zé Povinho pagar pelos desmandos dessa fina flor do entulho. Certo.

É também certo que as instituições que deveriam prever, prevenir, monitorizar e, em última análise evitar coisas destas não funcionaram e que, portanto, deveriam igualmente merecer o nosso repúdio.

Mas, calma. Não nos precipitemos.

E se o BES deixar de honrar os seus compromissos junto dos clientes? Há o fundo de garantia para depósitos até 100.000/depositante. Mas e quanto tempo irá durar o processo até que todos fossem ressarcidos? E os happy few que julgavam que tinham um bom pecúlio para a velhice e para deixar aos filhos e que, ficariam sem o que quer que fosse além dos 100.000? E os que, confiantes, compraram produtos de risco julgando que eram inócuos e que agora ficam sem nada, porque esses não estão sujeitos a qualquer garantia? E os outros bancos que ficam entalados porque igualmente investiram nesses produtos e ficam sem nada disso? E os clientes desses bancos?


E as empresas que ficam sem dinheiro no banco? Fecham? Declaram também falência?

E depois é o simétrico disto: as dívidas das empresas ao BES. Muitas e muitas e muitas empresas e autarquias (e outras organizações, incluinde os clubes de futebol) estão endividados até à medula. Se forem obrigados a pagar porque não têm outras garantias que dêem ao BES e porque o BES precisa de dinheiro como de pão para a boca, não têm como. Grande parte destas empresas, se tiverem agora que amortizar empréstimos, deixam de ter dinheiro para pagar ordenados, matérias primas e fazer face a outras despesas.

A economia portuguesa é débil, as empresas estão endividadas para além do normal (a dívida privada - leia-se: sobretudo das empresas - é brutal), e não aguentarão um súbito corte no financiamento. Por isso, por muito que Vítor Bento gostasse de ir buscar o dinheiro que tem por fora, tem que ter calma. Se o vai buscar à pressa, mata os clientes.

Já no outro dia o disse aqui: isto é o risco sistémico e é isto que se tem que evitar antes que comece a haver quedas em cadeia. O País não iria sobreviver a uma situação assim.

Não sei de que forma as instituições oficiais podem e devem intervir porque não conheço as contas desta teia imensa de dívidas cruzadas (tal como ninguém as conhece). O que sei é que tem que haver prudência, sangue frio, sentido de responsabilidade, inteligência, visão abrangente - e não ter medo da opinião pública porque, muito provavelmente, a opinião pública não faz ideia das consequências brutais (que envolverá certamente muitos e muitos dramas pessoais) se este processo não for travado a tempo.

Carlos Costa na terça feira, voz trémula, todo ele trémulo, lá veio dar a garantia de que toda a gente andava ansiosamente à espera: que há interessados em reforçar o capital do banco e que, mesmo que isso falhe, há outros mecanismos. Mas Carlos Costa, depois de se ter constatado a tibieza como tem gerido este processo, está fragilizado. Contudo, é melhor que nada.

É que, parecendo que não, ainda que apenas momentaneamente, parece que isso chegou para restaurar alguma confiança, não muita mas alguma, já que, em vez das quebras assustadores no valor das acções dos últimos dias, a tendência inverteu e na quarta feira já fechou no positivo. 

Estas são matérias em que a confiança é vital. 

Se há accionistas a quererem entrar que entrem. Se não entrarem, que avance o Governo com uma injecção de capital (recorrendo à verba cativa para tal). Mas que isto seja rápido antes que comece a haver corrida aos balcões que isso seria, então, mesmo o fim da picada.

O normal seria que a nova equipa de gestão só começasse a bulir quando tivesse a fotografia exacta do ponto de partida. Mas estes tempos não são tempos normais. Ou seja, aqui não vai ter tempo para isso. É gerir on the move, tomando decisões em cima da incerteza, usando o bom senso, o equilíbrio.

E, por favor, que alguém tire os papagaios do costume da televisão porque só servem para baralhar a opinião pública. Não apenas nunca acertam uma como dizem os maiores disparates com o ar mais sapiente do mundo. Mais vale que ponham o Ricardo Araújo Pereira, Bruno Nogueira, Eduardo Madeira ou Manuel Marques que esses são inteligentes, bem intencionados e fazem-nos rir.



[NB: Muita coisa se vai escrevendo e dizendo por aí, muita palha, muita vacuidade. Mas há intervenções que valem a pena ouvir. Como esta  AQUI.]

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Fundo do mar nas grutas em Sagres, por Ricardo Nobre


Para isto não acabar com assuntos que nos enchem de ansiedade, deixem que vos convide, meus Caros Leitores, a mergulhar na Serenidade.



Raul de Carvalho (1920-1984)
"Serenidade és minha" in «Mesa de solidão» (1955)
Mário Viegas (1948-1996)

Vídeo, uma vez mais, de CINE POVERO


MÚSICAS: Jan Garbarek, "Soria Maria" (1980). Pat Metheny, "Waiting for an answer" (1983). Sufjan Stevens, "Oh God, where are you now?" (2003)


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Relembro: por aí abaixo há mais dois posts. E neles não falo de coisas chatas, podem descer à vontade.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela quinta feira.

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3 comentários:

bob marley disse...

da mesma maneira que pedia na altura a lista dos depositantes do BPN e valores, por favor a lista e valores de quem comprou o papel comercial. parece pouco, mas é a diferença entre saber se o governo vai ou não intervir, tão simples quanto isto. o resto é conversa para boi dormir

Anónimo disse...

Mais um excelente Post, minha cara UJM, onde se explica e bem os efeitos de tamanho desastre financeiro, ou melhor, de gigantesca vigarice e fraude financeira. Um Post lúcido e muito esclarecedor. E quando vemos, como aqui refere, grandes empresas e grandes grupos empresariais envolvidos nesta crise, ou melhor, afectados – crise esta que, de facto, é sistémica, resta saber de que grau da “escala de Richter”, mas receio bem que poderá atingir o grau entre o 8 a 9, mas oxalá me engane, a pensar no meu bolso – começamos a ficar seriamente preocupados. Não por gente como Amorim, não é isso que agora importa, mas pelo que aqui menciona. São empresas, se calhar inúmeras e grandes, que poderão, a serem atingidas por esta pulhice dos Espirito Santo, vir algumas a ter de fechar portas, outras a reestruturar-se, outras a retrair-se, etc, no isso implicará, em termos de mais desemprego, menos investimento privado, mais dívida privada, mais contágio, por arrasto, a outras empresas, com as mesmas consequências, etc, etc, qual baralho de cartas a cair, aos poucos. Se um BPN já tinha sido uma enorme dor de cabeça, deixando marcas irreparáveis nalguns casos, o BES poderá vir a ser um sismo, do género 1755. Conheço gente que já começou a levantar o seu dinheiro e transferi-lo para outros bancos (como o BPI, por exemplo). Hoje um, amanhã outro, etc. Um outro caso, um conhecido com avultados negócios em Angola, com colocação de capital no BESA e aqui no BES, a estudar uma forma airosa de se livrar deles e colocar todo esse capital noutro banco. A falta de confiança começa a emergir. Embora suave, pezinhos de lã, é, já, notório. Só lá fica quem por qualquer razão não tem outra solução. Não esperando muito do Bento, fico, mesmo assim, algo surpreendido com a incapacidade de fazer ressurgir a imagem do BES, ainda que devagar. Naturalmente, o assunto é mais grave do que se pensava, ou do que ele imaginava. E não augura nada de bom, muito pelo contrário, as notícias que a imprensa internacional vem dando do BES e companhia, com as hienas do costume a arengar (Moodys, e Compª Lmtª). Para o governo de saída e igualmente de “saída” do tal resgate, com o TC a roer-lhe as maldades que propõe, isto não poderia ter ocorrido na pior altura. Até ao Natal, se as coisas não estancarem, a Ceia, em vez de bacalhau será de pão e água. Sim porque, não tenho a menor dúvida, o governo nesse caso, não hesitará em ir aos bolsos dos contribuintes para reparar a destruição do sismo que Salgado e abutres provocaram. Depois de recorrer à tal verba cativa. Caricato, mas nada surpreendente, até o futebol poderá vira sentir nas canelas, os pontapés do BES. Quanto ao regulador (e o antes dele, outro que tal), o melhor é os governos entenderem-se e irem buscar alguém mas capaz, que dê mais garantias de independência. Por exemplo, o actual Presidente do Tribunal de Contas. UJM, mais um brilhante Post, apesar nos fazer arrefecer os ânimos.
P.Rufino

lino disse...

Um excelente explicação do que está em causa.
Beijinho