Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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terça-feira, junho 17, 2014

"Dentro da NSA inglesa" [ou de como alguns estranhos critérios de selecção são usados para admitir funcionários na GCHQ, o lugar na Europa onde toda a informação que circula na internet é passada a pente fino - ex: homens, jovens, brancos, um certo grau de autismo. Ou de como a ética se vai diluindo até ser um conceito vago relativamente ao qual os quase-hackers precisam, de vez em quando, de ser aconselhados - sabe-se lá de que forma]


No post abaixo já vos presenteei com a minha douta opinião sobre a humilhante goleada de 4-0 da Alemanha sobre Portugal. Talvez agora a infantil euforia que parecia ter tomado conta dos media esfrie um bocado e deixe a equipa concentrar-se no que tem que fazer dentro das quatro linhas (como sói dizer-se). Alguma maturidade e capacidade de reflexão não fazem mal a ninguém.

Admirados com esta minha ousada incursão...? 
Se o Professor Marcelo pode estar meia hora a dissertar sobre futebol em horário nobre na TVI, disputando o lugar aos comentadores encartados, porque não hei-de eu, que também sou especialista em generalidades, dizer o que me vem à cabeça, ora essa? 
Não sou de andar a enviar piu-pius pelo espaço galáctico nem selfies enternecedoras pelo facebook ou blogosfera, nem a distribuir likes e outros fogachitos por amigos e afins mas, enfim, não sou de ferro: também tenho os meus momentos de fraqueza. E é assim que, não resistindo a cavalgar a onda, me permito pôr-me para aqui a opinar sobre o 1º jogo da selecção neste Mundial. 
Não sou dada a pressentimentos, a nada disso, mas qualquer coisa me andava a dizer que isto tinha tudo para ser um flop. Não ouço vozes do além (credo, vade retro) mas, no meio dos meus voos planados, acho que consigo captar a fragrância do ar do tempo, juntar um e um e, por vezes, até intuir que a coisa é bem capaz de dar dois. E, se não der dois, dá onze que é quase a mesma coisa.

Mas isso é no post a seguir. Aqui, agora, a conversa fia mais fino.

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Andava a prometer-vos isto há que séculos mas queria traduzir e ainda não tinha conseguido tempo para isso. É hoje. Mas agora, para o conseguir acabar, vou confessar: tive que fazer batota. Substituí uns dois ou três parágrafos, ou quatro, nem sei, por uns pontinhos entre parêntesis - caso contrário ainda não seria hoje e já me sentia uma vendedora de banha da cobra. De qualquer maneira, no final, vou deixar-vos o link para o artigo original (até para que, quem se entenda razoavelmente bem com a língua inglesa, possa ler exactamente o que o autor escreveu já que eu, inadvertidamente ou por nabice, posso ter subvertido alguma parte do texto ao traduzi-lo apressadamente). 

Os links que aparecem no texto são da minha responsabilidade. Usei graffitis do grande Banksy, de quem tantas coisas já aqui publiquei, respeitando o espírito do artigo original que apresenta um recorte de um graffiti que lhe é atribuído. Usei também duas outras imagens que são de artistas de rua inspirados nele (e que encontrei num livro que aqui tenho e que se chama Planet Banksy - The man, his work and the movement he inspired). E usei duas fotografias que encontrei via google para ilustrar a GCHC e a máquina usada para decifrar as mensagens nazis.


A detail from graffiti art is seen on a wall near the headquarters of Britain's eavesdropping agency, Government Communications Headquarters, known as GCHQ, in Cheltenham, western England April 16, 2014. 

British media have attributed the new work to acclaimed British street artist Banksy



Mad Rush para nos acompanhar, por favor

[Philip Glass]



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Depois de uma hora a secar com dois oficiais de comunicação, o acesso a Doughnut – o maior edifício de serviços secretos construído fora dos Estados Unidos e onde trabalham 4.000 empregados – foi assegurado.

Os telemóveis são confiscados e cartões de acesso e respectivos códigos de acesso são emitidos.

Imediatamente à nossa frente, encontramos na parede o emblema da Sede de Comunicações do Governo (GCHQ), que está sedeado em Cheltenham, Gloucestershire em Inglaterra. Depois de subirmos por uma escada mal iluminada, estreita e em espiral, chegamos ao que se chama 'A Rua' (‘The Street’) no 2º andar. The Street, ocupada por agentes, é como que um caminho largo e comprido, mais de 500 metros de comprimento, decorada com palmeiras e sofás e cadeiras confortáveis, circundando o interior do edifício.

A primeira paragem é o Museu de Criptografia, onde se encontra a famosa máquina Enigma, para lembrar como uma anterior versão da GCHQ descobriu os códigos nazis na II Guerra mundial. É também uma recordação de como o mandato do CGHQ se ampliou e de como a tecnologia se desenvolveu.  

Escondidos em pisos bunckerizados nos pisos imediatamente abaixo estão os muito criticados super-computadores que podem coligir e armazenar 21 petabytes de dados por dia (192 vezes o conteúdo de toda a British Library).

Edward Snowden é um tópico inevitável. O antigo contratado da National Security Agency (NSA) e, depois, delator frustrou e encolerizou muita gente em Doughnut. O antigo director Sir David Omand, actualmente professor de segurança nacional e contra-terrorismo em Kings College London, está frustrado com a deficiente interpretação que a comunicação social fez a partir das revelações de Snowden sobre a forma como se trabalha na GCHQ.

by Dr. D

"A distinção entre vigilância massiva e acesso ‘a granel’  aos dados é confundida nos media”, diz ele. “Vigilância massiva significaria persistente observação da população. Ora observação requer observadores. Não há tal vigilância massificada na GCHQ.  Computadores, não pessoas, têm acesso aos dados a granel, zilhões de gigabytes, de modo a encontrar o pequeno conjunto de informação relevante para a intercepção legalmente autorizada ao terrorista, ao criminoso ou a qualquer outro alvo legítimo.”

Neste momento, um analista GCHQ apenas pode ver o endereço IP do dispositivo suspeito ou do endereço de email do utilizador, quando e a partir de onde a informação teve origem e a identificação do servidor acedido. O analista pode descobrir que o suspeito fez pesquisas no Google mas não vê as palavras que ele usou para pesquisar,  que ele acedeu ao site da Amazon mas não ao que ele comprou; o endereço de email para o qual um email foi enviado mas não o título da mensagem nem a mensagem em si. 

Se um analista quiser ver o conteúdo de um mail ou mensagem, terá que ter um mandato assinado pelo Home or Foreign Secretary.

by Banksy

O Doughnut foi ideia de Omand. Foi ele que teve a ideia de trazer para debaixo do mesmo tecto várias agências anteriormente dispersas. Aberta em 2003, o custo foi um tímido £1 billião ($1.67 billion), quase metade do que custou a instalação de equipamento técnico.

É um edifício impressionante. Não há lugares fixos, sentam-se onde há lugar livre e vão para onde a missão atribuída determinar, guardando os pertences pessoais num pequeno armário (pequeno até à altura dos joelhos); todos os gadgets são plug-and-play. E não é fácil arranjar-se lá emprego.

A selecção de novos empregados é um processo personalizado que leva cerca de nove meses e envolve testes para garantir que não usou drogas no passado. Os cozinheiros, os empregados dos bares e os empregados da limpeza são escrutinadados ao mesmo nível dos agentes e o pessoal admitido é sujeito a pesquisas aleatórias conduzidas por oficiais de segurança.

by Banksy

Um número significativo de funcionários da GCHQ tem uma pontuação elevada no espectro do autismo. 


Os gestores tentam encaixar pedidos inusuais como foi o caso de um pedido para organizar a mobília segundo um determinado padrão geométrico. 

Das centenas de empregados que se vêem em The Street, dois não são brancos, cerca de meia dúzia são mulheres e apenas uma mão cheia tem mais de quarenta anos. Os restantes são homens, nos vinte e poucos, aspecto nervoso (uma velha piada interna na GCHQ é: um extrovertido é alguém que olha para os teus sapatos quando estás a falar com ele) e cerca de 5 por cento usam t-shirts (muitas com motivos Marvel ou super-heróis da DC).


by Banksy

Ponham-nos ao pé de um hacker e não se vai perceber a diferença. Um desses hackers era o adolescente inglês Jake Davis (AKA Topiary), um elemento chave nos grupos activistas de hackers Anonymous e LulzSec. Traído pelo hacker americano que se tornou informador do FBI Hector Monsegur (AKA Sabu), Davis usou um dispositivo electrónico durante dois anos (para que as autoridades pudessem monitorizar as suas actividades) e acabou a passar um mês na prisão em 2013.

Monsegur foi poupado a uma longa sentença pela sua extraordinária cooperação e foi libertado no dia 28 de Maio depois de um ano sob supervisão.

Sabemos, graças a documentos divulgados por Snowden, que Davis era visado pelos GCHQ, através dos antes secretos Human Science Operations Cell (HSOC), que combatem o fogo com o fogo, disfarçando agentes como hackers, infiltrando grupos online, distribuindo ataques de (DDoS), armadilhas e vírus de forma a tomar conta dos seus alvos.


by Banksy

E aqui reside o dilema moral. 

Para apanhar o mau da fita, até onde se pode ir? Podem inocentes ser apanhados uma operação da GCHQ HSOC? 

E o que acontece quando a GCHQ se engana? 

De acordo com os relatórios Interception of Communications Commissioner, o orgão que inspecciona o trabalho do GCHQ, o GCHQ comete poucos enganos quando acede a dados pessoais – um total de oito em 2011-12, o que é menos do que uma taxa de erro de 0.2 por cento.

(…)


by Banksy

Perto da saída de Doughnut está a Employee Assistance (Assistência ao Empregado), onde é providenciado aconselhamento, incluindo por um especialista em assuntos relativos a ética. 

Também há um centro de bem estar e uma sala de recreio com matraquilhos, televisão, jornais, dominós e cartas. 

Há um placard com um anúncio de um grupo de empregados gays e um outro anúncio de um Internet Café onde é permitido o acesso ao Facebook e ao Twitter.


Tudo razoavelmente normal – num extraordinário edifício de escritórios em Cheltenham.


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O artigo completo da NEWSWEEK, intitulado Inside England’s NSA e da autoria de Kris Hollington, pode ser lido aqui.


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Relembro: sobre os 4 baldes de água fria em cima das estrelas do Reality Show Selecção Nacional com Rinaldo incluído, é favor descerem até ao post seguinte.


E já cá volto com a descodificação do enigma de ontem

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