quinta-feira, janeiro 15, 2026

Coisas que os ricos nunca compram e a que os pobres não resistem

 

Há um canal no youtube intitulado Warren Advices que se apresenta com a imagem de Warren Buffett e, supostamente, com a sua voz. Contudo a voz é gerada por inteligência artificial e o que é dito, na realidade, não foi dito, pelo menos com aquele fraseado, por ele. Há um disclaimer em que isso é explicitado. Os autores dizem que os vídeos têm intuitos educativos e, aparentemente, coligem um conjunto de afirmações ou conselhos que Buffett ao longo da sua vida tem divulgado.

Estive a ouvir o vídeo que aqui abaixo partilho e, de facto, são conselhos sensatos e o que aqui é dito faz genericamente sentido. E, se eu não me incluo no grupo dos ricos, a verdade é que, como já aqui referi algumas vezes, conheço algumas pessoas muito ricas e posso testemunhar que praticam muito do que aqui se diz. 

Esta distinção entre ricos e pobres pode parecer classista, redutora e, até, absurda. Mas, pondo de lado esse aspecto, a verdade é que os há, os ricos e os pobres. E também há mil explicações para cada afirmação que se faça. Mas também me vou abstrair disso pois o objectivo deste post é apresentar as ideias que um dos homens mais ricos do mundo supostamente professa. Se ouvirem o vídeo, saberão que há uma ideia base: os pobres pensam sobretudo no aqui e agora, querem uma coisa e fazem de tudo para obtê-la, custe o que custar, sem pensar muito no médio/longo prazo. Gostam de ostentar e acham que a ostentação vale o preço que for. Os ricos (os muito ricos) não gostam de ostentar e, antes de gastarem dinheiro, pensam no que podem poupar se não comprarem o que se lhes apresenta.

Vários exemplos insignificantes se poderiam apontar. Uma pessoa pode tomar o pequeno almoço na rua, acha que não é por isso que vai ficar mais pobre. Como tomo sempre o meu em casa, nem faço ideia de quanto pode custar tomar o pequeno almoço fora. Vamos admitir que 3 euros. O que são 3 euros? Nada, pensará quem tem esse hábito. Mas um rico pensa de outra maneira. Vou falar no meu caso concreto: ao pequeno almoço, como uma laranja e a seguir kefir, natural, sem açúcar, de marca branca, com algumas sementes e canela. A seguir bebo um café. Se calhar, no conjunto, custa-me 1 euro. Façamos as contas. Poupo 2 euros por dia face a um pequeno almoço fora. Dois euros não é nada. Mas 2 euros vezes 30 dias por mês, são 60 euros por mês. 60 euros vezes 12 meses são 720 euros por ano. Ao fim de 10 anos, dá 7.200 euros. Com os juros anuais, em especial se capitalizarem, dará mais qualquer coisa. 

Ou os almoços fora. Claro que, quando se trabalha, muitas vezes é impossível não almoçar fora. Mas, admitindo que há alternativa, pensemos num exemplo. Uma pessoa, podendo almoçar comida feita em casa, opta por ir ao restaurante. Admitamos que é um restaurante económico e gasta, digamos, 15 euros. Um bom preço, não é? E se for só duas vezes por semana, também não é nada de mais. Contudo, um rico se calhar pensa de outra maneira. Se comesse em casa, provavelmente gastaria o mesmo por 5 euros. Ou seja, pouparia 10 euros de cada vez que não comesse no restaurante. 10 euros duas vezes por semana, seriam 20 euros poupados por semana. Vezes 4 semanas por mês, já a poupança iria em 80 euros por mês. 960 euros por ano. Ao fim de 10 anos, 9.600 euros, fora os juros.

E só nestas duas insignificâncias, já estaríamos a falar de 7.200 + 9.600 = 16.800 euros, fora os juros.

Não é muito...? Não. Mas poupando um pouco aqui, mais um pouco ali, e, se calhar, se quiser comprar uma televisão nova ou um carro ou qualquer coisa dessas, em vez de comprar a crédito por não ter qualquer poupança, pode comprar a pronto e evitar a enormidade que são os juros das compras a crédito de curto prazo que arruínam muita gente pobre.

Abro aqui um parêntesis para contar uma história verídica: uma vez, entrou-me no gabinete um funcionário da empresa, dizendo que queria sair da empresa e negociar a saída, ou seja, receber uma indemnização por saída antecipada. Espantei-me. Era novo de mais para se reformar e velho de mais para arranjar outro trabalho. Quis saber a razão. Desatou a chorar. Tinha arranjado uma namorada, tinha querido impressioná-la, foram passear e as viagens foram a crédito, tinha comprado uma televisão grande, a crédito, iam jantar fora muitas vezes e isso saía caro e tinha pedido um crédito pessoal, e depois não tinha conseguido pagar o empréstimo e tinha pedido outro... e depois mais outro... e já não sabia o que fazer, já andava a viver de dinheiro que pedia emprestado aos pais octogenários que viviam de reformas baixas. E chorava. Tentei que não fosse adiante com essa ideia pois iria usar o dinheiro da indemnização para pagar os empréstimos e, no fim, ia ficar 'liso' e sem trabalho. Disse que ia viver do subsídio de desemprego e que ia para a província tentar arranjar trabalho onde calhasse. Implorou-me que autorizasse. Tivemos uma reunião com a Direcção de Recursos Humanos. Muitas, muitas dúvidas. Mas acabámos por aceder. 

E não foi caso único. Foi talvez o mais dramático pois o total das dívidas já era brutal. Mas era frequente eu receber pedidos de autorização para se pagar antecipadamente os subsídios de férias ou natal a este ou àquele, ou para receberem antecipadamente parte do ordenado e, muitas vezes, quando eu falava com as pessoas para perceber o que se passava e para saber se precisavam de ajuda, concluía que se metiam em despesas absurdas sem acautelarem o que se passaria a seguir. E via como continuavam a gastar um dinheirão em tabaco, que é caríssimo (isto, sem falar, no malefício para a saúde), ou noutras despesas que facilmente poderiam ser suprimidas.

Mas, se estive a falar de 'trocos', a verdade é que, depois, há as grandes despesas como, por exemplo, comprar um carro novo. Uma pessoa rica (refiro-me aos ricos a sério, que fazem contas) nunca compra um carro novo. Compra um carro com poucos anos e poucos quilómetros. Comprar um carro 0 kms a crédito é um erro, um absurdo, um sugadouro.

Enfim. 

Quando fiz voluntariado numa escola situada numa das zonas mais carenciadas do país, um dos tópicos que abordava com os miúdos, que já eram crescidos, relacionava-se com isto: com a necessidade de fazer contas, de planear o futuro, de não pensar apenas no curto prazo, de não gastar dinheiro inútil que poderia vir a ser útil numa situação futura.

Calo-me já e passo ao vídeo. 

Os ricos NUNCA compram estas 5 coisas (mas os pobres compram diariamente)

Automóveis zero quilómetros: O ativo que mais deprecia, perdendo valor exorbitante assim que sai do concessionário.

Casas que não pode pagar: Endividar-se até ao limite não deixa nada para investir e prende-o a décadas de prestações.

Artigos de luxo para impressionar os outros: Marcas de luxo, relógios caros e símbolos de status que destroem património em nome das aparências.

Coisas a crédito que perdem valor: Pagar 20% de juros sobre ativos que depreciam é suicídio financeiro.

Opiniões alheias: Tomar decisões de despesa com base no que os outros pensam, em vez de pensar no que constrói património. 


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Abaixo há um vídeo, também de Inteligência Artificial mas num outro registo.

E um dia feliz

15 comentários:

Anónimo disse...

Portanto, não há exploração do homem pelo homem, os ricos é que são poupadinhos e os pobres preferem tomar pequeno-almoço fora e ostentar os anéis. Como dizia Montenegro, é tudo uma questão de mentalidade

Um Jeito Manso disse...

Como referi, não ia abordar o tema classista nem ia abordar as explicações para os factos, ia, apenas, referir os temas abordados no vídeo. Agradeço que releia essa premissa. O tema do vídeo referia-se apenas a hábitos que empobrecem mais os que têm pouco.

Anónimo disse...

Bom dia.
3 euros custa uma bica e um pastel de nata ou salgado, picalmoço a sério, tipo um galão e uma sandes de ovo ou tosta mistica mais bica etc, é quase um almoço tipo menu, e depende da tasca e do sitio também.
Mas como usava dizer entre dentes uma dona de cafetaria, minha vizinha, quando acordava mal dispona da costa e não lhe apetecia abrir a loja ás 06 da matina..
<< não sabem tomar o peq. almoço em casa<<
Claro que ás vezes ouvia-se e acabou por vender a tasca e foi para a Alemanha com o marido e filhos.

aamgvieira disse...

Vera , tem toda a razão !

Anónimo disse...

É pedir conselhos de literacia financeira a Carla Castro. Diria mais, criar uma nova quinta divisão do MFA com malta da IL para ir por vales e montes explicar como se governa a vida.

Há no entanto nesta terra melhores maneiras de poupar: ter parte numa PPP com o parvónio do Estado, ir para a política e levar o cônjuge e a famelga atrás, correr os corredores dos ministérios onde distribuem subsídios comunitárias...ideuas não faltam.
Evitar mesmo só o trabalho. O excesso dele dá fome e acaba tudo na pastelaria.

Pôr do Sol disse...

Querida UJ Manso,
O que escreve fez-me lembrar as sábias palavras de minha avó. Só se consegue poupar quando se tem. E é no poupar que está o ganho.
Concordo plenamente com o seu texto e várias vezes vejo pessoas que pouco tendo gastam desnecessariamente. O vicio das raspadinhas confrange-me e vejo comprar umas atras das outras.
O Sr. Kamprad (acho que se escreve assim), dono do IKea um dia questionado pelo gerente de um hotel sobre o facto de ficar sempre num single, quando os seus filhos queriam sempre a suite principal, respondeu "Ah pois mas eles são filhos de um homem rico". Talvez por isso não lhes tenha deixado o controle da empresa.
Já vi alguns filhos esbanjarem fortunas que os pais , e por vezes a custo, juntaram uma vida inteira.
Poupar é importante e deverá ser incutido desde cedo.
Um abraço, resto de bom dia e boas contemplaçoes desta natureza que nos vai surpreendendo.

Anónimo disse...

Claro que não ia abordar. Quando o contraditório não convém invertem-se os termos. Exemplo acabado da criatura Ventura

ccastanho disse...

UJM, sendo pobre, tenho este comportamento dos ricos. É verdade que provavelmente deixei de fazer o negócio da minha vida em termos de habitação o que me valeu azedumes da minha mulher, passo a explicar, quando o meu pessoal foi para a universidade arrendei um apartamento na Estefânia porque estava perto do IST e não muito longe da Clássica onde a rapaziada se dividia. Entretanto, aparece-me um apartamento t8 na Avenida Praia da Vitória ao Saldanha, por 40mil contos, precisava de obras e nas minhas contas ia parar próximo dos cinquenta mil contos. Não comprei porque entretanto tinha feito investimentos na atividade profissional e tive medo porque comecei a fazer contas e percebi que ficava sufocado de divida por muitos anos para além do custo mensal na educação dos filhos e não só, como acontecia a todos os casais com filhos na universidade. A verdade é que a racionalidade privou-me ( bem ou mal, não sei), hoje, esse t 8 na alta de Lisboa valia 3 ou 4 milhões e eu agora ficava montado na burra .

Um Jeito Manso disse...

Caro Anónimo que estava a salivar por um contraditório,

O que é que não percebeu? Eu não lhe disse que o post, um simples e humilde post sobre hábitos que tornam os pobres mais pobres, não versava temas complexos e que requerem muita prosa?
Estava à espera que eu escrevesse aqui um tratado sobre riqueza e pobreza? Sobre exploração de uma classe por outra? Sobre os malefícios do mercado? Sobre a boa e a má moeda? Era isso? Conte-me tudo.
E vai daí, num salto quântico -- mas uma quântica de pechisbeque, destituída de sentido -- invoca o Ventura? Quer explicar o que se passa na sua cabeça para que se se constate tamanha confusão?
Pode desenvolver à vontade a sua resposta, não se acanhe, sou toda ouvidos.

Um Jeito Manso disse...

Pois, deve ter razão. Estou afastada dessa realidade. Sempre tomei o pequeno almoço em casa. Nunca consegui ir para um café beber galões ou comer tostas, muito menos bolos. Não consigo. Acho que só o fiz quando estava grávida e tinha que fazer análises em jejum, depois tinha que ir comer coisas doces e, a seguir, repetir a análise. Odiava, nunca sabia o que comer. Os meus pequenos almoços são de outra natureza, são atípicos. E gosto de, a seguir, lavar os dentes. Mas, enfim, são hábitos...

Um Jeito Manso disse...

A sério que, por uma vez, está de acordo...? Milagre! Só não atiro um foguete porque o meu cão tem medo de foguetes...

Um Jeito Manso disse...

Quanto cinismo... quanta ironia... Não seja assim, que isso envelhece...
Mas, olhe lá, não quer ser positivo e, em vez de ser tão abrasivo, não quer aqui dar uns conselhos de sua lavra? Vá lá... Faça lá isso... Vou ficar à espera, ouviu...?

Um Jeito Manso disse...

Olá jovem Pôr do Sol,
Agora, por falar no dono do Ikea, lembrei-me de o meu marido uma vez ter ido a um encontro internacional, em Paris, de empresas ligadas a uma grande indústria. E lembro-me de ter ficado muito admirado ao ver o principal accionista de um poderoso grupo económico ter lá chegado a conduzir um carro banal. Nem motorista nem carrão. Milionaríssimo e, no entanto, avesso a luxos e a ostentações. E já falei aqui de um homem podre de rico que, quando comemos no restaurante, põe os óculos e está ali a passar a conta a pente fino a ver se não puseram uma água ou uma manteiga a mais. E, em tudo, poupadinho, poupadinho. Até na roupa que usa.
E isso das raspadinhas é outra, tem razão. Quando vou a uma pequena papelaria que funciona como loja dos correios, e geralmente vou perto da hora de almoço, verifico que estão lá sempre homens das obras, gente certamente que ganha pouco, e que gastam no mínimo 10 euros de cada vez. Não percebem que é dinheiro mal gasto, que o poderiam usar de uma forma mais útil.
Cresci também a ouvir que não se deve desperdiçar comida (por exemplo, faz-me muita impressão as pessoas que deixam imensa comida no prato...), que não se deve esbanjar em nada. E acho que isso é importante, e mais ainda para quem não nada em dinheiro.
Mas, pelo que vejo por alguns comentários acima, dá ideia que há quem acha que poupar é errado.
Enfim...
Um abraço, Sol Nascente, saúde e felicidade para si e para os seus!

Um Jeito Manso disse...

Ah, Ccastanho... de facto, com a valorização imobiliária que houve... o que isso agora já valia... Mas se calhar fez bem. As recomendações que, para mim (sou prudente, talvez até conservadora a nível de risco), fazem sentido relativamente a investimentos é arriscar apenas uma parte quando já se tem uma 'almofada' bem segura de modo a que se o investimento não correr bem, haver sempre uma salvaguarda. Se isso não acontece, não arriscar. Não tenho espírito de especuladora, sou cautelosa. No seu caso, teria feito o mesmo. Quando sei de pessoas que investem com base em créditos por vezes acima das suas possibilidades, contando com ' o ovo no cu da galinha', fico sempre apreensiva. Por isso há tantos casos de insolvências...
E olhe, Ccastanho, vamos ver como corre o dia 18. Boa sorte!

Célia disse...

Cá em casa, também não temos o hábito de tomar o pequeno almoço fora de casa. A propósito de poupar...Fez um ano neste Dezembro que comprei, no "El chinês", um mealheiro em lata, daqueles que só podem ser abertos com um abre-latas e ao longo do ano, eu e o meu senhor fomos metendo moedas de 2€. No Verão, os meus netos (9 e 12 anos) que vivem em Londres, ao saberem do que andávamos a fazer e depois de lhe dizermos que no final eles abririam o "tesouro" que seria para eles, deliraram. Este Natal, nós, os pais e os meninos pusemo-nos a esventrar a lata. Parecíamos uns tios Patinhas a olhar as moedas, ali em monte na mesa da cozinha! Cada um foi fazendo montinhos de dez moedas... feitas as contas havia 546€! Os meninos estavam todos contentes, mas para além de lhes dar esse prazer, acho que a brincar lhes passámos a lição sobre a importância de poupar, mesmo nas pequenas coisas.