segunda-feira, janeiro 25, 2021

O que vesti e calcei e com o que me perfumei para ir votar.
Mas, antes, umas observações sobre as eleições


Na hora de Marcelo, justo vencedor, mostro a minha preocupação pela votação no André Ventura e, pela razão oposta, no João Ferreira

 

Há, no resultado das eleições, um dado que muito me preocupa: a alienação,  estupidez e a falta de personalidade de parte tão significativa de população portuguesa. Refiro-me aos que votaram no André Ventura, e foram muitos, sem que ele tenha qualquer programa, ideia concreta ou boa fé. André Ventura é um mero troca-tintas, diz uma coisa e o seu contrário, sem fundamentar, sem se preocupar em sustentar o que diz, é uma criatura que a única coisa que tem para oferecer é a sua ostensiva má-fé, o gosto pelo insulto, pela maledicência gratuita, pela mentira, pelo comportamento rasteiro. Nada mais é do que isto. E, no entanto, parte significativa da população portuguesa votou nele. Porque o fazem não sei a não ser que, muito provavelmente, seja gente estúpida, que não pense, aquela gente que tem em comum com ele a maledicência e o facilidade em ofender os outros.

Mas há uma outra parte da população portuguesa que igualmente me preocupa: a que é constituída por quem não faz outra coisa senão dar-lhe palco. O animal diz uma asneira e parte das pessoas salta a criticá-lo, a repetir o que ele diz. O animal está sempre na televisão. O animal lançou uma estúpida atoarda contra os lábios pintados da Marisa e meio mundo veio colocá-lo sob os holofotes, ou auto-pintando lábios de encarnado ou lançando movimentos em volta dessa parvoíce. Em publicidade é isto que funciona: falem mal de mim mas falem de mim. E é publicidade ao Ventura que fazem os que repetem o que diz, os que o criticam e falam, falam, falam do que ele diz. E ele sempre, sempre na televisão, nos jornais, nas redes sociais. 

Ora, com populistas como André Ventura só há uma coisa a fazer: votá-lo ao desprezo. Ao desprezo. Se ele se meter com o batom ou com o raio que o parta a resposta só pode ser uma: zero. Não comentar, não lhe dar troco, não lhe dar trela, não lhe dar palco. Ignorá-lo. 

Portanto, há muita gente que deve pôr a mão na sua consciência ao ver  percentagem de votos que o parvalhão teve. Porque não tenhamos dúvidas: André Ventura é um parvalhão. Só será uma ameaça se lhe derem palco.

Uma outra palavra: sendo eu tradicionalmente votante PS -- não por ser militante mas por ser, em geral, o partido que melhor representa aquilo em que acredito -- tenho a dizer que tenho pena que, uma vez mais, não haja mais pessoas a verem que João Ferreira é uma pessoa de grande valor, um homem digno e inteligente e um homem de bem. Nem nas legislativas nem nas presidenciais alguma vez votei ou no PCP ou em candidatos do PCP. Não obstante, é com isenção e objectividade que aqui digo que gostaria que João Ferreira renovasse o PCP, talvez dando-lhe um banho de modernidade, e ajudasse a redesenhar a esquerda em Portugal. 

Se por vezes o BE tem coisas que se aproveitem, em regra foge-lhes o pé para o populismo. Quando a imaturidade política tem apetência por palco e quando a essa mistura se junta a cagança de uma superioridade moral, temos um partido que faz da deslealdade e da conflitualidade o seu modo de estar. Pode haver quem se reveja no estilo, quem se arvore em exemplo que os outros devem seguir, quem se ache acima dos outros e com direito a exercer punição contra os não seguidores. Contudo, é população que tende a diminuir pois aturar o pedantismo ideológico de Mortáguas e Catarinas cansa. E a Marisa é aquela bloquista simpática que não aquece nem arrefece. Tirando isso nada há no Bloco. Há o cardeal que anda a pregar pelos bastidores mas também é missa que cada vez menos gente ninguém segue. A esquerda séria, humanista, democrata não se revê nisto. Ou seja, à esquerda do PS o que há é o BE, em declínio, e o PCP, estagnado, a caminho da extinção, ou seja um conjunto a tender para coisa nenhuma deixando espaço livre para que os populistas invadam esse espaço. Há, pois, um espaço que está cada vez mais livre e que deveria ser ocupado por uma esquerda moderna, criativa, mais ágil e mais inovadora. E João Ferreira tem cabeça e pedalada para liderar essa mudança da esquerda-esquerda em Portugal.

Quanto a Marcelo, digno e justo vencedor, fico contente que tenha ganho. Não há, de entre os candidatos, quem melhor pudesse desempenhar o cargo que ele. Não tenho nada a ver com o PSD e muitas vezes o tenho criticado, em especial quando coloca a sua necessidade de afecto ou de atenção acima da lealdade institucional. Mas penso que é culto, inteligente, digno, humanista e com boas maneiras, em regra não nos envergonhando quando nos representa no exterior ou junto de estrangeiros. E tem sabido interpretar bem a Constituição e tem conseguido pôr o interesse nacional acima das suas próprias tendências partidárias. Se assim continuar, não me arrependerei de ter votado nele. Desejo-lhe boa sorte, saúde e força para fazer um segundo mandato tão bom ou melhor que o primeiro. As circunstâncias são do pior que há mas ele sabe de história, de política e do sentir do povo o suficiente para saber conduzir a sua acção. Pelo menos, é com isso que estou a contar.

E, por ora, é isto. Dos outros candidatos pouco tenho a dizer. 

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Quanto ao perfume com que me perfumei: Agua de Loewe. Explico porquê: Top notes are Bergamot, Yuzu, Tangerine and Palisander Rosewood; middle notes are Tea, Spicy Notes and White Pepper; base notes are Cedar, White Musk, Sandalwood and Amber

De resto, sobre o que estava à vista. Jeans justos, em cinzento. Blusinha em azul-alfazema claro. Blusão de cabedal castanho escuro forrado, por dentro, a sede beige-escuro. Skechers. Brincos: umas pequenas pérolas.

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Saúde

13 comentários:

João Lisboa disse...

Sobre a alimária: o racismo, a xenofobia, rendem votos. Muitos votos. E não é chamando-lhe racista e xenófobo que ele pode ser combatido. É encarando os problemas que estão na origem do racismo e da xenofobia - problemas reais que existem nos bairros "sociais", nas comunidades ciganas, na percepção de tudo aquilo que o Peter Gabriel sintetizava como "not one of us" - e, sob uma perspectiva não racista e não xenófoba, lidar com eles, procurando, por exemplo, através de estratégias de mediação, começar a resolvê-los. Há já uns bons anos, pareceram querer existir algumas iniciativas desse tipo mas - se estiver errado, corrijam-me - quer parecer-me que se foi perdendo o fôlego. O resultado está à vista.

É, evidentemente, coisa a médio/longo prazo. Mas é incompreensível como "a esquerda" - seja lá isso o que for -, ao longo de tantos anos, não foi capaz de passar do berreiro protestativo ao trabalho "invisível", de formiga, no terreno. Tê-los entregado, de mão beijada, nas mãos de um oportunista perigoso e repugnante é indesculpável.

Já agore, o Peter Gabriel: https://lishbuna.blogspot.com/2013/10/vintage-clxviii-peter-gabriel-not-one.html

Francisco de Sousa Rodrigues disse...

Riqueza,

Outro dado curioso da noite foi um certo entusiasmo com a necessidade de ressuscitar formalmente o centrão, sem o dizer literalmente, Rui Rio foi um dos que estava nessa linha.

Uma bonita semana apesar da espuma dos tempos de guerra que vivemos.

Anónimo disse...

Quem ganhou ? A abstenção.
Quem perdeu? Toda a "comunicação social" que viu o seu candidato ficar em terceiro.

Pôr do Sol disse...

Uff... não haverá segunda volta.

Percebo pouco de politica mas o que receei quase aconteceu.

Enquanto os ditos partidos de esquerda não se unirem por um objetivo comum,

Enquanto o PCP teimar em nao largar o discurso de bafio e impedir que o tal sangue novo o actualise. (penso que os poucos votos no Homem Honesto dever-se-ão ao facto de sabermos que o partido não o deixaria sair daquela linha, o que só afasta os eleitores.)

Enquanto o PS não dialogar mais com a esquerda,

Enquanto os outros não arranjarem um lider capaz,

Veremos a extrema direita subir por aí acima, visto que o regresso dos latifundiários ao Alentejo já lhe abriu as portas e os amantes de Trump tambem por cá andam. O porco gabou-se de ter sido felicitado por toda a extrema direita europeia. Além de se dizer iluminado por Deus para salvar o país. Isso levou MEIO MiLHAO DE IRRACIONAIS a votarem nele.

É o que temos, lamentavelmente.

Boa semana e boa saude, como diz uma amiga Nao se esqueçam que VIDA só tem um V e o resto é IDA, cuide-se.

Um Jeito Manso disse...

Olá João,

Concordo com o que diz. Mas é tudo tão difícil. A pressão do imediato, a pressão da comunicação social, das redes sociais, o imediatismo, a superficialidade, a futilidade... Forçosamente vai havendo um distanciamento. Como se chega a quem não quer ouvir? Já falei muitas vezes do ano em que fiz voluntariado numa escola secundário num dos piores bairros do país em termos de criminalidade e de pobreza e desemprego. A realidade com que me confrontei era-me dilacerante. Como se chega, com a nossa linguagem, a pessoas que vivem num outro mundo, tão longe do nosso? Claro que percebem a voz rudimentar do Ventura. Gritos, parangonas, a dizer mal do sistema. Para quem vive nas margens do sistema esta conversa é capaz de soar bem. Como dar a volta a isto?

Sim, tem razão, trabalho de formiga, lento, viver dentro, ajudar, criar condições, dar perspectivas.

Mas não é fácil. O mundo anda um lugar perigoso.

Um dia bom, João. Saúde.

Um Jeito Manso disse...

Olá Francisco,

O Rui Rio é um burocrata da política. Intuição, zero. É uma criatura deslocada no tempo, nas funções.

Não percebe o que se passa nem percebe o mau serviço que está a prestar à democracia. O pior do PSD, aos poucos, vai-se transferindo para o Chega e o Rui Rio é o porteiro de serviço.

Uma boa semana também para si, Francisco. Aguentemo-nos. Saúde, alegria.

Um Jeito Manso disse...

Olá Anónimo,

Perdemos todos um bocadinho... Um populista, uma infame criatura, ter tantos votos é mau para todos. Claro que andou ao colo da comunicação social e das redes sociais. Mas isso não atenua o mau que é para todos o lugar em que ele ficou e a ambição que se sente estar cada vez mais forte.

Tomemos cuidado, sejamos mais inteligentes que ele.

Um Jeito Manso disse...

Olá Pôr do Sol,

É um perigo haver tanta gente capaz de se deixar ir na conversa de um mentiroso, de um populista, de um malcriado como o Ventura.

Os sociólogos deveriam fazer um estudo sério sobre as motivações de quem votou nele.

É gente pobre, que quer vingar-se dos 'ricos e poderosos'? É gente que umas vezes vota no Bloco, outras no Chega sem fazer grandes distinções de ideologias? É gente que não se revê no actual PSD ou no CDS e anda a ver se encontra parceiros no Chega?

Eu não sei mas seria importante perceber par se ver como melhor evitar que haja por cá um descalabro como no Brasil ou como o que viveram os americanos com o maluco do Trump.

Mas tenhamos esperança... tenhamos esperança em melhores dias a todos os níveis.

Abraço, Sol Nascente. Um bom dia para si, ok? E proteja-se. Agarremo-nos aos VVVV todos para fazer se atrasamos as 'idas'...

Francisco de Sousa Rodrigues disse...

É muito mau, mesmo, o homem chutou com a do centro, chutou com o Alentejo e o partido do carcará, aquele discurso foi mesmo esse BI de falta de intuição que referiu...

Quanto à migração de certo PSD é coisa nada admirável, conheço bem essa mentalidade, isto de viver num cavaquistão dá para conhecer os vários tipos de militante ou eleitor.

A esquerda que ganhe juízo e que aproveite os mais de 50% que ainda representa.

Um rico dia!

Paulo B disse...

Pois todas essas iniciativas perderam fôlego à custa do domínio do discurso do estado gordo e de uma país que vive acima das suas possibilidades. Foi-se vendo no SNS (e agora vem ao de cima, mas não nos apercebemos, pensamos que é só o CoVid), em programas emblemáticos como os programas da toxicodependência, a estagnação de parte dos sistemas de ensino superior e investigação científica, ...
Não será fácil retomar isto. Deixaram de ser áreas consensuais no centrão.

Um Jeito Manso disse...

Olá Francisco,

É isso aí: foquemo-nos no lado positivo da coisa. Ainda há esperança. Saibamos agarrar o que ainda há de bom. Ainda há quem defenda a democracia de forma genuína e quem se agarre à esperança de a manter, de manter a liberdade, de lutar pela inclusão.

Mas não é bom que a direita esteja descomandada: os animais como o Ventura aproveitam logo o espaço.

O Chicão do CDS é um menino que não sabe a quantas anda e o Rio é um desastre. Só espero é que a seguir não venha um pior...

Mas haja esperança.

Um dia feliz para si, Francisco.

Um Jeito Manso disse...

Olá Paulo,

Tem razão.

Mas sabe: qual a abstenção entre as pessoas da sua idade? Palpita-me que enorme. Em que forças políticas se revê a sua geração? Eu, se tivesse a sua idade, acho que não saberia bem em quem votar. Tudo tão datado, tudo tão coisa do passado.

Porque se afastam os jovens e não se unem e não desenham um futuro melhor? Um futuro baseado na generosidade, na tolerância, na inclusão, no conhecimento, na sustentabilidade do planeta. Porque não se organizam e lutam por isso?

Preocupa-me isso. Há um afastamento que não pode ser bom. Não sei como se combate. Tinham que ser os jovens a mobilizar-se, a arranjar energia para serem o motor dos novos tempos. Mas, em vez disso, afastam-se, isolam-se, ficam na sua...

Ideias para combater esta inércia e desinteresse, Paulo...?

Paulo B disse...

Olá UJM,

Não vejo esse afastamento dos jovens da política à minha volta. E não falo só das pessoas da minha idade mas mesmo mais novas. Provavelmente vivo numa bolha (já que sou bastante politizado). Mas até acho que sou um razoável observador para lá da bolha e não vislumbro que esse desinteresse seja assim tão maior.

O que vejo mais até é uma clara falta de conhecimento. Sobre princípios básicos da democracia, da organização da sociedade, etc.

E sinceramente acho que isso também se aprende. Também se ensina. Faltam meios a uma Comissão Nacional de Eleições para promover programas educativos alargados, persistentes.
Mais: falta tempo. Uma democracia requer tempo dos cidadãos. As pessoas correm de casa para o trabalho e do trabalho para casa. Ganham miseravelmente, vivem em constante sobressalto com a incerteza de terem rendimentos no mês seguinte, no ano seguinte.
Portanto, até aqui, tudo soluções convencionais.

Ora, e também nisso me leva a não concordar que há um deserto de ideias ou de propostas partidárias, ideológicas, etc.
Pelo contrário. Até acho que têm aumentado as propostas organizadas e minimamente coerentes. E têm tido adesão. Da esquerda à direita.
A questão é que no estado a que chegamos, descrentes e cada vez mais desiguais, as escolhas não se fazem pela reflexão e debate de ideias. As escolhas (do partido, das propostas ideológicas) são, em primeiro lugar, ditadas por uma salvaguarda mais imediata da posição social do indivíduo. Isso tende a beneficiar propostas que enaltecem ou colocam o foco... No indivíduo. Seja à esquerda, seja à direita.

Não pode ser um trabalho dos jovens. As condições únicas dos anos 60 são irrepetíveis. Os jovens aí eram a esmagadora maioria da população. O horizonte futuro parecia prometer o paraíso (e a possibilidade de crescimento infinito). Os jovens hoje são uma minoria e tendem a.ser muito.mais condicionados.
A demografia conta. Por.isso é que não gosto de olhar para isto como uma questão geracional. É processo em.que teremos de ir todos.
Vejamos.um exemplo: a nossa economia, se queremos ter alguma.esperanca, suspeito que teremos de dar.uma.valente viragem. Isso é impossível se não qualificarmos.e requalificarmos adultos. Podemos e devemos abrir a porta à emigração também, mas naturalmente teremos de.investir imenso para os qualificar De outra forma só nos resta uma.economia.dominada por sectores de baixo valor acrescentado e que não garante a produção dos recursos básicos de que a nossa sociedade necessita (turismo, construção, .... , Emigrantes semi escravos no sector agro florestal, etc). Temos de arranjar um.plano ambicioso entre todos. E sermos mais solidários do que já somos (e isso, os ventos do presente indicam que não será tarefa fácil).
Sinto que escrevi um rol de palavras vazias. Mas é as que tenho. De resto eu vou tentando dar o meu contributo (por exemplo, ofereci-me para uma.mesa de voto, pois entretanto faltaram ou desistiram várias pessoas)

Abraço!