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domingo, junho 24, 2018

Johnny Depp confessou-se à Rolling Stone e desvendou as trevas em que, ultimamente, se tem visto mergulhado
[Ou aquela terrível maldição que parece pairar sobre as pessoas que se habituam a viver no fio da navalha]
-- Ou o território em que nada parece ser o que aparentemente é ---


Há dias vi uma fotografia de Johnny Depp e a legenda referia que era assim que ele agora estava. Pensei que estaria assim para desempenhar algum papel. Da mesma forma que, por vezes, engordam, outras vezes emagrecem e mudam de corte de cabelo. E ele, do que se lhe conhece de tantos filmes, é um verdadeiro camaleão.

Muito magro, cabelo rapado e ar envelhecido pensei, pois, que era novo personagem que estava em curso. Não liguei. 

Apesar de ter gostado de vê-lo em Chocolate com a Juliette Binoche, não é daqueles actores que mereçam grande devoção minha pelo que a estranha fotografia não despertou em mim grande curiosidade.


Johnny Depp começou por estar ligado ao mundo do rock, integrando bandas. Só depois, através de Nicolas Cage, entrou no mundo do cinema. 

Ele era o rebelde que acompanhava Kate Moss na fase 'terrible' da entrada de ambos na vida de estrelato (e isto já ele tinha saído de um casamento e tido diversos outros affaires). Na verdade, a sua imagem sempre foi a do mal comportado actor por quem muitas jovens mulheres se apaixonavam. 

Winona Ryder foi uma delas, um amor intenso, e tanto que ele se fez tatuar Winona forever

Depois viveu com Vanessa Paradis e era o casal mediático, irreverente, charmoso que as revistas mantinham sob radar. Tiveram dois filhos, uma das quais uma menina muito bonita com um nome melodioso, Lily-Rose Melody Depp, que é agora modelo e uma das imagens de marca Chanel.

Com Vanessa ele dedicou-se à plantação de vinhas, à produção de vinho. E um restaurante em França com sócios bem conhecidos. E muitas casas.

Pelo meio foi atraindo várias outras mulheres, tendo-se casado recentemente com Amber Heard, uma bela e jovem actriz, com mais de vinte de anos de diferença de idades. Menos de dois anos depois, o escândalo: queixas de violência doméstica e a denúncia pública de maus tratos com os óbvios  danos reputacionais.

Nada que espantasse muito já que é sabido que Depp tem tido ao longo da vida numerosos problemas com a polícia, tendo já estado preso inúmeras vezes, geralmente por desacatos e violência. Acresce que os seus excessos ligados ao álcool e, dizem, às drogas, são sobejamente conhecidos.

Apesar da agitação na vida pessoal, a sua vida de actor foi florescendo, o número de filmes em que tem entrado é expressivo, alguns filmes foram hits e alguns personagens ficaram-lhe gravados na pele. O Pirata das Caraíbas (que não vi) foi um deles. O Mad Hatter no Alice in Wonderland, outro.

Contudo, nestas vidas sempre expostas e vividas no limite, nem sempre as pessoas se aguentam eternamente no fio da navalha. Cair é fácil e os ferimentos quase inevitáveis.

Depois das queixas de agressões por parte da mulher e a seguir ao divórcio litigioso que, pelas cenas de violência divulgadas, acarretou um generalizada rejeição pública, acrescem, recentemente, problemas financeiros. 

Queixa-se da empresa que geria o seu património mas a empresa queixa-se dele, acusando-o de ser um gastador compulsivo.

Uma das casas de Johnny Depp
Ao longo dos 35 anos de carreira, o seu trabalho como ator rendeu-lhe cerca de 3,6 mil milhões de dólares, dos quais alegadamente Depp terá recebido 650 milhões, dos quais praticamente nada resta. O ator processou a empresa The Management Group (TMG), encabeçada por Joel Mandel, o seu gestor de confiança de muitos anos, por fraude e negligência.  
O processo inclui ainda acusações segundo as quais o TMG terá permitido que a irmã de Depp, Christi (que foi bastante próxima do ator até ao seu casamento com Heard, porque este não quis seguir o seu conselho e fazer um acordo pré-nupcial) recebesse sete milhões de dólares, assim como a sua assistente teria recebido 750 mil, sem o consentimento de Depp. 
Outra das acusações de má gestão é que seria do TMG a culpa da multa dos milhões que Depp teve de pagar por sucessivos atrasos no pagamento de impostos.
O TMG, por seu turno, que nega todas as acusações, alega que Depp sofre de um "distúrbio de compra compulsiva", que o leva a gastos de dois milhões de dólares por mês. 
Entre os gastos extravagantes que lhe são apontados pelo TMG estão um sofá de sete mil dólares vindo do cenário do reality show Keeping Up With the Kardashians para a filha.
A certo momento da conversa, o jornalista pergunta a Depp, que por vezes fumava uma mistura "de tabaco e haxixe", se é verdade aquilo que o seu antigo gestor alegava, que ele gastaria 30 mil dólares por mês em vinho. "É insultuoso. Porque era muito mais", responde.
Enquanto miúdo, mudava frequentemente de casa (cerca de vinte vezes) e, nesta entrevista, confessa o quanto sofreu às mãos da mãe.
(...) Johnny Depp fala também da sua mãe, cuja casa que lhe ofereceu terá sido a sua primeira grande compra, falando das agressões físicas que sofreu ao crescer, explicando igualmente a vida difícil e sobrecarregada que esta teve. O ator recorda na entrevista à Rolling Stone ter dito no funeral da mãe, em 2016 que esta era "o ser humano mais maldoso que conheci em toda a minha vida".
Portanto, agora, com dificuldades económicas, e ainda mal refeito da censura pública, é um Johnny Depp escanzelado, envelhecido, cabelo rapado, maquilhagem exagerada e dedicando-se, de novo, à sua actividade de músico de rock que dá uma entrevista à Rolling Stone na qual confessa uma depressão profunda. 
"Eu estava tão em baixo quanto achava que poderia estar. O próximo passo era: 'Vais chegar a um sítio com os teus olhos abertos, e vais sair com os olhos fechados.' Eu não aguentava a dor todos os dias", contou o ator, lembrando a altura em que decidiu escrever as suas memórias.
"Servia-me vodka pela manhã e começava a escrever até que os meus olhos se enchessem as lágrimas e já não conseguisse ver a página", confessou Depp, de 55 anos.
Gostamos de ver cinema, televisão, gostamos de acompanhar a vida glamorosa destas figuras e, tantas vezes, nem nos detemos a pensar que, na verdade, são pessoas como nós, com fragilidades e inseguranças. 

A comunicação social e as redes sociais deveriam saber divulgar, de forma equilibrada e não punitiva, o lado sombrio destas vidas nas quais a privacidade quase não existe.

Talvez isso fosse didáctico para aquela tanta gente que almeja alcandorar-se aos palcos do hiper mediatismo sem se dar conta que a fama deve ser um fardo difícil de suportar e que os momentos de solidão devem ser terríveis para quem se habitua às luzes da ribalta.
Contudo, ao mesmo tempo que o mundo olha com uma certa comiseração para o  actual aspecto desgastado de Johnny Depp, começa a especular-se que, se calhar, o que se passa é que uma nova metamorfose física está em curso para dar corpo a novo personagem -- um professor a quem é diagnosticada uma doença terminal -- no filme 'Richard says goodbye'
E é assim que neste mundo da representação -- em que ficção e realidade se interpenetram -- que as fronteiras se esbatem, deixando quem dá corpo a tantos personagens propenso ao vazio, alvo fácil da tragédia da depressão.
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Já agora, uma das casas que, no período épico, Johnny Depp combrou, restaurou e mobilou mas que, tal como as demais, foi posta à venda



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