domingo, junho 24, 2018

Esta manhã de domingo





As portadas de madeira estão abertas para que entre a luz e as portas de vidro também estão abertas para os sons do campo e para a leve aragem que, de quando em quando, se faz sentir.


Estou descalça porque gosto de sentir a frescura do chão de tijoleira. Mesmo quando ando lá fora, junto à casa, ando frequentemente descalça apesar de, por vezes, sentir algum desconforto pelas omnipresentes pedrinhas, por alguma caruma ainda não varrida, pelas bolotas ou seus carapucinhos, pelas formigas que, carnívoras, parecem querer comer-me.


Estou de biquini porque hoje só aqui estamos os dois e gosto de andar à fresca. Já andei a fazer a minha caminhada e, sempre que ouvia algum carro a passar lá em cima na estrada, ocultava-me entre o arvoredo. De resto, durante quase uma hora acho que isso só aconteceu duas vezes e, mesmo assim, foi muito.

Está calor e, em alguns lugares, onde as árvores se fecham e o bosque se torna mais acolhedor, sente-se um perfume quente a subir da terra. Estes são os lugares de que mais gosto. Sinto-me cúmplice da terra e agradecida por partilhar a sua intimidade. Ouvem-se os pássaros e os insectos que tremem de alegria com o verão que finalmente se faz sentir.


O meu marido está lá fora. Levanta-se cedo, faz também uma caminhada. Depois põe-se a trabalhar. Ou desrama árvores ou corta as silvas ou apanha os ramos que arruma em montes que se multiplicam. Quando passo por ele diz que 'isto não tem fim' e eu digo que ainda bem. Vendo numa perspectiva, é o mito de Sísifo em versão campestre. Vendo noutra, é uma forma simples e agradável de existir.

Eu estive a arrumar o quarto, a seguir vou arrumar e limpar e varrer a sala. O almoço está pronto: bacalhau com brócolos, feijão verde, cebola, batata doce e ovo.  


Provavelmente, a seguir ao almoço, voltarei a deitar-me lá fora, na espreguiçadeira que porei à sombra fresca da figueira e, até adormecer, continuarei a ler o livro de Miguel Sousa Tavares que estou a ler de gosto.


Há pouco, enquanto andava na lida, ia vendo, na televisão, na RTP 1, um programa invulgarmente bonito, Sob o abrigo dos carvalhos, que amplificava os sons do campo que me entram pela porta. Inteligentemente, os sons não eram maculados pela locução do que se estava a ver. Apenas, de quando em quando, alguma música muito discreta e uma ou outra legenda escrita. A quem possa, permito-me recomendar que tente vê-lo.

Entretanto, o meu marido, já todo bem disposto com o seu bem amado Sporting, veio ver as notícias e confirmar o que já se sabia: o sinistro Bruno de Carvalho foi corrido e, por artes mágicas, passou-lhe o amor ao clube. Ainda bem. Que vá curtir o desgosto para bem longe que, pelos lados do Soporting, já causou estragos que cheguem. Imagino o estado quase calamitoso em que as contas devem estar e o risco para quem depende do dinheiro que de lá recebe. Será, certamente, a prioridade número um para quem pegar na gestão daquilo tudo. O meu marido, contudo, diz que isso parece não transparecer e fala-me num significativo adiantamente por parte de um patrocinador (creio que a NOS). Tomara que, de facto, não haja drama e que eu, por uma vez, esteja a ser pessimista.


Mas, por agora, não é tema de que queira aqui falar (até porque, neste preciso momento, está outro maluco encartado na televisão e este com poderes bem maiores e mais perigosos: o doido Trump em mais um dos seus tresloucados discursos contra os imigrantes).

Portanto, se me permitem, fico-me, por ora, por aqui: tenho que ir concluir a limpeza da casa antes que o meu marido reentre para tomar banho e almoçar.

Até já. E um belo dia de domingo a todos quantos me lêem.

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