segunda-feira, maio 14, 2018

Reportagem de um passeio turístico pela Baixa de Lisboa





Escrevo porque sim. Não é para mais tarde recordar já que nunca releio coisas que tenha escrito. Nem é para que os outros saibam da minha vida ou o que penso -- nem quem me lê me conhece, nem eu conheço quem me lê, pelo que isso também não é razão. Acho que escrevo porque sempre gostei de escrever e porque tudo me serve de pretexto para escrever. Não sei de outra razão.


Um amigo meu, quando a mãe, nonagenária, morreu, teve que arrumar, distribuir ou desfazer-se dos seus pertences. O pai tinha morrido anos antes. A senhora, pessoa culta, a viver numa bela moradia na Linha, esteve uma vida inteira a carrear objectos especiais para dentro de casa -- e o meu amigo, quando se viu com um casarão daqueles a deitar por fora, várias divisões cheias de pertences e memórias, teve que digerir um petisco que não se deseja a ninguém. Acresce que quer a mãe quer o pai eram pessoas ligadas à cultura e à vida pública do País pelo que, mesmo que ao meu amigo e à mulher desse uma veneta e mandassem os membros daquelas associações de reabilitação irem lá buscar tudo o que quisessem (como a minha cunhada costuma fazer), por consciência cívica, não o fizeram. Viram cada caderno, cada livro, cada documento pois, em muitos casos, eram documentos com interesse histórico que, consoante a natureza, doaram para aqui ou para ali. Só que, no meio daquilo, encontraram inúmeros cadernos iguais, numerados, todos escritos pela mãe. Era um imenso diário.


Conheci a senhora. Talvez porque, de facto, viveu em França e conviveram muito com gente exilada em França, a senhora fazia lembrar uma francesa. Para começar, usava daqueles cabelos muito curtos, à rapazinho. E toda ela tinha um ar desempoeirado, moderno. E era senhora de fina ironia como só as pessoas inteligentes sabem ser.


Pois bem. O filho e a nora descobriram, depois da sua morte, que ao longo de todos os dias da sua vida (pelo menos da sua vida adulta), ela registava o que fazia, o que pensava, o que lhe apetecia, incluindo as zangas com o filho e com a nora. Ou pensamentos mais íntimos, sentimentos, sonhos, saudades. Muito desconcertante para o meu amigo e para a mulher. Não foram capazes de ler muito. Parecia-lhes um acto de devassa, tomar conhecimento da intimidade da senhora. 'Não quero conhecer esse lado da minha mãe', disse ele. A mulher disse: 'E escrevia bem, a minha sogra'.

Comigo não há cadernos secretos. Está aqui tudo, a céu aberto, para quem quiser ler.


E isto porque, aqui chegada depois de mais um dia repleto e igualmente bom -- cheio de beijinhos, beijinhos aos meus amores -- e depois de passar as fotografias do passeio para o computador, dei por mim preparada para aqui mostrar algumas delas. Depois pensei: mas estou a mostrar isto a quem?

Por vezes recebo mails em que me agradecem que eu mostre os sítios por onde ando já que nem todas as pessoas podem passear e conhecer estes lugares e, assim, vendo as imagens que aqui partilho, é como se fossem também de viagem. E eu fico contente. 


Eu gosto mesmo muito de passear. Não sou de ficar fechada em casa sem nada que fazer. Hoje eu dizia isto para me justificar e o meu marido passou-se: 'Mas estás a dizer isso a quem? Mas alguma vez tu ficas em casa sem nada que fazer? Era bom, era. Mas nunca acontece. Se não tens nada que fazer, inventas, e um gajo nunca consegue descansar.'. Ia responder mas faltaram-me argumentos. De facto, de manhã já tínhamos ido ao supermercado, depois fomos arrumar as coisas em casa, naquele momento estávamos a passear na Baixa e, depois de almoço, íamos a casa dos meus pais, depois íamos passar por casa do meu filho, depois ia fazer o jantar para estar tudo pronto quando a minha filha lá chegasse. E, portanto, era, de facto, previsível que não conseguíssemos estar descansados senão depois das dez da noite.


Hoje o passeio foi pela Avenida Liberdade, Restauradores, Rossio, Rua do Carmo, Escadinhas do Duque. Por aí. 

Quando passeio, sou sempre marinheira de primeira viagem: olho cada coisa como se fosse a primeira vez, descubro motivos de interesse a cada passo (e o meu marido: 'Assim não dá. Não consigo andar assim, sempre a parar' e eu: 'Estás com pressa para alguma coisa? Porque é que não prestas atenção às coisas?' e ele, maçadíssimo: 'Para prestar atenção não preciso de parar'). 


E gosto de ver quem passa, os trajes, as falas, as línguas. Uma babel. Muitos alemães. Muitos asiáticos. Muito franceses. Um grupo de raparigas que presumo estivessem a fazer a despedida de solteira de uma delas, já que uma ia de véu de noiva.


E tantos homossexuais. Tantos, tantos. Comentei isso ao jantar. A minha filha disse: 'Pois é. Deve ser por causa da Eurovisão. As bichas adoram a Eurovisão'. Pois não sabia mas, às tantas, tem a ver com isso pois, se bem que haja sempre muitos casais gays, hoje achei que Lisboa deveria estar muito bem conceituada no roteiro gay para se verem tantos e todos tão in love e tão animados.


E porque tínhamos feito a reserva de almoço apenas para as 14:30, até deu tempo para estarmos sentados num banco de jardim, ao sol, a ver quem passava, descansados. Gostei mesmo. No entanto, claro que eu, às tantas, já estava farta de estar descansada mas o meu marido fez-me esperar sentada.

Fui fotografando, pois claro. E tenho aqui uma bela galeria de passeantes, incluindo alguns casalinhos gays, alguns bem elegantes e fashion. E negras elegantemente coloridas, com turbantes de sega garrida, e muitos jovens puxando malas com rodinhas e outros com mochilas ao peito e às costas e muitos casais de idade, um bem, bem velhinho, a senhora de andarilho e o marido devagarinho ao seu lado. Qual sartorialista, bem poderia aqui mostrar como se encontra tanta heterogeneidade e joie de vivre em Lisboa. Mas não vou fazê-lo. Mostro apenas a cidade, esta bela cidade de Lisboa.


Bem. Esperei sentada. E não dei o tempo de espera por mal entregue já que o brunch foi supimpa. Pitéus bons, sushi, quiches, saladas, quentes e frios, e queijos, presunto, salmão, e boa fruta e bons sumos e bons doces. Eu é que não estou habituada a comer muito e, portanto, fico cheia quando ainda nem provei mais de metade dos acepipes que lá estão a chamar a minha atenção. E tem uma bela decoração e um ambiente descontraído como convém a um restaurante onde a gente vá num domingo ensolarado e frescote de Maio em Lisboa.


Lisboa está, de facto, uma cidade cada vez mais bonita e mais acolhedora e com uma oferta, a todos os níveis, completamente diversificada e com boa qualidade.

E, pronto, não vos maço mais com fotografias e apontamentos deste género. Só apenas mais uma coisinha. Como boa turista, trouxe um recuerdo: uma bonequinha linda e mimosíssima que encontrei numa loja encantora, toda flores, velas de cheiro, cores harmoniosas.


Não sei se é razoável ou se há alguma explicação para isto mas a verdade é que, apesar de ter andado em avenidas e ruas que conheço desde sempre, que já pisei mil, mil vezes, que já não deveriam ter qualquer segredo para mim, me senti, como sempre me sinto: uma turista em férias.

E agora aqui estou, descansada, tranquila e feliz, como se tivesse estado a passar férias numa terra encantadora e desconhecida.

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Não vi o vídeo todo mas, do que vi, parece-me que transmite uma boa imagem de Lisboa


BBC Documentary Lisbon, Portugal 2018


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