Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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terça-feira, março 27, 2018

Eu, Charlie e Sergei


Se vos contasse o meu dia de hoje. 

Melhor: se vos contasse o meu dia de sábado... Não acreditariam. Se, não há muito tempo, eu soubesse que ia viver estes momentos, diria que não, que não seria capaz. Afinal sou capaz. Mas ainda me custa a acreditar. Se me dissessem que saberia reagir, que saberia relativizar a este ponto situações que são absolutas e não relativas, diria que nem pensar. Mas afinal sei reagir, sei relativizar, sei manter-me inteira e optimista mesmo em situações limites. 

Na tarde de sábado liguei à minha prima. Muito pouco a dizer. O que se sabe. O expectável. Um dia de cada vez, disse-me ela que é médica. Repeti: é isso, um dia de cada vez. Mesmo pensando que não haveria outro dia. Acordada a meio da noite a pensar, com medo, que o dia poderia já ter chegado ao fim.

E se vos contasse o meu dia de domingo também não acreditariam. Uma coisa... Incrível, incrível, incrível. Como é possível? E como sou capaz? Não sei. Mas sou. 

Somos. Somos capazes de tudo. Não só eu. Todos. 

Mil dias dentro de um único dia. Lágrimas e festa, gemidos e aplausos. Não são máscaras, não são mil faces. Não. Sempre a mesma. 

Talvez um dia conte. Mas agora não. Tudo muito, tudo muito excessivo. 

E hoje já outro dia. E, uma vez mais, mil contrastes, contrastes totais. E eu a percorrer o meu caminho como se o caminho não percorresse, ele próprio, paisagens tão díspares como se de planetas distintos proviessem. 

Tantas coisas nestes meus dias feitos de estilhaços, de reflexos, de abraços, de medos, de tudo. E as reuniões e o trabalho como se, no resto, nada de diferente se passasse. E eu, no meu trabalho, como se nada, lá fora se passasse de incomum. 

Serão todas as pessoas assim ou serei eu que não sou muito normal? Não sei. 

O que sei é que aqui chegada, às tantas da noite, não consigo aprofundar-me em dissertações inteligentes. Pelo contrário, só me apetece entreter-me. 

É como quando, in heaven, desato a varrer ou a podar arbustos e árvores como se não houvesse amanhã. Acho que é a minha maneira de atirar para trás das costas o resto de tudo o que me inquieta.

À conta disso fiz, no verão, quando em férias, uma rotura parcial num tendão: com dois internados em simultâneo, um em cada hospital, cada um pior que o outro, altas e recaídas e reinternamentos e tudo periclitante e tudo a ter um desenlace a cada momento, entre idas e vindas e telefonemas sempre com más notícias (até que, num dos casos, houve, de facto, um dramático desenlace), nos exíguos intervalos entreguei-me às lidas rurais e domésticas com uma intensidade extraordinária, como se o meu corpo tivesse a elasticidade e resistência de uma atleta profissional. Deu no que deu. E à noite aqui estava como se nada se passasse. 
(Acho eu que parecia que nada se passava mas, às tantas, os meus Leitores mais atentos e perspicazes conseguiram perceber o temporal que eu estava a atravessar)
É frequente ler-se na blogosfera relatos sofridos de abandonos ou perdas ou de doenças próprias ou alheias, preocupações com filhos, zangas com irmãos ou tios, sérios amuos com mães ou pais ou sogros, venetas fatais com chefes, insuportáveis desatinos com colegas tóxicos. Leio com admiração. A mim dá-me para o oposto.

Quanto mais o mundo à minha volta parece querer vir abaixo, mais a mim me dá para a maluqueira, para procurar motivos de risota. E o estranho é que, no meio dessa maluqueira e dessa risota, primária como sou, acabo mesmo por me bem-dispor e quase esquecer o que me assusta ou arrelia. Só quando a bonança regressa é que consigo falar do que se passou, já com algum distanciamento, e, mesmo assim, é quando é. E ao de leve. Ao de leve porque não gosto de coisas pesadas. Muito menos de pesadelos.

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E esta conversa à toa para vos convidar a ver comigo estes dois vídeos. Lindos.

Charlot, o entertainer



Sergei, o entertainer



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As imagens escolhidas estão ali, no meio do texto, apenas porque as acho o máximo. Pelo menos as duas do meio são da autoria de Gerhard Haderer.

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