Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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segunda-feira, março 05, 2018

Chamo-lhe Deus porque ele é o tudo e é o nada
eternidade que não dura sequer o eu dizê-la
ei-lo na espuma na lua no reflexo
de repente um esticão a cana curva-se
é talvez um robalo de seis quilos
isto é a pesca
o meu falar com Deus ou com ninguém
sozinho frente ao mar.


Um único pescador. O Tejo todo* para um único pescador. Não admira. Frio, vento, chuva. As fotografias não o mostram. Protegi a máquina, dei luz, tentei que ficassem nítidas. Mas estava mau.

Frente ao rio, resistente à ventania e à violenta chuvada, o pescador ergue-se contra os elementos da natureza. Espera o momento.

E, então, o pescador sentiu picar. Sobressaltou-se: vinha peixe. Arqueou a cana, puxou a linha, chegou-se atrás para dar folga. Puxou, enrolou a linha. Até que a coisa saíu da água. Um bicho do além. Um alien. O pescador chamou os amigos que se acolhiam no armazém e ali preparavam o petisco do almoço. Olhem! E avançou na direcção deles. Dois homens acorreram à entrada para espreitar a pescaria.

Riram, brincaram com o frustrado pescador. Ele assumiu. Mas que era grande, que só visto.

(...)
Por isso quando vou à pesca eu não vou só à pesca
procuro o peixe e o sentido ou talvez a ausência dele
toda a minha atenção se fixa e se concentra
há um robalo que não há e que só eu pressinto
não é ciência nem técnica é algo mais
de pé no meio do canal
lançando e recolhendo a linha
como quem escreve sobre as águas
a mesma pergunta interminavelmente
enquanto caem estrelas e as palavras
como elas fulguram em seu arder.


Um pouco mais à frente, outro habitante da beira do rio preparava também o almoço. 

Media o pitéu, equacionava a melhor forma de lhe ferrar o bico. Semi-cerrava os olhos antecipando o prazer. Peixinho fresco, coisa boa. 


Eu não sei se os teus olhos se gaivotas 
mas era o mar e a Índia já perdida 
as ilhas e o azul o longe e as rotas 
minha vida em pedaços repartida. 

Eu não sei se o teu rosto se um navio 
mas era o Tejo a mágoa a brisa o cais 
meu amor a partir-se à beira-rio 
em uma nau chamada nunca mais. 
(...)

Cá para mim, a ponderada gaivota estava a ajuizar se havia de ir ali à frente buscar umas cenouras, um nabo, uma batatinha, umas espigas de trigo e fazer uma bela caldeirada. Parecendo que não ali há de tudo.


Ou talvez não. Pensando bem, não me parece que a gaivota tivesse pinta de lunática a ponto de se deixar iludir dessa maneira. Provavelmente, quando olha aquela pintura, pensa com as suas penas: 'Ceci n'est pas une carotte'.

Ná. Cá para mim ela estava era a pensar se o peixinho haveria de marchar assim, au naturel, ou se haveria de ir ali adiante buscar uma hortaliça genuína para dar gosto a uma boa marinada.


Fosse o que fosse, a gaivota ali ficou, olhando de volta, bicando ao de leve, observando a iguaria. Depois levantava a cabeça, olhava em volta.

Se calhar estava a digerir o que tinha lido na parede do outro lado. Na volta, não era uma gaivota pragmática mas uma gaivota filósofa. Ou uma gaivota blogger, que vai quase dar ao mesmo já que a quase todos os bloggers, pelo menos de vez em quando, dá-lhes para botar prosa, elencar argumentos, dissertar sobre profundos pensamentos, fazer-se de filósofo.


Isto a gaivota.

Um pouco mais à frente, um menino azul pensava na sua vida. Também desconfiado. Na volta não percebia a hesitação da gaivota. Se calhar estava expectante: 'Come? Não come? Daqui a nada vem um gato e acaba-lhe com a hesitação...'. Ou pensaria: 'Se a gaivota fosse simpática, ia pendurar o peixe no anzol do pescador... Assim os amigos já não gozavam com ele...'. Os meninos da beira do rio costumam ser assim: dados a sabedorias e a afectos sem igual.


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O título do post é um excerto do Quarto Poema do Pescador e, a seguir à primeira fotografia, está um excerto do Segundo Poema do Pescador. Em letra mais pequena, a seguir à fotografia da gaivota, está um excerto do poema As Sete Penas do Amor Errante. Todos de Manuel Alegre.

Maria Bethania interpreta Pescaria

Fiz as fotografias debaixo de chuva, de manhã, no Ginjal


(* O Tejo todo é como quem diz. Melhor fora se dissesse: O Tejo daqui até onde se avista).

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[E agora, Caros Leitores, queiram aceitar o meu convite e desçam ao longo do rio, rente às decadentes e belas paredes do Ginjal, lugar de onde se tem a melhor vista de Lisboa]

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