Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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domingo, março 04, 2018

A casa de Marianne. Tão diferente da minha.



Tenho que arranjar outra estante. Já andei a ver se descubro um lugar. Não está fácil. Não quero atravancar a casa com estantes mas a verdade é que já não tenho onde guardá-los. Invadem cada recanto, aboletam-se nas cadeiras, no sofá ali ao canto, na cadeirinha baixinha, já se empilham ao lado e por cima de outras estantes. Um desatino. Talvez possa passar a estante baixa que está ao fundo do corredor, na zona onde o corredor alarga, para o hall dos quartos. Ainda há lá uma parede sem móvel. Só tem um quadro e um projector em cima. Talvez possa lá pôr a estante baixa e, no corredor, pôr uma estante alta. Mas receio que o problema não seja a falta de paredes para pôr estantes mas, sim, um outro: livros talvez a mais.

E o que eu gosto de colares, de brincos, de pulseiras. Uma meninice de menininha. Vaidosinha, coquetinha. Pérolas. Colares compridos, curtos. De continhas transparentes. Azuis. Rosadas. Douradas. Às florzinhas. Brincos a condizer. Mas é coisa a mais.

E blusinhas. Brancas, transparentes, suaves, decotadas, ondulantes, com golinha, com folhos dançantes em volta do colo. Rosadas. Azuis. Verde água. Rouge. Floridas. Demais.

E caixinhas. De porcelana, de vidro, de madrepérola, de tecido, de madeira, de música, de cartas, de jóias. Tantas. Demais.

Nos anos 60 (Marianne com chapéu, Keith à frente, à direita))
E esculturinhas. De mulheres. De bailarinas. De santas. De meninas. De grávidas. De apaixonadas. Demais.

Santo Antónios. A sério, de devoção. A brincar, de diversão. De sentir ternura. Grandes. Pequenos. Demais.

E os objectos especiais. Bonequinhos de barro feitos pelos meninos. O leque de madeira com poemas e libelinhas desenhadas. Clepsidras. Ampulhetas. Esferas de cristal. Cubos de vidro. Saleiros de porcelana. Chávenas de colecção. Salvo os bonequinhos dos meninos, demais. Demais.

Marianne (na altura com 53 anos) por David Bailey
E vejo a casa de Marianne Faithfull, uma casa tão bonita, tão sem tralha. Ela com uma vida tão preenchida, tão louca, tão diversificada e soube não se agarrar a tudo. A carta do pai. As queridas flores. A fotografia do seu louco amor. Nada demais. Tudo com conta, peso e medida. Uma casa elegante.

Mas, enquanto a vejo mostrando a casa, vejo-a também a ela. Tem agora 71 anos. A jovem inocente foi perdendo a firmeza da pele, a elasticidade dos músculos, a elegância da tenra-idade. É agora uma mulher que se desloca com bengala, que, embora sorrindo, fala da sua solidão. E, embora eu pense que não é nada de mais, que é a natureza a seguir em frente, que é a lei da vida, a verdade é que sinto uma certa pena. A lei da vida, por vezes, pode conter alguns laivos de perversidade. É certo que apenas se conservam jovens, belos e perfeitos os que partem cedo. Mas faz-me uma certa impressão ver a bela Marianne agora nesta sua pele de mulher de idade, quase como se fosse a gasta avó daquela outra de que agora nos mostra em imagens. No entanto, se ela nos diz que nem um osso no seu corpo é nostálgico, não vou ser eu a desfiar aqui palavras apatetadamente melancólicas.

Reeencontro com Keith Richards, 50 anos depois
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Mas eis a casa de Marianne Faithful, mostrada por ela própria



Já agora, Marianne interpretando The ballad of Lucy Jordan




E a voz de Marianne:  Annabelle Lee de Edgar Allan Poe


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E queiram descer de visita aos homens que gostam muito de mulheres e que, quando crescem, se dedicam a coleccionar serviços de chá.

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