Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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quinta-feira, outubro 19, 2017

Assunção Cristas, Constança Urbano de Sousa, Hugo Soares, António Costa.
Culpas, desculpas. Responsabilidades, alarvidades.




De mim ninguém poderá dizer que sou insuspeita.

Sou suspeita, sim. Assertivamente afirmo a minha opinião e sabido é que, nas legislativas, regra geral, voto PS. Mesmo se não me apetece, voto PS. E faço-o não por masoquismo mas porque, na altura de votar, olhando à volta, não vejo melhor opção. Portanto, sou suspeita, sim.

Mas não é apenas uma questão de afinidade ideológica: é também racionalidade. É o resultado da avaliação do carácter dos personagens, das suas ideas e dos seus actos face ao que observo.

Portanto, ao pronunciar-me sobre esta crise, sobre a demissão da Ministra Constança e sobre o que se passou esta terça-feira na Assembleia, não pretendo fazer passar-me por distante e insuspeita. Sou suspeita, sim. E não sou humildezinha. Não. E é, pois, com consciência do que sou que também afirmo que não sou burra. 

E é sendo como sou, falando de frente, que defendo que não se deve transformar o desempenho governativo num guião de telenovela, a puxar ao sentimento, a cavalgar a onda da emoção colectiva para agradar à audiência. E é sem rodriguinhos que afirmo que, não sendo praticante de likes e dessas tretas a la facebook, espero que o governo não governe a contar likes, a distribuir abraços e beijinhos para a selfie. Portanto, sou suspeita, sim. Mais. Afirmo peremptoriamente que a mim o que me enojava era ver Passos Coelho a fazer porcaria todos os dias e, com aquela sua insuportável cara de pau, insultar a inteligência das pessoas, querendo convencer as pessoas que o mal que fazia era para o seu bem.


Portanto, sou suspeita, sim. Suspeita de sentir intolerância para com os papagaios e abutres a quem as televisões pagam para andarem a debicar na dignidade de quem se esforça por fazer o melhor, intolerância para com os avençados pagos para saltarem a pés juntos sobre quem está na mó de baixo. Tolerância zero para com essa gentalha que inunda as televisões. Tolerância zero para actuações de verme como a que acabei de ver a Vítor Gonçalves explorando a dor de Nádia, a senhora de Pedrógão que perdeu o filho, querendo que ela diga como soube que o menino estava morto, querendo que ela diga como foi que o menino morreu. Uma vergonha. Intolerância para com a fulana da SIC que anda a abrir o frigorífico das pessoas que, nas aldeias, estão sem electricidade, exclamando que já se sente o cheiro. Intolerância. Não suporto tanta estupidez.


E sobre a actuação de Assunção Cristas face aos incêndios, ela que foi ministra da Agricultura e nada fez, sobre o aproveitamento mediático que tem feito dos desastres e a guerra quase cruel que moveu à Ministra Constança Urbano de Sousa, a palavra que me ocorre é asco.


E sobre o seu apelo insistente, a quase exigência, de um pedido de desculpas por parte de António Costa, no que foi secundada por esse bronco feito deputado e chefe da bancada laranja que dá pelo nome de Hugo Alexandre, a palavra que me ocorre é a mesma: asco.


Democracia, humildade, sentido de dever, honestidade intelectual -- tudo isso é outra coisa, coisa que talvez apenas pessoas com alguma maturidade democrática e sentido de decoro consigam saber o que é. Assunção Cristas, Hugo Soares e seus comparsas não o sabem.


Quando vejo, no Parlamento, o friso do Governo a ser enxovalhado por badamecos desqualificados como o Hugo Soares ou a Assunção Cristas sinto pena. Pena. Pena por eles, rostos cansados e tristes, a serem insultados por gente que não tem categoria nem para varrer o chão da assembleia -- e pena pela democracia. A democracia carcomida por dentro por esta gente.


Não desvalorizo a dimensão da tragédia. Sinto uma dor de alma, que é muito minha, pela morte das pessoas, pela devastação da floresta, pelo fim de tantos animais. Mas porque assim sinto, mostro respeito pelo que se passou.

E naqueles dois pafiosos e nos seus correlegionários o que vejo é um indecente desrespeito. Sobre a complexidade dos problemas e sobre a dor dos que perderam familiares, casas, animais, árvores, aqueles dois o que fazem? Exibem impudor, alarvidade.

Eu, porque tenho perfeita noção da dimensão e diversidade das razões que levaram a que os incêndios fossem tão devastadores, não os desvalorizo nem sou estúpida a ponto de pensar que o que se passou foi culpa da Ministra.

Portanto, se querem que vos diga, hoje voltei a pensar que é uma pena que, para se entrar para deputado, não haja provas de aferição e testes psicotécnicos, entrevistas, avaliação da personalidade. Se tudo isso é necessário para desempenhar funções banais, como é que qualquer desqualificado pode ser deputado e decidir sobre a vida da população?

Gentinha com um baixo coeficiente de inteligência, sem moral, sem vergonha na cara e sem competência não devia poder ser admitida para exercer a função de deputado. Gente destas não representa o povo: pelo contrário, envergonha o povo.


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Pinturas do período escuro de Mark Rothko. De Profundis de Arvo Pärt.

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