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segunda-feira, junho 05, 2017

Geometria pouco descritiva




A linha recta, honrada, previsível. O desenho a régua, o traço a esquadro. A sombra que desce a direito. O ângulo, o segmento, o polígno. A função que adivinha a queda, que antecipa o declive, o ponto exacto em que a recta fere o plano.

A simetria, beleza suprema. O equilíbrio isósceles, o afecto manso da bissectriz, os braços que abraçam a base, que anseia pelo escadeamento, pelo desafio que a penumbra poderia tornar forma docemente escalena. 

Ou uma trignometria suave, o sol que se encosta à parede, o namoro convergente, a derivada que intui a subida, o infinito que aguarda tudo o que não conseguem acabar. 

As paralelas que se querem aproximar, mas não, mas não. Tangenciam-se as linhas mas tocar não, tocar não.
Tocar não, ouviste? 
Querem-se curvas, elipses, tombam, tombam, anseiam ser hipérboles mas isso não, isso não, isso não que ser hipérbole não é para qualquer linha.

A fresta, a fenda, a nesga, o rasgo de luz, o caos de tantas cores que emerge por entre duas superfícies sem limites. A origem do mundo. 


As cores chegam, chegam-se, achegam-se, sobrepõem-se, diluem-se, topologias abstractas, figuras sem contornos, intuições à solta, felicidades sem letras, a separabilidade flexível, a conexidade mágica. 
Estás a acompanhar-me?
E os sólidos, poliedros ou sem faces, uniface eles, desvarios sem nexo, hipotenusas, catetos, pirâmides gimnopédicas, gnossianas límpidas, saties em gotas, a elegância da aresta, da face, a mão que se aninha para acolher o volume. 
Queres experimentar?
A homologia, o espaço sagrado, aberto, virtual, belíssimo, tendencial, tangencial à percepção -- ah, o que eu preciso de não ter limites, o que eu preciso que aceites a ausência de fronteiras, que me acompanhes nesta demanda da diluição de conceitos, da suprema perfeição.
Acompanhas-me? Acompanhas-me, amor meu?

Por isso, cartografa-me, amor, descobre-me os segredos, descobre-me os fractais, vai com os dedos, um a um, até ao mais pequenino, até ao mindinho, até ao infinito, até ao infinitamente pequenino, pequenininho. Depois desliza pelas curvas, pelas minhas curvas, pelas das montanhas e vales que a minha natureza tem para ti. E tenta perceber onde se encontra o centro, o ponto secreto. Depois percorre os raios, um a um, calcula o perímetro, a área, o volume, a carne, a malha imensa que sobre a pele se esconde, estradas e canais que se cruzam, intersecções virtuosas. 

Não queiras saber, amor, se é euclideana a minha geometria, aventura-te pela analítica, atira-te à incógnita, adivinha as constantes, põe-me em equação, resolve, resolve os meus enigmas, encontra os pontos autossimilares, as recursividades sensíveis -- e não desistas nunca, todas as iterações te serão concedidas.

Não aceito parábolas nem que te desculpes com assíntotas. Sabes bem disso. Quanto muito aceito, e olha lá, algumas metáforas. Mas têm que ser metáforas circunflexas, concêntricas, poéticas, difusas como a luz que dissolve a cor.

Então, amor, fecha os olhos e desenha com linhas invisíveis a amorosa rede que te traz preso a mim, e eu a ti, e eu a ti, amor, o feixe de ilógicas e inomináveis razões, os laços transparentes que incondicionalmente nos unem. 
O amor é um acto diferencial e isto não é um axioma mas uma declaração infinitesimalmente algébrica. Ou apenas uma forma de dizer que. Que. 
                Tu sabes o quê.

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Ou talvez eu esteja apenas a falar de geometrias afectuosas, verdes, gentis e felizes.

Ou a falar de coisa nenhuma
(enquanto mostro fotografias feitas este domingo in heaven).

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E, para terminar, se me permitem:

A beleza das estruturas infinitas, reprodutivas, multiplicadas na sua coerente perfeição

Fractais



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Be happy.

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