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segunda-feira, junho 12, 2017

Eva e Mateo
- Cristiano Ronaldo foi às compras e, segundo dizem, a mãe foi aos States levantar a encomenda


Não tenho nada a ver com as opções de cada um desde que não tenham impacto negativo sobre mim, sobre os meus ou sobre a comunidade em geral. 


Que Cristiano Ronaldo, em vez de fazer filhos pela via normal, como qualquer homem que resolva acasalar e deixar descendência, opte por comprar o serviço de gestação a uma qualquer desconhecida, não seria nada de minha conta – e, em boa verdade, não é.


Apenas me dou ao trabalho de aqui vir falar disso (e não é a primeira vez que o faço) porque tudo isso é anunciado aos quatro ventos e porque o CR7 é ídolo de jovens de todos os credos, raças e nacionalidades e me parece que pode haver o risco de que uma prática -- que me parece aberrante, consumista e mesmo, até, confesso, algo sinistra -- ser tida como coisa normal junto dos que, em idade influenciável, o admiram.

Não há muito tempo, conhecido meu com décadas de prática e direcção num dos grandes hospitais de Lisboa e, especialmente por isso -- mas não só --, conhecedor de alguns bastidores da capital, dizia -me que, por cá, também acontece os gays com posses contratarem barrigas de aluguer nos Estados Unidos. 



Não estou a dizer que seja o caso de Cristiano Ronaldo até porque desconheço as razões que o levam a optar por esta via para concretizar a paternidade. No Expresso li que em Portugal esta opção ainda não é lícita e que este é, justamente, o próximo cavalo de batalha por parte dos homossexuais. Confesso que não tenho ideia amadurecida sobre o tema mas, intuitivamente, rejeito-a. 

Tenho para mim que, a menos que haja doença ou deficiência impossibilitante de uma gravidez normal, não faz grande sentido uma mulher recorrer a uma barriga de aluguer. E, do lado de quem aluga a barriga, apenas posso perceber se qualquer outra forma de subsistência estiver fora de alcance. E, do lado dos homossexuais, se está fora de propósito recorrer a alguém que aceite ser mãe da criança, parece-me mais ‘humano’ que se recorra à adopção de uma criança existente do que ao aluguer de uma barriga para uma produção independente. 

Ter um filho não é como comprar um boneco em que se vai à loja, se escolhe, se paga e se traz para casa.


Está fora de causa duvidar que uma avó (ou mesmo uma ama) dispense às crianças todo o carinho e cuidado de que elas necessitem. A questão é a circunstância adulterada e amputada que a criança carregará para o resto da vida: uma criança comprada, feita e gerada por uma mãe de aluguer. E, assim que parida, logo retirada do convívio e do colo da mãe. Li algures que impedem a visão das crianças para que a mãe que dá à luz nem chegue a ver as crias que lhe são, de imediato, retiradas.

Tudo contra natura. Só por isso, já me incomoda. Tal como incomoda o motivo, porventura frívolo, da opção. Não quererá Cristino Ronaldo vir a ter maçadas com mães de crianças, guardas partilhadas, pensões de alimentos e outras maçadas. E, então, preferirá pagar umas centenas de milhares de dólares e, contratualmente, resolver ab initio o tema: fica com as crianças só para si, para serem criadas no exclusivo seio do clã Aveiro e não se fala mais no assunto.



Lamborghini, Porsche, Bugatti, Maserati, Mercedes, BMW, Rolls-Royce, Bentley, etc, são alguns dos carros que o muito dinheiro de CR7 já comprou. Segundo li, possui uma garagem invejável que as revistas e sites da especialidade seguem com salivante desvelo. O menino pobre que se tornou o melhor futebolista do mundo, rico, rico, mil vezes muito rico: o sonho dos pobres, dos favelados, dos suburbanos, dos remediados. Uma espécie de pretty girl ao contrário, o sonho tornado realidade, a cinderela que veio da ilha pobre para conquistar o mundo. Omnipresente em cerimónias de atribuição de prémios, em campanhas publicitárias, em homenagens, como personagem da play station – Cristiano Ronaldo é conhecido e admirado por todo o mundo. Quando assim é e quando, em cima disso, se ganham muitos milhões e se sente ter o mundo a seus pés, pode haver a sensação da auto-suficiência e do poder absoluto. Percebe-se. O pior é o exemplo que se transmite caso o exemplo seja perverso.


Um dia, talvez esteja ao alcance dos que tudo podem encomendar a modificação genética de embriões para que sejam clones perfeitos do si próprios, ou, quem sabe, se possa mandar modelar seres humanos a façon e executá-los em impressoras 3D ou fazer com que, ao nascerem, lhes seja implantado um chip que os torne mais inteligentes, mais infalíveis, talvez até imortais. 

Tudo poderá ser possível se a todos os embates éticos formos fechando os olhos. 

No poema, Rimbaud  dizia par délicatesse j'ai perdu ma vie -- e eu espero bem que por delicadeza para com os que tudo podem não estejamos a abrir portas ao fim de espécie humana, pelo menos ao fim da espécie humana tal como a que conhecemos hoje.

Estou a empolar? A dramatizar? 
Talvez, não digo que não. Mas também admito que possa ter alguma razão.

Segundo dizem os jornais, Mateo e Eva, os recém nascidos gémeos Aveiro e novos irmãos de Cristianinho, estarão prestes a chegar a Madrid. A avó, a mediática Dolores Aveiro, estará nos Estados Unidos para trazer as crianças. Provavelmente um advogado, provavelmente contratado via agente do CR7, terá tratado de tudo de forma a que nenhuma ponta fique solta. E, provavelmente dentro de dias, Cristiano Ronaldo aparecer-nos-á com a nova namorada, Georgina Rodriguez, e com toda a prole, feliz da vida, realizado profissional e pessoalmente. 


Que as suas crianças não tenham mãe será mero pormenor.

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[Sobre carros de outra cilindrada e sobre o que me aconteceu com um deles, queiram, por favor, descer. A confissão não abona muito a meu respeito mas, enfim, é o que é]

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