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terça-feira, maio 02, 2017

A serpente crucificada



Andando a percorrer os recantos e as capelinnhas da cidade, fui dar com a imagem mais estranha que poderia imaginar. Pensei que nem estava a ver bem. Fotografei-a de vários ângulos tentando perceber que coisa era aquela. 

Mas nada me fez perceber o significado do que estava a ver. Em frente da igreja, uma serpente envolvendo a cruz. Em vez da imagem de Cristo, uma enorme serpente de assustadora língua de fora. Depois de ter andado a ver imagens de Nossas Senhoras ou belos altares em talha dourada, aquilo pareceu-me coisa de mau gosto, algum símbolo carregado de perversidade.

Agora, depois de ter procurado na net que bizarria é esta, encontro no site da DGPC a explicação:
Diante da igreja da Senhora da Lapa, no extremo ocidental do Campo da Restauração, ergue-se o cruzeiro de Vila Viçosa, também conhecido por Cruzeiro do Carrascal. Sobre um singelo soco quadrangular ergue-se a base do cruzeiro, constituída por pedestal moldurado de grandes dimensões, suportando uma cruz latina em mármore, onde se enrola uma serpente alada. Trata-se de uma obra quinhentista, datável da primeira metade do século XVI, que reflecte importantes aspectos da espiritualidade coeva, com ênfase para a esperança da Salvação através da Paixão de Cristo. De facto, e apesar da estranheza inicial que pode causar a presença da serpente no lugar de Cristo, esta figuração ilustra de forma clássica a prefiguração da morte de Jesus Cristo na cruz do Calvário, através do episódio do Antigo Testamento no qual Moisés fundiu uma serpente de bronze e a ergueu sobre uma estaca. Segundo as correspondências testamentárias, e de acordo com os Evangelhos, Cristo seria levantado na cruz da mesma forma que o fora a serpente, imagem dos pecados da Humanidade por ele redimidos. (...)
Está certo. Uma metáfora. Contudo, metáfora por metáfora, prefiro as mais tradicionais, as que nos chegam ilustradas com símbolos da maternidade e protecção, como esta Nossa Senhora que vi num painel de azulejos na fachada de uma casa, a Nossa Senhora coroada, com um rico vestido com padrão de rosas e com o Menino a fazer pendant com ela. 


Não sei qual a razão para a humilde Maria nos aparecer assim, tão distintamente paramentada, mas presumo que exista também uma razão. E, assim como assim, é uma imagem que sempre transmite harmonia, enquanto a serpente na cruz transmite insegurança e medo. Mas enfim, isto já são observações leigas e ignorantes de quem não leu os Evangelhos e que prefere as metáforas que têm o seu quê de poético.

Como o que aqui se mostra: Pablo Nerudo a ensinar ao Carteiro o que é uma metáfora.


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3 comentários:

Ana disse...

Fui ver à net e achei interessante: os sábios e feiticeiros do faraó também conseguiram transformar paus em serpentes, mas a serpente de Moisés comeu as outras.
Deus é Deus e ai de quem se meta no seu caminho.
Ana

Ana disse...

Quero pedir-lhe desculpa e aos seus leitores pelo comentário de há pouco. Sou religiosa, gosto muito de conhecer episódios bíblicos e deixei-me levar pelas minhas convicções religiosas.
Não volta a acontecer.

Um Jeito Manso disse...

Olá Ana,

Não se preocupe. Não me senti desconfortável com o seu comentário.

Sobre as 'minhas convicções religiosas' -- que são tolerantes e inclusivas -- acabei de escrever um post.

De certa forma, foi também o seu comentário que me fez ter vontade de escrever sobre o assunto e, portanto, agradeço-lhe.

Um dia feliz para si, Ana.