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domingo, abril 30, 2017

Estar a levar uma massagem tão, mas tão boa... e adormecer.





Há alturas em que me ponho a marcar passo, quase vencida pelo politicamente correcto. Ainda não escrevi a primeira letra e já as ouço a remorderem que a vida não é só isto, coisas boas e sorrisos, ou que sou uma exibicionista ou que rebéubéu, pardais ao ninho. Embora, em geral, me esteja nas tintas para comentários verdes de raiva -- pois acho que, quem não gosta tem bom remédio, basta não ler o que escrevo -- a verdade é que, volta e meia, parece que me sinto reprimida avant la lettre.

Na verdade não sei se hoje estou assim pelo tema sobre o qual me apetece escrever ou se o ter lido uma notícia triste me deixou desconsolada. Vão desaparecendo as pessoas que, de uma maneira ou de outra, atravessaram a nossa vida. Este sábado foi um cronista que me acompanhou durante anos e me proporcionou belíssimos momentos de leitura, reflexão e gáudio. A minha mãe dizia-me que o meu tio, quando lá vai a casa, está o tempo todo a falar de pessoas conhecidas e de episódios passados e que, de vez em quando se esquece dos nomes e pergunta à minha mãe se se lembra. E que, por vezes, conclui que cada vez há menos vivos nesse grupo de quem fala. E a minha mãe disse-me: 'E é. Vão morrendo'. Fiquei sem saber o que responder porque isto é mesmo assim, a vida parece uma bateria que, apesar de várias recargas, um dia, inexoravelmente, chega ao fim e já não há recarga que lhe valha. Contudo, por muito que racionalmente se pense assim, a verdade é que deve dar muito medo quando se vê que os anos já estão a entrar naquela zona de risco em que, face à esperança média de vida, o que vier a mais já é ganho e em que se começa a sentir uma nostalgia antecipada por se saber que, muito provavelmente, já não se acompanhará a vida toda daqueles que amamos.

Mas, enfim, é o que é.

De resto, falar sobre isto, não é propriamente registo que me agrade.

Portanto, para trás das costas as angústias que, de quando em vez, tentam abeirar-se de mim -- e vou mas é contar aquilo que tinha em mente. Uma coisa boa.


Massagem.

A lista de opções é longa. Massagem só aos pés, outra só às costas, outra qualquer coisa linfática, outra muscular para desportistas (esta que ainda se divide em massagem de preparação ou para depois, para relaxar os músculos mais retesados depois da prova desportiva), outra de reiki, outra de aromaterapia, e várias outras. Perante tanta coisa que me parece boa e outras que desconheço e, por isso, me atraem, fico com dificuldade em escolher. Arrisquei: uma geral, se puder ser um misto de tudo isso, melhor, uma que me deixe descansada.

E lá fui à hora combinada. Já estava à minha espera. Talvez uns trinta e tal anos, quarente e poucos. Olhos verdes, sorriso doce. Toda de branco, descalça.

Despi-me, deitei-me de barriga para baixo, a cara no buraco que há na marquesa. Como habitualmente fui tapada com uma toalha que ia sendo puxada para deixar à vista a zona do corpo que estava a ser trabalhada.

Uma música conhecida que eu, estupidamente, não identifiquei.  Agora, ao escolher uma que se assemelhasse, foi em Lizst que pensei. Talvez. E, ao contrário do que é habitual, desta vez as cortinas para o exterior não estavam corridas. Contudo, dado o ângulo, nada se veria da rua, em especial dos barcos. Mas eu via o mar, os veleiros. Um sensação boa.

E, então, começou a espalhar-me óleo quente e perfumado. Fez, de facto, um pouco de tudo. Começou pelos pés e, logo ali, comecei a flutuar.

Depois foi subindo e vértebra a vértebra, músculo a músculo, foi descontraindo, amaciando. O ar perfumado, a música, a vista -- tudo perfeito. Mas tinha um plus: ela dançava enquanto fazia a massagem. Não tanto com os pés mas com os braços, com as mãos. Ao som da música, ela passava os braços e as mãos pelo meu corpo, ora energicamente, ora com suavidade. Dançava e o meu corpo era, ao mesmo tempo, o plateau e o seu instrumento musical.

Depois de barriga para cima. Uma toalha dobrada a fazer de almofada para a cabeça ficar mais alta. A mesma coisa. Mas aí, embora geralmente eu estivesse de olhos fechados, ia abrindo ao de leve para a ver. Ela nem me via a olhá-la, de tal forma estava concentrada na dança, na música, uma coisa extraordinária, os olhos praticamente fechados, as mãos quase como se tocando piano ou harpa.

Por fim, puxou de um banco com rodas, baixou a marquesa e colocou-se, sentada, atrás de mim. Nessa altura já eu estava toda coberta pela toalha. Puxou-a um pouco para baixo para deixar o colo à vista. E começou então uma massagem que abrangia os braços, os ombros, o pescoço, o colo, a nuca.

E, como será fácil imaginar, aconteceu aquilo que adivinham. Sou de sono fácil. Não durmo muitas horas mas o meu sono, quando caio na cama, é imediato e profundo. Idem, no carro, quando não sou eu que conduzo. Ou no sofá, se estou sem nada que fazer. Imagine-se ali, naquele ambiente, naquela situação de relax total.

Comecei, pois, a sentir que estava a passar para o lado de lá, já meio a dormir. Mas tentei evitar. Sobretudo, parecia-me um desperdício estar a levar uma massagem tão boa e deixar-me de dormir.

Mas ela avançou, massagem na cara, na testa, dos lados, nas maçãs do rosto, no queixo, depois na cabeça, devagar, devagar, com as duas mãos. E aí não teve jeito: caí mesmo num sono profundo. Apaguei.

Acordei momentos depois, não sei quanto tempo decorrido. Falando-me como quase em segredo e tocando-me na mão, pareceu-me ter recebido um subtil sinal de que devereia despertar. Devo ter aberto os olhos, estremunhada. Ela sorriu lá na língua dela que me pareceu ser de leste travestida de espanhol: 'Muito sono...?'

E eu, furiosa comigo mesma, que não era que o sono fosse muito... mas que a massagem era tão relaxante...

Ela sorriu, perguntou se eu tinha gostado.
Sessenta minutos de reiki, aromaterapia, massagem localizada e geral, dança ao som de piano... como não gostar? Pena mesmo é que durante os últimos minutos não tivesse dado por nada.

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E agora que já assistiram à minha sessão de massagem, caso estejam a sentir um certo apelo místico, queiram descer e assistir à refrega polemista que se avizinha. César das Neves desafia duas doutas vozes e afirma, contra todas as celeumas, que ele sabe, porque sabe, que Nossa Senhora apareceu mesmo, em pessoa, aos três pastorinhos

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2 comentários:

bea disse...

Ainda não fui além. Mas, em início de dia molhado, a sua massagem cai sem cair. Paira. Convence. E não há raiva verde que se aguente (além do que, para mal dos meus pecados, raiva é coisa que não me entra). E enfeitou o post com flores que conheço. E depois, sempre pensei que as massagens são momentos de prazer, e comprovei, são mesmo. Está pois aqui montado um belo de um post. Se venha alguém verde ou em raiva de outra cor, não ligue. Paz e harmonia são de companhia e duração. Oxalá se estendam ao (e aos) que a rodeia(m).
O resto é conversa, deixe para lá. Que esta chuvinha sabe-nos a maravilha e aquieta o pó do caminho, mata maléficos micro qualquer coisa, limpa o ar que respiramos. E traz assim uma ilusão de pureza.
BFS

Um Jeito Manso disse...

Pois é, bea, bom mesmo uma massagem assim. Se puder, um dia em que não saiba o que lhe oferecerem ou oferecer a si própria, vá nessa: uma horinha de harmonia, bem estar, relax.

E obrigada pela compreensão e simpatia.