Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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sexta-feira, abril 28, 2017

De dia, sol e calor.
Uma varanda imensa sobre o mar, paquetes que parecem bairos, pátios andaluzes, esculturas.
[Agora, vento e chuva. Mau tempo para sair para o mar]




Os paquetes que aqui aportam são de uma dimensão inacreditável. Mostro, acima, um deles e mostro-o segundo aquela perspectiva, que não será a mais explícita, apenas para que se perceba qual a escala. E continua, pois, como dá para ver, a fotografia não o apanhou inteiro, falta a parte da frente. Parece um mega prédio a ocupar um big quarteirão.

Presumo que parte dos viajantes estivesse em terra pois, em várias varandas, estavam homens a limpá-las. Tirei uma fotografia que, ao vê-la agora (e nem a partilho aqui), me impressiona bastante. Um homem, jovem, talvez indiano, talvez paquistanês, não sei, segura uma mangueira para lavar a varanda que é toda de vidro (ou acrílico, com certeza). Cá de longe, no passeio, eu fiz zoom a uma das varandas, para ver melhor o que eles andavam a fazer, e, agora, parece que ele, lá de cima, também me está a olhar. Tem um ar muito sério e parece fixar-me. 

Trabalhar num barco não deve ser coisa fácil. Provavelmente quase não conseguem vir a terra pois, ao contrário do que eu pensaria -- que, quando os navios aportam, é descanso quase generalizado --, se calhar aproveitam para fazer trabalhos que, com os hóspedes a bordo, não podem ser feitos.

Tem que haver quem exerça todas as profissões e, se for de gosto e bem remunerado, este trabalho, em especial se permitir conhecer os países onde os navios atracam, deve ter bastantes atractivos. Mas pode também ser uma quase tortura, uma prisão (e isto apesar das câmaras de descompressão onde se possa ouvir Bach e Albinoni e zelar pela manutenção da boa forma).

Enfim. Não sei.


Andámos junto à baía. Já aqui tínhamos estado e tínhamos guardado a memória de um longo varandim junto a umas muralhas, rente ao mar.

Há lugares onde sempre apetece voltar -- e este é um deles. Estar junto a uma destas árvores gigantes, sentir o tempo a mover-se muito lentamente, ouvir a conversa solta de quem passa, deixar que a nossa serenidade acompanhe o voo deslizante das gaivotas, sentir o perfume das árvores a cruzar-se com o da maresia, é muito, muito bom.


Fizemos o percurso de ponta a ponta, vindos do porto. Agora à noite o meu marido disse que tenho a cara e o peito bronzeados. Ou é ilusão de óptica ou foi do solinho bom que apanhei enquanto passeava por aqui, fazendo fotografias, olhando o mar, açambarcando azul para os dias em que vivo fechada, de manhã à noite, numa torre transparente, toda de vidro mas onde as janelas não abrem, nem chegam sons ou perfumes de árvores.

De vez em quando, o sol descobria e vinha com força. Tinha levado uma blusinha de manga curta e, para o caso de esfriar, o poncho de renda aberta, em linha de cor crua, que a minha mãe me fez e que sendo aparentemente inútil, na verdade transmite um conforto (e isto para não dizer agasalho -- que o meu marido, quando me pergunta se não levo nada para o caso de arrefecer e lhe digo que levo o poncho, até se passa, acha aquilo uma anedota). Mas até tive que o tirar pois, até princípio da tarde, o calor era muito.

[Agora, enquanto escrevo, ouço a chuva a cair com força e ouço o vento a fazê-la bater ainda mais ruidosamente na varanda. Lá em baixo os barcos devem estar agitados. Se não fosse tão tarde e não tivesse receio de acordar o meu marido, enchia-me de coragem e ia ali espreitar o mar. Mas é melhor não, senão é que ele se passa comigo].
De resto, não é por ser tarde, é também que não quero maçar-vos mais, que me fico por aqui. Mas, antes de apagar a luz, deixem ainda que vos mostre mais duas coisas. Uma é uma das imagens de marca da Andaluzia: os pátios. Por onde vou andando, vou espreitando. São uma maravilha. Escolho este porque o cromatismo dos azulejos, o portão de ferro rendilhado, a porta de madeira ao fundo, tudo me parece de uma elegância feliz. Terá, ao meio, uma laranjeira? 


E a outra coisa que vos quero mostrar é um monumento. Há muitas esculturas por aqui, desde as religiosas, às comemorativas, às que recordam cidadãos ilustres, às alusivas às tradições, passando pela fantástica estátua das Cortes com a belísssima figura feminina representando a Constituição. Mas a que escolho para aqui partilhar convosco é uma muito simples. É feita em aço e em bronze e, incluindo a base, mede sete metros e meio. É dedicada à liberdade de expressão e, pelo seu formato inesperado e pela sua aparente singeleza, não passa despercebida. 

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E, por agora, por aqui me fico. 
O vento sopra agora ainda com mais força. Mau tempo para quem anda no mar.

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E queiram descer para um petisco invulgar. Bem, não é bem o petisco que é invulgar: é mais a forma onde e como é servido.

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