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quarta-feira, abril 05, 2017

Cuidado com os dildos high tech,
cuidado com as paixões por robots
e preparemo-nos para a luta das quotas a favor dos humanos





Aqui onde me vêem, sou toda conservadora. E não estou a ser irónica, não senhores. Por exemplo, comecei o meu turno da noite, aqui na bloga, com uma receita de culinária do mais tradicional que há, tudo ingredientes normais e baratos, nada de modernices.
E quase poderia dizer que a cozinha é o meu reino -- mas estaria a exagerar (gosto de cozinhar, sim, mas, sobretudo, cenas improvisadas). 
Depois disso estive a coser um botão num casaco do maridinho. Podia ter estado a coser meias mas desta vez não calhou.
E não o faço contrariada. Gosto de coser e acho que um dia tenho que aprender a coser à máquina pois acredito que ainda hei-de dedicar-me a inventar vestidos, capas, sacos iguais aos vestidos ou longas écharpes iguais a túnicas hiper lindas.
Mas não me fico por aí, pela culinária e pelas costuras. Não. Sou conservadora em toda a linha.

A new survey suggests a third of graduate jobs
around the world
will eventually be replaced by machines or software.

Por exemplo, embora haja gente, no trabalho, que eu prefira ver pelas costas ou, pelo menos, longe de mim -- gente com mau astral, tóxica -- ainda não estou preparada para ver sentado à secretária um robozinho ou a ter que vir para aqui defender quotas, não de mulheres, mas de humanos.

Nem estou preparada para ver a Avoila a defender a redução do horário de trabalho para os robots como forma de se abrirem algumas vagas para os humanos que ela representa.

Não.

Leio coisas como esta aqui abaixo e acho que estou a entrar num tempo que me desagrada que seja o meu:

Robots may soon invade our home and leisure environments. In the ‘Henn-na Hotel’ in Sasebo, Japan, ‘actroids’ – robots with a human likeness – are deployed, the report says. “In addition to receiving and serving the guests, they are responsible for cleaning the rooms, carrying the luggage and, since 2016, preparing the food.”

The robots are able to respond to the needs of the guests in three languages. The hotel’s plan is to replace up to 90% of the employees by using robots in hotel operations with a few human employees monitoring CCTV cameras to see whether they need to intervene if problems arise.
Mais. Posso achar que o meu compagnon de route tem muita coisa a melhorar, tanta que nem vou aqui enfastiar os meus leitores e, no entanto, conservadora que sou, acho que com quem não atinava mesmo era com um robot. Há lá coisa melhor que um homem carregadinho de imperfeições? Com um robot bem comportado em casa, com quem é que a gente ia embirrar? Ou como é que se aguentaria um boneco desses sempre a dizer coisinhas lindas, sempre maçadoramente cortês? Eu cá não. 

Por isso, olho com pasmo para o engenheiro Zheng Jiajia que se casou com Yingying, um robot feito por ele. O robot parece uma mulher, é certo, e tem, ao que dizem, inteligência artificial e parece que depois do upgrade que ele lhe vai fazer, vai ficar uma mulherzinha e pêras --- mas, lá está, o meu lado tradicional puxa mais para que um casório ou amancebamento seja com seres vivos de verdade.


Em linha com as notícias de cima, uma outra que atenta contra o meu pobre espírito que já nem sei se é liberal, conservador, feminista ou what.

Vendem-se vibradores que, imagine-se, têm uma câmara na ponta e estão equipados com wifi. Ou seja, que filmam o environment ou os espaços onde se introduzem. Por ironia ouço chamar-lhes endoscópios -- mas, a ser, é um endoscópio avançado que transmite na hora, se calhar para o mundo, tudo aquilo que vê. Pasmo de novo. Qual o interesse sexual de alguém transmitir as imagens dos seus interiores? A menos que o destino do apetrecho não seja bem aquele que a minha mente perversa imagina e seja uma inocente câmara de filmar. Por exemplo, vou passear para a beira do rio, de dildo na mão e, em simultâneo, transmito as imagens para os meus leitores verem coisas bonitas. O rio, o sunset, os barquinhos -- quero eu dizer. Do além, é o que vos digo.

Este que aqui vos mostro, chama-se Svakom Siime Eye e custa $249. E a facilidade com que se pirateia é desconcertante, conforme se pode ver abaixo. Por exemplo, se eu tivesse facebook e quisesse presentear os meus amigos com as lindas imagens que o Siime Eye captasse, convencida que só os meus amiguinhos do peito poderiam ver, dada a facilidade com que se pirateia, poderia estar meio mundo a gozar o pratinho.




Se eu fosse moderninha, entrava em histeria com estas novidades, ia já para a Amazon encomendar dildos olharapos ou maridos amestrados -- ou, até, uma empregada doméstica biónica.

Como não sou, fico-me por aqui, entre livros de papel, a pensar em príncipes que chegam de noite, em cavalos alados, cruzando os ares, furando os sóis poentes. 


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As gravuras são ainda de Robert Mcginnis

Jenifer, lá em cima, interpreta Poupée De Cire Poupée De Son

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E agora, caso estejam capazes de comer qualquer coisa, queiram, então, inspirar-se na minha tigelada de maçã, económica, rápida e nutritiva: é já no post abaixo.

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5 comentários:

Rosa Pinto disse...

Bom dia.
Cuidado com essas coisas. Caramba estamos na era do biológico (nada artificial).

Aniversário
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a.olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho... )
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos ...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira! ...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

Álvaro de Campos, in "Poemas"

Parabéns a mim! :)

Anónimo disse...

Magnífico poema que Rosa Pinto aqui nos trouxe. Aprecio a sensibilidade da Leitora Rosa Pinto.
P.Rufino

Um Jeito Manso disse...

Parabéns Menina Rosa pinto,

Que tenha um dia muito bem passado e uma vida longa e feliz!

Beijinhos.

Se pudesse oferecer-lhe presentes haveria de lhe arranjar uma coisa muito bonita e inesperada. Assim, aqui fica a minha vontade. Agora, ao escrever isto, lembrei-me que, se a Rosa morar em Lisboa, podia ir a uma destas lojas:

http://pt.flyingtiger.com/pt-pt/countries/portugal/stores/pt101
(ver o menu e navegar)

De certeza que encontra lá coisas que vai adorar.

Beijinhos e felicidades!

Um Jeito Manso disse...

Rosa,

Vi agora no site que há imensas lojas destas. Pensei que era só cá em Lisboa. Sou mesmo imperialista, senhores.

Beijinhos.

Rosa Pinto disse...

Obrigada pela sugestão. Hoje mesmo vou espreitar na Rua da Prata.

Beijinho