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sábado, abril 29, 2017

Cherchez l'homme



Não faz mal o frio, o vento ou a chuva. É tudo tão bom quanto o aconchego do quarto ou a polifonia da esplanada coberta. Quando se está na predesposição de estar bem, não há meteorologia que meta a colher. Portanto, dia tranquilo, passeio, sossego, leituras.

À beira de água, ora sob uma ventania gelada, ora sob uma chuva miudinha, andámos observando os barcos, o movimento na baía, o pouco movimento dos veleiros ou iates. Um enorme que chegou despertou a minha atenção. Será barco de recreio, para transportar grupos? Vimos lá dentro uns três tripulantes, vestidos de igual, elegantes, aparentemente escolhidos a dedo. Pareciam modelos Dolce & Gabanna. O meu marido diz que não, acha que é barco individual. Maior que uma moradia grande. 

Como sempre, entretive-me a fotografar. Não é fácil com o tempo assim pois a lente fica molhada, o vento faz deslocar o foco, se me abrigo debaixo do chapéu de chuva, o vento fá-lo tapar-me a visão. Mas também não faz mal. Faz parte dos ossos do ofício.

A maré estava vazia e eu fotografava as pequenas pedras cobertas de limos, a cor da água que ia variando consoante vinha o sol ou desatava a chover.

Até que o meu marido me chamou a atenção para um minúsculo vulto que se mexia, lá em baixo, por entre as pedras.

Apertei o zoom, esperei que o vento deixasse, foquei. E lá estava. Um homem. De repente, o centro da minha atenção e, até momentos antes, invisível, irrelevante. Se repararem na primeira fotografia, já lá está ele. Assim somos todos, invisíveis, irrelevantes para quem não nos presta atenção. E assim vamos nós passando pela vida, não vendo praticamente nada do que há para ver.

Não é crítica nem lamento, apenas uma constatação.


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E um sábado muito bom para todos.

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1 comentário:

bea disse...

Pergunto-me com alguma acuidade se ver muito, notar, faz de nós melhores pessoas; se ver o pretenso "tudo" de cada paisagem nos faz diversos, se conhecer o imenso mundo, nos faz entender melhor os outros. E não concluo senão pela consideração de que é no carácter de cada observador que está a vista que nos redime da pura observação casual, a que não dá nem tira e tanto faz ver-se o mundo todo como uma pequena parte; que importância tem que haja mais ou menos adereços, roupagens que vestimos mas não são nós.

E, contudo, concordo, deixamos muito por ver. Talvez sejamos um pouco como os burros que só vêem em frente, tenhamos palas mentais.
Um bom sábado