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quinta-feira, abril 27, 2017

Amanhecer a sul



Amanheceu um dia de primavera, céu com abertas, a aragem fresca, um pouco de sol. O meu marido, queixando-se amargamente do fraco ritmo das minhas caminhadas quando em lugares assim, em que não consigo deixar de parar para fotografar, foi andar sozinho. Daqui a nada chega e teremos o dia inteiro para andar à descoberta.

Já antes aqui tínhamos estado, não exactamente neste meu sítio, mas por estas bandas. Mas, de cada vez que se vem a um lugar, descobrem-se coisas novas, os lugares também mudam, e é diferente ser agora ou no verão, em que as pessoas são a parte dominante da paisagem. Agora não, agora é o mar, as casas, as ruas junto aos braços de rio, as baías, os barcos.

Estou na varanda. Espreito o mar, os veleiros aportados, as velas enroladas. Aspiro o ar fresco carregado de maresia.


Há um silêncio bom. Só, de quando em vez, ele é interrompido por um leve batucar, alguma obra ao longe. E os pássaros. Não gaivotas mas passarinhos que cantam. Esteve aqui um pousado na varanda, sem me ver, eu imóvel a vê-lo.

Estive a ler. Fui fazendo pequenas dobras, ao de leve, nas páginas em que algum trecho mais me cativou. Agora, ao estar aqui, fui rever para transcrever o que me parecesse mais a propósito. Mas não transcrevo nada. Noutra ocasião, talvez. As palavras parecem transportar muita solidão e tristeza e aqui pareceriam deslocadas.

Numa página, a autora fala das mulheres que, na sua infância, via a bordarem em bastidores, o linho esticado, a linha entrando e saindo, deixando suaves bordados. Já bordei muito em bastidor e conheço a sensação boa. Mas as palavras dela trazem a solidão das mulheres que assim ocupavam o seu tempo perdido. E eu hoje não me revejo nessas palavras, não poderia colocá-las aqui apesar da beleza com que ela as urdiu. 

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Pronto. O meu marido chegou e eu vou parar de escrever. Até mais logo.

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PS: Já dei uma volta pelos jornais e, do que vi, nada de novo a oeste. Uma ou outra notícia sem graça, uma ou outra trica entre cronistas. Nem me dei ao trabalho de ler isso das tricas porque um deles é um por quem não tenho apreço nem me parece que mereça atenção ou, mesmo, muito respeito já que ele próprio não se sabe dar ao respeito e tem uma credibilidade que, se não é nula, para lá caminha: o João Miguel Tavares. Portanto, meus Caros, vou ali e já volto.

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4 comentários:

João L. disse...

Um amigo Uruguaio disse-me uma vez que para ele o Sul era o Norte. Ele tinha aprendido o conceito com um artista conterrâneo, Torres García. Visitei o meu amigo (em trabalho) algumas vezes lá no país dele, nos mares do Sul (ainda me lembro da luz do Rio de La Plata). Para mim eram os mares do Sul. Para ele, os do Norte.

O Torres Garcia (ver, por exemplo aqui: https://senorab1972.files.wordpress.com/2015/06/torres-garcia.jpg) invertia os planisférios. E pintava, também. Comprei lá um relógio de parede que tem como fundo o mapa da América do Sul invertido.
É muito interessante. É interessante também a obra do Torres García (encontra-se facilmente na net).

João L.

bea disse...

Eu não quero saber por onde bordeja. Mas desejo que bordeje. Isto porque não costumo usar este verbo e tenho agora o ensejo. E por me parecer que a JM, a bordejar, bordeja com nível.

Um Jeito Manso disse...

Olá João L.

Sendo que a terra é redonda, isto a gente pode sempre fazer deslizar as referências e, consoante o estado de espírito, achar que está muito a sul ou muito a norte.

Eu, para mim, andando para baixo do Alentejo, já me sinto a sul e, se desço um pouco mais, então já me sinto nos mares do sul -- e o azul sem fim que vejo pode ser o fim do sul, o sul do sul. E o azul com sol, então, é a maravilha das maravilhas especialmente quando uma gaivota cruza os ares em voo planado, aos gritos. Fico a achar-me no meio do mar, a sul, completamente a sul.

Gostei de ver as obras do Torres Garcia na net. Não conhecia. Obrigada pela dica, João.

Apesar de estar a norte e sem mar, um dia feliz para si, amanhã.

Um Jeito Manso disse...

Olá bea,

E se tenho bordejado, Milady. De manhã à noite a passear, a esplanar, a petiscar, a fotografar. Feriazinhas curtinhas mas aproveitadas ao máximo.

Vou mandando postais ilustrados dos locais por onde veraneio.

E espero que eles a encontrem bem, a si e aos seus, Milady.