Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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terça-feira, abril 25, 2017

25 de Abril -- ou o fim das memórias





Eu gostava de ser capaz de escrever qualquer coisa nas o sono vence-me. Há umas horas, pus-me a gravar o que os meninos diziam. Pedi ao que até dois meses e picos era o mais novo que fosse falando normalmente. Começou a dizer que estava a contar as notícias e desatou a dizer nomes de jogadores de futebol. No meio, disse que no dia 25 de Abril ia comer um bolo. Perguntei-lhe quem é que ia fazer o bolo. Respondeu-me que era o chinês. Qual chinês? Disse que na pastelaria devia haver um chinês. E prosseguia, dizendo que estava cá em casa e depois acrescentava, referindo-se a mim, que 'ela ainda está viva, nem desmaiou nem nada' e prosseguia a conversa na maior naturalidade. 

Tem esta preocupação com o fim da vida. No outro dia perguntou-me quando é que o avô velhote morre. Outra vez perguntou o que é que tinha acontecido à nossa cadela, que ele não chegou a conhecer, se a tínhamos enterrado. Um dos primos perguntou, noutra vez, se depois das pessoas morrerem, ficam instantaneamente transformadas em esqueleto. Para dizer a verdade, também é tema que me incomoda um bocado e, portanto, não aprofundo, tento que levem na naturalidade mas depois fico a pensar que tenho pena que eles tenham presente isto de a vida ser finita e de que, um dia, nos despedimos daqueles que amamos.

Quando foi o meu 25 de Abril ainda eram vivos os meus avós, com excepção do meu avô materno que morreu num acidente quando eu era pequena. Também viviam dois dos meus tios. Nessa altura eu estava ainda longe de conhecer o meu marido mas estava viva grande parte da família dele pois foram ao nosso casamento, anos mais tarde. Agora também já desapareceram quase todos. 

Perguntei aos meninos se sabiam o que era o 25 de Abril. Disseram que tinha sido uma guerra mas a menina logo acrescentou que não era, não, porque tinham usado cravos e não armas. Ele dizia que os maus se 'renderem' e foram para casa. Eu perguntei-lhes porque é que eles eram maus. Não sabiam. Disse-lhes que eram maus porque não deixavam a pessoas serem livres.

Mas, para quem nunca conheceu a falta de liberdade, não deve ser fácil perceber o que é não ser livre. Muito menos para uma criança toda e só inocência.

Quando daqui por algum tempo poucos restarem dos que viveram antes do 25 de Abril de 74, como manter viva a chama da liberdade? Quando não restarem nem os que fizeram a guerra do 'ultramar' nem os seus filhos se lembrarem do pouco que eles contaram, como explicar a estupidez de tal guerra e a estupidez dos que a impuseram?

Se eu não estivesse tão cheia de sono, talvez conseguisse escrever alguma coisa que fizesse mais sentido do que isto. Gostava de falar de como nunca consegui que colaboradores meus que fizeram a guerra (entretanto já reformados) alguma vez contassem aquilo por que passaram. Apenas um me disse que o outro tinha estado vários dias numa vala só com mortos até que o fossem resgatar. Nunca consegui. Um disse-me, para se justificar, que ninguém se orgulha do que fez na guerra e que não fizesse eu mais perguntas, que preferiam não falar nisso, esquecer. Era e é um homem bom.

Gostava de falar dos que, quando eu era pequena, sabia que chegavam estropiados ou passados. Um dos irmãos de uma das minhas tias voltou assim, não dormia, tinha pesadelos, ficava agressivo. A minha tia dizia 'voltou maluco'.

Também já o contei: um dos desgostos da minha avó materna era que o irmão que tinha vivido toda a vida entre prisões, degredos e clandestinidades não tivesse chegado vivo ao 25 de Abril. Morreu pouco tempo antes. Penso que essa minha avó votava no PCP por causa do irmão. Mas nunca lhe perguntámos. O meu tio é que dizia que achava que a mãe era comunista. Mas ela nunca se pronunciou. Que era de esquerda, isso acho que sim. Nem ela nem o filho cá estão para o dizerem. 

Também já o contei: quando morreu, no meio da papelada descobrimos coisas com piada. Uma é que era mais nova do que dizia. Andámos a vida inteira a festejar o seu aniversário na data errada e o número de anos errados. Não quis que soubéssemos que tinha tido a minha mãe quando ainda era menor. Sabíamos que tinha tido uma paixão pelo que viria a ser o meu avô. Muito bonita, olhos com laivos de verde, cabelo escuro, apaixonou-se perdidamente por aquele rapaz alto, louríssimo e de olhos muito azuis. A minha mãe, quando viu a certidão de nascimento dela, abanou a cabeça e disse: 'Olha... a magana...' e pronto, mais nada, não valia a pena dizer mais nada. A outra coisa engraçada era a correspondência da mãe dela, minha bisavó, com os primos algarvios, entre os quais se contava o primo Teixeira Gomes. A letra perfeita, o humor com que escreviam, a forma versejada com que parodiavam os acontecimentos, era surpreendente. Só descobrimos aquela correspondência quando morreu. Agora não sei se foi a minha mãe que ficou com aquilo ou se foi o meu tio. Se foi ele, como já morreu, temo que tudo se tenha perdido. Os meus primos são completamente desligados dessas coisas. 

As memórias perdem-se. É um dos lados tristes da vida.

Um dos tios do meu marido tinha uma grande biblioteca. Percorria alfarrabistas. Tinha primeiras edições, edições raras. Protegia alguns livros com capas de papel vegetal. Era muito cioso de todos aqueles seus livros. Tudo bem arrumado. Primeiro morreu a mulher dele, depois ele, depois a irmã dela que morava com eles. Havia tantas coisas maravilhosas, acumuladas ao longo da vida por três pessoas com bom gosto, amantes da cultura. Decidiram que as coisas haveriam de ficar para os sobrinhos. O processo de 'desmanchar' aquela casa enorme, repleta de coisas, foi um castigo para todos. Por fim, estavam todos saturados, já aborrecidos uns com os outros porque andavam a ritmos diferentes e tenham interesses diferentes. Os livros foram separados a eito, por sacos, colecções separadas, sacos enormes, livros e mais livros. No meio da confusão final que foi aquilo, fins de semana enfiados naquela casa museu, já ninguém queria saber de mais nada senão livrar-se daquilo tudo. O que me custou ver o triste fim daquilo tudo. O meu marido acabou por nem ficar com livros nenhuns porque já nem conseguia pensar em voltar lá e os ânimos entre eles já estavam em ponto de rebuçado. 

Uma vida inteira que acaba assim, provocando impaciência nos que cá ficam. Pelo 25 de Abril esses tios saíam à rua, eram amantes da liberdade, da liberdade de expressão, falavam dos presos de Caxias, falavam da censura. Tinham livros que, antes, tinham sido proibidos. Não faço ideia do paradeiro desses livros.

Claro que isto não é coisa que se escreva.

Mas passa das duas da manhã e eu não consigo pensar, estou um bocado cansada.

Para além do mais, qualquer dia já nem faz sentido falar disto, parece tudo tão remoto, tão improvável. Torna-se, até, motivo de chacota para alguns, como se fossem episódios datados, vintage, coisa do canal Memória, histórias que já não interessam nem ao menino jesus.

Por isso, não vou escrever mais nada. Cansada como estou, não consigo perceber qual seria o tom certo para aqui escrever aluma coisa sobre o 25 de Abri.


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Mas que viva a liberdade. Sempre. E a democracia.

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3 comentários:

Anónimo disse...

Portugal, Um Retrato Social - Gente diferente (episódio 1) - https://www.youtube.com/watch?v=mZNdGlTn9XA

Portugal, Um Retrato Social - Ganhar o pão (episódio 2) - https://www.youtube.com/watch?v=GYKUH8ip6Co

Portugal, Um Retrato Social - Mudar de vida (episódio 3) - https://www.youtube.com/watch?v=pupomGcTSFU

Portugal, Um Retrato Social - Nós e os outros (episódio 4) - https://www.youtube.com/watch?v=hF-ykNnJg2M

Portugal, Um Retrato Social - Cidadãos (episódio 5) - https://www.youtube.com/watch?v=ZVZGvn8mFxg

Portugal, Um Retrato Social - Igualdade e conflito (episódio 6) - https://www.youtube.com/watch?v=yNdWrw3K_Io

Portugal, Um Retrato Social - Um país como os outros (episódio 7) - https://www.youtube.com/watch?v=Ex_Fx1WGjlE

Bob Marley

Fernando Ribeiro disse...

«(...) Quando não restarem nem os que fizeram a guerra do 'ultramar' nem os seus filhos se lembrarem do pouco que eles contaram, como explicar a estupidez de tal guerra e a estupidez dos que a impuseram?»

Não, cara UJM, os que fizeram a guerra do "ultramar" não contaram pouco [d]a estupidez de tal guerra e [d]a estupidez dos que a impuseram. O que eles fizeram, foi demorar muitos anos a ultrapassar a sua relutância e os seus traumas, para finalmente abordarem o assunto. Mas estão a fazê-lo (os que ainda estão vivos). O administrador de uma página de antigos combatentes no Facebook que compra tudo, mas mesmo tudo, o que se escreve sobre a guerra colonial, afirmou há tempos que já tem perto de 200 livros sobre o tema! A Âncora Editora tem vindo a dar a lume um número considerável de obras sobre o mesmo assunto. Na internet, o blog Luis Graça e Camaradas da Guiné é um colossal acervo de tudo o que diz respeito à guerra na Guiné ex Portuguesa. Infelizmente não há na net nada comparável para a guerra em Angola ou em Moçambique. Enfim, tardou, mas há muita gente a revelar o que viveu e o que sabe, antes que seja tarde de mais.

Eu não sou colecionador de livros sobre a guerra colonial e muito menos um entendido sobre o assunto. Por isso, não posso indicar-lhe este ou aquele livro. Mas há um livro que vale por todos os outros e que, esse sim, lhe recomendo vivamente: Antologia da Memória Poética da Guerra Colonial, de Margarida Calafate Ribeiro e Roberto Vecchi, publicada pela editora de um primo meu, a Afrontamento. É verdadeiramente impressionante a quantidade e a qualidade da poesia que à volta da guerra colonial se escreveu e continua a escrever. Por isso lhe digo que compre sem falta a Antologia da Memória Poética da Guerra Colonial. Aposto que não se vai arrepender.

Um Jeito Manso disse...

Bob Marley, Fernando Ribeiro,

Muito obrigada por aqui deixarem o caminho para as memórias de um tempo a que ninguém deve querer voltar.

Muito obrigada pelas recomendações que seguirei e que, espero, os meus Leitores também.

Obrigada.

Dias felizes!