Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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sábado, março 25, 2017

Como se seleccionam pessoas para um trabalho?
(Há receitas infalíveis? Se houver, por favor, digam-me)


Estou incapaz de ter o que dizer. Há na vida qualquer coisa de muito incompreensível. 




Por exemplo. Uma pessoa vive a vida inteira uma vida oca, frustrada. Desperdiça a vida, ocupando-a com insignificâncias que são exponenciadas a ponto de parecerem emergências. Por tanto se devotar a esses insanos labores, a pessoa espera reconhecimento. Como os outros acham absurda aquela devoção, não mostram o esperado reconhecimento. A pessoa sente-se, então, vítima de incompreensão, ainda mais frustrada. O tempo passa, a pessoa está na meia idade e praticamente não tem amigos, também se afastou da família. Nunca teve tempo para eles, a sua prioridade sempre foi outra. Entra em depressão -- que não reconhece pois acha que os problemas estão nos outros e não nela. E eu olho e fico com pena e admirada. Como é que pessoas assim não percebem que passa um ano e outro e outro e que, se olharem para trás, não verão nada, só vazio? Trabalham de manhã à noite e nada mais fazem na vida. No dia em que deixarem de trabalhar os outros respirarão de alívio porque uma pessoa assim é uma nuvem negra carregada de recriminações. E este é um caso real, igual a tantos assim. 

E outro. Uma pessoa escreve maravilhosamente. É culta. Tem graça. É ágil. Está a milhas de muitos outros cujos nomes inundam livrarias em livros que valem zero ou assinam crónicas regiamente pagas e que valem menos que um chavo. E, no entanto, quando tinha tudo para produzir obra de qualidade em nome próprio, esgota a sua arte e perícia em vacuidades ou em trabalho anónimo. Os anos passam, porque sempre passam, e um dia será tarde para tentar repôr a justiça para com os dons que possui. Também é um caso real.


Antes de sair, colega foi levar-me um dossier com candidaturas para eu, durante o fim de semana, dar uma vista de olhos a ver se algumas me interessam para se dar início ao processo de recrutamento. Muita gente, bons currículos. Há sempre, em mim, alguma angústia quando faço isto. Forçosamente ponho logo algumas de lado. Não é possível seguir com muita gente até escolher um, perder-se-ia muito tempo. No entanto, os CVs são muito parecidos. Procuro alguma coisa que revele alguma diferença, que chame a minha atenção. Mas não: formatos normalizados, informações sintetizadas, também praticamente normalizadas. A maior parte tem fotografia. Gosto quando estão a rir, gosto quando detecto descontracção ou simpatia. Fazem-me impressão os que se mostram completamente formais, circunspectos. No entanto, temo cometer injustiças. Já me parecem incompletos os que não têm fotografia. Procuro hobbies, actividades que não tenham a ver com a profissão. A maior parte omite isso.


Aparece-me um que parece muito bonito, atlético, brasileiro, CV bem estruturado. Quase me apetece pô-lo no topo da short list.
(Depois, ao ter esta ideia, penso que deve ser assim que os homens escolhem candidatas mulheres). 
E eu tenho aqui para cima de uma dúzia de candidaturas e, no entanto, apenas uma é de uma mulher. Aparece-me um que não diz a idade mas que, pela fotografia, imagino que ande acima dos cinquenta. Cursos que não acabam, bons cursos. Não sei quantas empresas por onde passou. Agora desempregado. Dá ideia que, ao longo da vida, não conseguiu perceber qual a sua vocação ou não conseguiu adaptar-se a nenhum dos trabalhos que teve. Ou, então, não teve sorte. Fico mais angustiada ainda. Ponho-o de lado? Estava a pensar em alguém novo, sangue novo, disruptivo. Custa-me muito isto. É a vida das pessoas nestas folhas que aqui tenho espalhadas ao meu lado, no sofá.

Depois de uma manhã um bocado complicada -- a altura das avaliações, quando levada a sério, pode ser um bocado desconfortável, especialmente se, do um dos lados lados, está alguém avesso a isso como é o meu caso -- e antes de uma tarde também agitada, breve pausa à hora de almoço. Fuga para lugar de eleição. Vontade de me sentar e ficar a ler. Vontade de folhear longamente. Sempre novidades. Ou talvez não, talvez apenas os meus olhos descubram coisas não vistas antes. Tenho aqui comigo junto aos CVs um belo livro. É pesado, muito texto, muitas poesias. Gosto da capa. Espreito uma e outra vez e agrada-me. Tem um CD que certamente vai acompanhar-me nas  deslocações pela cidade.

Quem enviou as suas candidaturas não sonha que a decisão está nas mãos de alguém que lê os livros que eu leio, que pensa como eu penso. 


No verão seleccionei um em que os que o entrevistaram, numa primeira triagem, estavam tentados a afastar dizendo-me que era um despassarado, se tinha perdido ao ir para lá, tinha chegado atrasado, tinha dado respostas 'ao lado', parecia estar um bocado noutra. Tocaram logo campainhas dentro de mim. Está lá agora a trabalhar. Uma pessoa incrível, incomum. Nada interessado num trabalho em horário normal. Aceitei. Fez ele o horário. Quis apenas uns meses. No outro dia, combinei que lhe propusessem um contrato de 1 ano, melhores condições. Para grande espanto de quem pensou ir dar-lhe uma boa notícia, não quis. Não quer prender-se. Todos espantados. Eu achei graça. Fui ter com ele: 'então, não quis assinar o contrato?'. Ele riu, que não, só até às férias, que não sabe o que vai fazer a seguir, que até pode ser que continue mas que agora não sabe. Fiquei contente. Mantém-se igual a si mesmo. Livre. Ainda bem. Privilégio é tê-lo connosco mesmo que neste regime completamente atípico. Nestas coisas acho que ser mulher faz alguma diferença. Aceito estas situações. Aliás: agradam-me.


O que me cansa, e cansa cada vez mais, são as pessoas completamente convencionais, que traçam regras restritivas para si próprias e para os outros, os que são moralistas e tentam moralizar a vida dos outros. Mas ao mesmo tempo sou muito exigente. Do descritivo das minhas funções, na parte comportamental, consta 'intolerância à mediocridade'. Neste ponto cumpro a 100%. Avessa à mediocridade e à mediania.
Como, de entre estas folhas que aqui tenho ao lado, descubro os que encaixarão bem naquilo que quero nas minhas equipas?
Como saber se, em cima do que sabem fazer profissionalmente, gostam de ler, se gostam da natureza, se é gente boa onda, se são generosos para com os colegas? 


Acho que, aos que pre-seleccionar, vou pedir que me digam o nome de um poeta, vou perguntar se sabem algum poema de cor. Vou pedir que me falem num músico que apreciem. Que me recomendem um passeio. Que mostrem que sabem que há vida para além do trabalho, que mostrem que gostam da profissão e que são capazes de se focar nela sem descurarem o que há para além dela.

E eu sou assim. Não gosto de sujeitar os candidatos a testes, a situações que excluam os que não são 'normalizados'. Conheço outros métodos completamente diferentes de seleccionar pessoas mas não estou certa de qual a maneira mais infalível.

A vida é uma coisa complicada. Não há consensos. A vida constrói-se. Mas há quem, por pouca sorte ou falta de jeito, mais pareça empenhado em destruí-la. Ou então é aquilo dos acasos. O ter a sorte de encontrar alguém que acredite em nós, que nos deixe usar as asas, que nos mostre que há muitas perspectivas, pode fazer a diferença. Mas encontrarmos essa pessoa é, na maior parte das vezes, puro acaso. Eu espero que quem trabalha nas minhas equipas ache que foi uma sorte ter-se cruzado comigo. Se calhar espero demais. Mas gostava.


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Um sábado feliz a quem me lê.

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6 comentários:

Anónimo disse...

Cada vez mais me convenço de que o pior, o pior é uma pessoa ser desagradável. No trato pessoal do dia a dia. Seja com os colegas, com o inferior hierárquico, com clientes, com o empregado de mesa ou o senhor dos correios. Tenho a sorte de trabalhar com pessoas impecáveis, com quem aprendo e que me tratam com consideração. Sei que a maioria dos meus colegas não tem essa sorte. Tanto os que acabaram o curso com médias altas, como os que tiveram médias mais fracas. Sobrecarregam-nos de trabalho, muitas vezes inútil (lembro-me de uma rapariga, a trabalhar numa das grandes sociedades de advogados, que contou terem-lhe pedido uma tradução de um artigo para inglês, mas afinal, o que precisavam era da tradução para francês. Depois de ela traduzir para francês, disseram-lhe que não era uma tradução de que precisavam, mas sim apenas de um resumo). Tenho uma colega que me contou estar a ficar com problemas de estômago por as suas refeições se terem desregulado completamente (não sabem se no dia seguinte têm tempo para almoçar, se saem do escritório a tempo de jantar em casa ou se devem levar algo que comer, etc.). Acho que tudo isto leva a que as pessoas andem mais desgastadas, mal-humoradas, desagradáveis e - como não veem os patrões?! - menos produtivas. É um ciclo vicioso: tanto a simpatia se pega, como a antipatia. Depois, há pessoas que são verdadeiros cancros. Sabichões, pessoas que passam a vida a falar de si próprias (os seus problemas, que acham que são mais importantes que os dos outros, os seus feitos, idem), e pedantes: são as mais insuportáveis para mim. E topam-se à distância: é pô-las a falar durante dois ou três minutos. Se for pedante, quase basta olhar para a cara e a voz também tem um tom especial(mente desagradável).

Bom fim de semana
JV

A Matéria dos Livros disse...

Querida UJM,

Aqui só um sorriso e, desconhecendo por completo o mundo empresarial e as suas equipas de trabalho, uma sugestão: pergunte pelos poetas e interesses, sim!

(Na Faculdade, há muitos anos, havia um professor que perguntava nas entrevistas aos estudantes a que distância ficava a galeria mais próxima, que música ouviam... Claro que muitos não compreendiam o interesse de tais questões para quem preparava futuros professores...)

Bom fim de semana!

Anónimo disse...
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Anónimo disse...
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Maria disse...

Então vamos lá aqui uma ajudinha :)

1. Aparece-me um que não diz a idade - se calhar esqueceu-se ou não acha relevante ou o computador comeu essa parte e ele nem deu conta

2. mas que, pela fotografia, imagino que ande acima dos cinquenta - Será a idade um fator determinante?

3. Cursos que não acabam, bons cursos. Não sei quantas empresas por onde passou. - E porque não ser uma pessoa multifacetada, com vários interesses e, portanto, ser capaz de ter uma visão, da coisa, transversal aos diversos saberes? Pessoalmente não gosto de empalados.

4. Agora desempregado. - infelizmente há muitos e alguns dos melhores porque o mérito continua a não ser critério de empregabilidade.

5. Dá ideia que, ao longo da vida, não conseguiu perceber qual a sua vocação ou não conseguiu adaptar-se a nenhum dos trabalhos que teve. - Ou se calhar por ser um desalinhado e pensar fora da caixa não cumpria os tais critérios de "certinho" que a grande maioria exige.

6. Ou então, não teve sorte. - Pessoas como as que descrevi em cima, normalmente não sabem ser cretinos e como tal não têm grande sorte. Como diz um amigo meu "o mérito pertence aos velhacos." Claro que há exceções mas sabe tão bem quanto eu, e já por aqui nos falou de algumas situações...

7. Fico mais angustiada ainda. Ponho-o de lado? - Não ponha. Quem sabe se nessa sua enorme plasticidade não lhe saberá dizer o nome de um poeta, quiça um poema ou um passeio a fazer.

Bom domingo
Beijos

GG

Fernando Ribeiro disse...

Sempre que nas entrevistas para um emprego me faziam perguntas sobre livros, filmes e outras coisas que tais, era certo e sabido: o emprego já estava antecipadamente reservado para alguém e queriam fazer de mim parvo. Foi sempre assim, sempre! Os Monty Python, pelo menos, usam métodos mais originais: https://youtu.be/zP0sqRMzkwo.