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sexta-feira, fevereiro 17, 2017

Dindinha afinal também é Fred


Com esforço, consegui almoçar numa esplanada à beira do rio. O tempo hoje esteve outro. Primaverou, aqueceu-se o ar, limpou-se o azul do céu.



Como não tinha companhia nem me apeteceu procurá-la, levei o livro que tinha no carro, 'Menina a caminho', escrita boa. Nestas condições, a minha vontade de preencher o tempo morto com leitura é contrariada pelo facto de me custar estar ao sol sem óculos escuros, especialmente junto ao rio em que a lâmina de água reflecte a luz do sol. Como acontece que sou levemente míope, os óculos são graduados para ver bem ao longe, o que significa que, com eles postos, fico a ver mal ao perto. E estava eu, justamente, a tentar gerir esta contradição quando me pareceu ouvir uma voz conhecida.

Olhei. Era um ruidoso grupo de jovens. Conversavam animadamente, riam, bebiam, fumavam, de vez em quando alguns fotografavam-se. Não reconheci ninguém. No entanto, de quando em vez, aquela voz familiar. Como, para conseguir ler, tinha optado por não usar os óculos escuros também não via com nitidez os rostos.

Passado um bocado, senti uma mão no ombro e alguém que se baixava para me beijar: ‘Prima… aqui?’ Era Dindinha.


Com uns jeans desbotados e meio rotos, com peitilho à jardineiro mas com uma alça caída, uma blusa larga, ténis, um boné com pala para trás e óculos escuros, estava quase irreconhecível. Lembrei-me, ‘Pois é… a tua escola até nem é muito longe daqui…’ Ela confirmou, acrescentando que, geralmente, este grupo de amigos ia para ali para discutirem os trabalhos, para falarem de cenas, para curtirem a paisagem. E disse: ‘Vem, prima, não esteja aí sozinha, junte-se a nós, venha’. Peguei nas minhas coisas e fui. Um rapaz apressou-se logo a ir buscar uma cadeira e a arranjar-me espaço à mesa.

E então, para minha surpresa, conheci uma outra Dindinha. Percebi que estavam a idealizar uma revista digital. Cada um ia dando ideias, umas muito à frente, outras muito terra a terra, outras banais. Dindinha parecia ter na mão o fio condutor da conversa e a autoridade, reconhecida pelos outros, para decidir quais as que valia apena aprofundar, quais as que deviam cair de imediato. O seu pragmatismo e assertividade deixaram-me atónita. Até a voz era outra. Julga-se conhecer muito bem uma pessoa e depois chega um dia em que percebemos que não conhecemos coisa nenhuma. 

Algum tempo depois, aproximou-se da mesa um homem magro, grisalho, barba, blusão, capacete no braço. Puxou de uma cadeira, sentou-se. Depois, reparando em mim, olhou-me com interrogação e de seguida para Dindinha que respondeu: ‘É aquela prima de que lhe falei’. Ele sorriu-me, ‘Ah, a célebre prima’. Mais admirada fiquei: ‘A minha fama precede-me, é…?’. Ela completou as apresentações: ‘Prima, é o professor Tomé. É também o responsável pelo departamento editorial da escola e está a acompanhar este projecto.’ Ele acrescentou ‘A Fred diz muitas vezes que a prima é que era, que devia ir buscá-la para gerir o projecto, para arranjar financiamentos, para negociar com fornecedores’. Fred? Então, na escola, ela é Fred? Mas limitei-me a dizer ‘Pois. Isso não sei. Mas, se for preciso alguma coisa, digam que não por importarei nada de ver se posso ser útil’. E a conversa entre os jovens prosseguiu, Dindinha impondo-se, o professor Tomé deixando uma ou outra achega. 

Passado um bocado, vendo as horas, reparei que era tarde, disse que tinha que me ir embora. Levantei-me. Dindinha levantou-se também, deu-me um beijo. Afável mas distante, outra. Já no carro, quando estava a preparar-me para arrancar, reparei que o professor também estava a preparar-se para arrancar. Dindinha estava junto a ele. E, para meu espanto, apesar da grande diferença de idades e de, até momentos antes, não ter reparado em qualquer interesse mútuo, vi que parecia haver ali alguma intimidade. Então, para ainda meu maior espanto, ele já com o capacete posto, ela debruçou-se e beijou-o na boca. Depois, com naturalidade, decidida, voltou para a mesa onde estavam os colegas. Não era Dindinha, era Fred. 

De tarde não pensei noutra coisa. Como pode alguém ser uma coisa e, noutro contexto, parecer completamente outra? E quem era aquele Tomé de quem ela nunca me tinha falado? 

Estava eu nisto, toca o telemóvel. Era ela. 'Prima. Posso passar mais logo na sua casa?'. Pareceu-me que estava a chorar. 'Dindinha, o que é isso? A chorar?'. Respondeu apenas: 'Passo depois de jantar'. E desligou o telefone.

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Sobre o lançamento da certamente suculenta obra do grande obrador Aníbal queiram, por favor, espreitar já aqui abaixo.

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