Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

quarta-feira, fevereiro 01, 2017

Desabafinhos
(alguns muito fúteis)





Se pensar que sou lida por pessoas desempregadas, com fracos rendimentos, por pessoas que passam por dificuldades, que vivem solidões severas ou situações assim fico um pouco tolhida. Tudo o que eu diga sobre a minha vida me parece fútil e descabido. Outras vezes penso: falo de trânsito, de trabalho absorvente e de coisas deste género e quem vive em lugares sem trânsito ou que sai de casa às nove e regressa às seis deve achar que a vida tal como a descrevo é descabida ou que exagero ou que tudo é voluntário pelo que não me queixe.

De certa forma é pois ninguém me obriga a nada. Mas são opções que se fazem e que, depois, acabam por se transformar na nossa forma de viver.

Vivo numa cidade. trabalho noutra. Para ir para o trabalho ou para regressar a casa uso carro. Podia não. Contudo, teria que usar vários meios de transporte para atingir o meu destino, perderia um empo infinito. Acresce que não trabalho num único local. Se não usasse carro, o tempo em espera, uso e mudança de transportes públicos impedi-lo-ia.

Depois, quando se trabalha em funções como a minha, não se pode dizer 'ah, isso não, já não tenho saco para ralações'. Confiam em nós, convidam-nos mas, no fundo, em certas situações, é como se nos estivesse a ser pedida ajuda. Não é possível dizer que se vão catar. Há a solidariedade, o dever, quase a obrigação.


Para quem está longe desta realidade pode não ser fácil de entender mas, para quem vive dentro destes meios, sabe que é assim.

E, com a elevada dose de responsabilidade, vêm as preocupações, vem a quase permanente disponibilidade. 

Claro que depois há também alguma recompensa. E, por vezes, com a recompensa, vêm outras pequenas maçadas. Maçadas de barriga cheia, bem sei.

E é ao pensar nestas pequenas maçadas que acho que talvez nem devesse falar delas aqui. Pode soar a futilidade, a estupidez. E não vou dizer que não seja. É, sei bem que sim. Mas se sou tudo menos perfeita, porque hei-de querer fazer-me passar por aquilo que não sou?

Mas... isto a propósito de quê?

Conto.


Dia do carro ir à revisão. Sempre um transtorno. Tinha que estar cedo. Não era eu que ia levar o carro, alguém faria isso por mim. Privilegiada, eu sei.

Mas o trânsito... Atrasada. Envio um sms: atrasada. Quando chego, entrego a chave. Peço que, depois, passem as cadeirinhas (que andam no banco de trás) para o carro de substituição. Entretanto, uma manhã de loucos. Às tantas, resolvo fazer um micro break. Ao ir buscar um chá, cruzo-me com quem me ia levar as chaves. diz-me o sítio onde está este carro. Pergunto se não se esqueceu as cadeirinhas. Que não, claro. Pergunto a marca. Tudo bem. Andei durante oito anos em carros dessa marca. Pergunto se é grande. De tarde vou para um sítio cujo acesso ao parque de estacionamento é um desafio: íngreme, estreito, com uma curva apertadíssima. Diz-me que é um monovolume, em dimensão menor que o meu. Descanso. E vou buscar o chá e logo mais afazeres. Nem mais me lembro do carro.

Hora de almoço, minutos contados. Chego ao carro. É alto, espaçoso. Espreito para ver se descubro a ranhura para enfiar o comando. Ranhura nenhuma. Penso. Gaita, está a começar bem. penso: será que isto tem para aqui uma chave oculta? Não descubro. Espreito para tentar ver se haveria ranhura para uma chave. Também não. E eu com pressa. Chego o banco para trás para ter uma visão mais panorâmica do tablier, para espreitar melhor. Nada. Penso: raios partam esta gaita. E não soube avisar-me que isto tinha truque...? Vejo um botão a dizer start ou coisa do género. Ponho o pé na embraiagem e carrego no botão. Nice. Começa a trabalhar. Procuro o travão de mão. Não existe, claro. Vejo um botão com um P, carrego. Apaga-se a luz. Penso que devia ser aquilo. Vejo como é a marcha-atrás, faço a manobra e aí vou eu. Chego à rua, começa a pingar. O limpa para-brisas começa a trabalhar sozinho. Normal. Entro na auto-estrada e desata a chover copiosamente. Quero pôr aquilo a limpar mais depressa. O manípulo tem mil funções. Lá consigo. Mas não consigo descobrir como pôr o de trás. Chove tanto que mal se vê e eu sem descobrir onde ligar o limpa pára-brisas de trás. Entretanto, o telefone não pára e não tenho bluetooth, não dá para atender.


Atrasada, lá chego ao meu destino. estaciono. Desligo o botão e o carro desliga-se. Quero travar. Carrego de novo no botão com o P. Nada. Não acende luz nenhuma. Espreito a ver se descubro alguma coisa que possa também parecer-se com um travão. Não. Carrego outra vez. Nada. Penso: se calhar é assim mesmo, é inteligente e percebe que deve ficar travado. Vou sair. Procuro no banco o comando. Lá está no meio da echarpe e da carteira.

Saio do carro com o comeando na mão. Um botão tem o sinal de porta aberta, outro o de porta-bagagens aberto. Penso: raios partam isto, e para fechar? Experimento carregar no símbolo da marca. As portas trancam-se. Vá lá. Quando chego ao pé da minha companhia digo que não percebi se o carro ficou travado, que não se acendeu nenhuma luz quando carreguei no botão. Disse-me que no dele levanta-se uma patilha. Neste não, disse eu, neste é um botão.

Quando regressei ao carro, espreitei o dito botão. Tinha mesmo uma patilha por baixo. Levantei-a e acendeu-se a luz. Ou seja, tinha deixado o carro destravado. Bonito serviço, pensei. Vá lá que não desandou.


Quando saí, chuva que deus a dava. Pus-me a apalpar o manípulo e lá lhe dei uma torção na ponta que pôs a funcionar o limpa pára-brisas de trás. 

Depois o tal estacionamento. Perguntei ao guarda se o piso intermédio estava folgado. Disse que naquela altura sim mas que ia haver uma reunião, estavam pessoas para chegar. Gaita. Lá fui para o meu piso a pensar que só me faltava riscar o raio do carro. Mas a verdade é que foi bem mais fácil do que com o meu.

Quando agora à noite saí com o carro pensei: diabo daquela curva, será que o carro tem sensores a toda a volta? Tinha. Correu bem.

Não consegui fazer telefonemas à vinda mas consegui sintonizar a rádio e ouvir uma música boa.


Mas vinha a pensar que já não é a primeira vez que me meto num carro desconhecido, sem perceber como funcionam as coisas mais simples, e, para ajudar à festa, desata a chover. De facto, para aí há uns três anos, peguei num à noite, numa noite de chuvada, e foi o bom e o bonito. Tudo naquele carro era misterioso, não descobria nada. Quando finalmente me meti à estrada, de noite e a chover, não atinava com nada daquilo, um susto, a andar devagarinho, o vidro embaciado e eu a pensar, aquilo que tantas vezes penso, que não há dinheiro que pague situações assim. Mas, quando tenho esses pensamentos parvos, logo percebo que é uma estupidez estar a vitimizar-me e que mais vale que, numa próxima, antes de me meter no carro, peça algumas informações.

Amanhã entrego este e hão-de trazer-me o meu. Vou sentir aquela sensação boa de conhecer os cantos à casa. 

Agora ouvi um toque. Tinha andado há bocado à procura do telemóvel e não o tinha descoberto. Afinal estava caído aqui ao pé do sofá. Espreitei os mails de serviço. Um deles tinha a acta da reunião em que estive toda a tarde. Como tenho cá os meninos tinha logo avisado que não podia sair a desoras. estava à espera de algum momento de mudança de assunto para me levantar. Nada. Assunto pegado. Mas já passava das sete, tive que me levantar à papo-seco. Vejo agora pela hora de envio do mail e pelos assuntos que deve ter acabado pouco depois. 


É tarde. Amanhã a alvorada é cedo, vamos levar os meninos à escola. dormem tranquilos nas suas caminhas. Antes de adormecerem, estivemos a jogar ao jogo da glória mas numa versão sintética. ele tenta fazer batota, a irmã denuncia-o, ele desata a rir. 

Tenho estado a ouvir June Tabor. Gosto muito dela. Para partilhar convosco escolhi Send us a quiet night. Espero que gostem.

Agora que estão a ler-me se calhar já é de dia. Tomara que seja um dia bom, tranquilo. Para mim e também para vocês que estão a ler estas minhas palavras sem grande sentido. 


As imagens são fotografias feitas por drones. Estas concorreram e algumas foram premiadas no SkyPixel 2016 Photo Contest's. Vi-as no Bored Panda. Descobir imagens como estas, algumas tão belas (a primeira é de uma beleza extraordinária, não é?), ouvir uma música boa, estar aqui a escrever  -- são partes boas da minha vida.


¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

Abaixo tenho mais umas cenas do Trump. Vejam porque só vendo. De outra forma fica difícil crer.
¨

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

Sem comentários: