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terça-feira, janeiro 24, 2017

O guardador de neve.
[E a gestão por objectivos]




Onde eu trabalho, tal como em todas as grandes empresas, trabalha-se 'por objectivos'. 

Todos os anos, cada pessoa recebe os seus objectivos e se tiver pessoas a trablhar consigo, terá que os desdobrar, atribuindo-lhes também objectivos. Devem ser mensuráveis.

Há também uma componente comportamental. Consoante o nível hierárquico em que se está, assim a exigência em relação a alguns aspectos, aumenta ou diminui.

Em paralelo existe o momento da avaliação. Cada pessoa tem uma reunião com o seu superior hierárquico e ele transmite como nos avalia; e quem tem subordinados tem que fazer o mesmo.

Isto é assim desde há anos.


Já mudei de funções, de empresa, de local de trabalho -- mas isto mantém-se.

Já apareceram também consultores de toda a espécie e feitio para, a mando da administração, conceber a melhor metodologia por forma a que os objectivos melhor espelhem os desígnios da empresa e a que a valiação seja a mais rigorosa possível.

Contudo, como já aqui o disse muitas vezes, para mim isto é uma treta sem sentido, sem valor acrescentado, uma gaita que dá trabalho e chateia. 

Em muitos anos disto, nunca vi que a gestão tenha melhorado um niquinho que seja por usarmos estes métodos.


Escusado será dizer que o custo disto não é só o trabalho que nos ocupa (quando poderíamos empregá-lo de forma mais produtiva), nem o gasto com consultores, mas também o custo com 'ferramentas'. É que para suportar esta coisa já ninguém está para métodos arcaicos e, portanto, vá de inventar sistemas informáticos artilhados, que dão uma trabalheira a alimentar. Claro que, também aqui, estou em contra-corrente.

Para avaliar os meus subordinados não preciso de coisas sofisticadas, uma folha de papel e um lápis chegam. Tu não fizeste o que devias ou gostas de te armar em estrela quando eu quero é gente que saiba trabalhar em equipa. Portanto, numa escala de 1 a 5, levas 3 e é uma sorte. Coisa assim, nesta base.

Levar isto da avaliação a sério enjoa-me. Gente que se acha um ás da gestão, que tudo é por objectivos, que são os maiores da cantareira, como se soubessem como gerir de agora até ao fim dos tempos, e, afinal, eles próprios, perecíveis. Morrem como todos os outros. Lembro-me de os ouvir a destilar grandes lições de boa gestão e de como eram feras a apontar e controlar objectivos. Depois ouve-se a notícia: morreram.


A verdadeira gestão das empresas (ou do que quer que seja) anda a milhas disso. E, no entanto, embora apregoe aos sete ventos que não ligo a essas tretas, que acho que é contraproducente e que deveriam era deixar as pessoas em paz, ninguém me liga a mim.

A boa gestão é uma gestão conhecedora, inteligente, arrojada, próxima, em que há liderança e reconhecimento, em que os objectivos se seguem em equipa e se vão adaptando à medida das circunstâncias. Não é nada destas macacadas.

Não tarda nada estou a ser massacrada com isto e, enquanto me censuram por ser uma eterna desalinhada, marcam-me datas limites para cumprir com o planeamento da coisa.

Acho que parte do lucro das empresas deve ser distribuído pelos colaboradores e que deve ser distribúido de forma justa mas lá está. Tenho aqui cem. Tu que foste impecável, levas 20, tu que andaste a chatear a cabeça a toda a gente mas ainda assim fizeste algumas coisas de jeito, levas 5, tu que és um boa onda mas te esforças pouco também levas 5. E assim sucessivamente. Sem espinhas.

Mas isto foi moda que se arreigou dentro das empresas e não há maneira de sair de lá.

Além disso, também pode muito bem acontecer que eu esteja completamente errada. Pode ser.

Mas duvido.


Vi agora um vídeo da National Geographic que me encheu de admiração (e de alguma inveja). Uma história fabulosa.

The Snow Guardian


Welcome to Gothic, Colorado—one of the coldest places in the United States. This ghost town has been abandoned since the 1920s, but there is at least one person who still calls it home. For more than 40 years, current resident billy barr has lived in a small cabin, recording data about the snowpack to pass the time. In this short film, Morgan Heim of Day’s Edge Productions profiles the legendary local who inadvertently provided scientists with a treasure trove of climate change data.

He Spent 40 Years Alone in the Woods, and Now Scientists Love Him 



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Como billy barr (com minúsculas) deve ser feliz, tão longe destas tretas da gestão eficiente, tão perto da verdade da natureza.

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Traduzi The Snow Guardian por 'guardador de neve' quando talvez fosse preferível 'o guardião da neve'. Mas 'guardador' soa-me melhor e acho que se adapta melhor ao conceito de vida de bill.

Apeteceu-me ter aqui este trecho da banda sonora de Paris, Texas e fotografias de bichos raros e transparentes e de uma flor identicamente transparente por um qualquer motivo que agora não estou bem a ver (ou melhor, não me apetece dissertar a esse respeito)

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E queiram descer, por favor, para constatarem até que ponto Trump é um balelas metido a besta e agora eleito para presidente dos Estados Unidos. Vejam e digam-se se não é de loucos.


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1 comentário:

bea disse...

O bem estar de uns não é o bem estar de outros. Mas a vida de Billy dentro dos condicionalismos atmosféricos, parece-me bem estudada e medida. Tem uma boa casa que acredito seja acolhedora com tanta lenha, filmes, livros, provavelmente música. Entretém-se a medir e estudar a neve e mais não sei quê que não entendi. Tem comida de sobra que vem de supermercados ou semelhante. Criou um ambiente hospitaleiro quando em volta tudo é inóspito. Mas, se quando for rachar lenha partir, por exemplo, uma perna quem lhe acode? Por outro lado, se não existissem as tais empresas, seria impossível ter aquele ninho confortável. E no entanto entendo o seu direito - quem sabe seja necessidade - à solidão.

Nunca trabalhei numa empresa e quando o meu trabalho se encaminhou nesse sentido fez-me alguma confusão. Mas quem gosta do que faz, se pode fazê-lo, não se atemoriza com objectivos. A avaliação é um ponto sensível, mas necessário a nível empresarial, suponho eu.

As fotos são lindas. Mas seres transparentes ficam muito desprotegidos. E no entanto são tão bonitos. Todos eles, das flores aos peixes.