Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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segunda-feira, janeiro 09, 2017

A Gorda e El amor brujo
-- e tanta gente dormindo ao relento nesta noite tão fria





Dormi. Gosto de sentir o sono a chegar. Depois fiquei a meio caminho, não a dormir mas incapaz de acordar. Mais tarde, já acordada, peguei na Gorda e vim de gosto, com ela ao colo, sabendo das suas histórias. As suas mamas são grandes e pesadas, o seu cabelo é fino, a sua vida não tem sido fácil. Talvez se não tivesse sido gorda a sua vida tivesse sido diferente -- mas isso é coisa que nunca se saberá. 

Não sei o que vê ela no David. Um fraco. Ela cheia de convicções, com uma cabeça cheia de vontades e com uma sensualidade que se apanha à mão e ele tão hesitante, tão rente à normalidade. Mas, bem sei, são coisas que não obedecem a um manual. Há paixões que nascem sabe-se lá como, instalam-se quando juraríamos que não teriam terreno fértil, e, mesmo quando sujeitas a rudes golpes, deixam-se ficar, parece que adormecem, que se esfumam. Mas não, renascem ao mínimo novo sopro. Renascem sempre com igual força, ignorando mágoas passadas, escamoteando improbabilidades futuras. Paixões à rédea solta são bicho quase impossível de domar. Sei disso. E a Gorda que o diga. Toma decisões, põe-nas em prática, percorre caminhos envolta noutros braços, dá o corpo à tentativa de maternidade, ousa, luta. Contudo, é a esperança de voltar a ter o seu David que lhe dá razão para continuar a viver.

Mas a Gorda não é apenas a mulher que procura uma vida normal. É também a jovem que percorre colégios, a casa da avó, de tias e primas, é a mulher que carrega o peso de uns pais que transportam uma vida que deixaram para trás, é a filha única, sem mais família e com as posses limitadas de uma professora, que arca com o peso do envelhecimento dos pais, é a mulher que um dia resolve desfazer-se de parte do estômago, perder quarenta quilos, voltar a ter formas de mulher.

Bonita, com uns belos olhos, uma boca bem desenhada, formas acolhedoras, a Gorda não nos esconde os seus sentimentos, os seus cansaços, a sua vontade de liberdade e o seu medo de solidão.

Eu, que gosto da grande literatura, não posso dizer que encontre ali construções verbais que me deixem em estado de encantamento. Mas encontro aquela escrita muito bem cerzida, de uma honestidade desarmante, que prende do princípio ao fim, como se a pele, a respiração e o sangue da mulher que a escreve estivessem inteiros ali. Talvez se sinta ali um livro de memórias, um diário, um registo confessional, íntimo, -- ou talvez desperte em nós vontade de que ela, a Gorda bonita, seja feliz. Ou tudo isto misturado na dose certa.

(Um dia ainda perco a vergonha e vou mesmo pedir-lhe um pratinho de marmelada).


Não apenas gosto muito de ler o que Isabela Figueiredo escreve como acho que deve ser uma boa pessoa, uma mulher muito genuína. E A Gorda é, sem dúvida, um livro a não perder. Aqui fica, pois, a minha recomendação.


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Depois saímos e estava muito frio. Voltei atrás para vestir um casaco mais forte, para pôr uma écharpe de lã. E levei o meu chapéu de feltro castanho claro com uma fita em ouro velho que a minha filha me ofereceu pelo natal. Assim, já o frio sabe bem. Passeámos no meio de multidões sorridentes, faladoras, perfumadas.

Pelo meio, omnipresentes, pares de polícias. Por todo o lado também carrinhas da polícia. De vez em quando, sobrevoando-nos, um helicóptero. Por vezes o ruidoso bicho voador pára, fica ali, ameaçador. Ninguém estranha. Só nós não percebemos o que se passa. Depois, acabamos por deixar de prestar atenção a isso, talvez seja esta a nova forma da normalidade.

Já quase não há iluminações de natal. As gigantes árvores de natal luminosas estão apagadas. Mas a festa parece continuar.

Jantámos numa esplanada, num praça muito bonita. Os aquecedores de rua, os candeeiros, a forma como as mesas estão dispostas, tudo contribui para que seja muito agradável.

A cerveja gelada soube muito bem e o resto também.

Quando estávamos quase a acabar o bom jantar, reparei que, mais lá à frente, se estava a formar uma fila de gente. Gente ruidosa. Muitos. Dezenas. Intrigada, sem conseguir perceber, peguei na máquina fotográfica e dei-lhe zoom. Pareceu-me que eram os sem-abrigo que dormem nas caixas de cartão do outro lado que estavam a ir buscar comida. Via-os com sacos e caixas. Uma meia hora depois a fila foi-se desfazendo. Quando acabámos de jantar, passámos relativamente perto das arcadas do outro lado. Dezenas de pessoas. Muitas a enfiarem-se nos abrigos feitos de cartão. Mais à frente, em cima de canteiros em largos movimentados, edredons, mantas, cartões. Mais gente a dormir ao relento. Sempre os houve mas multiplicaram-se desde a última vez em que por aqui andámos.

As outras pessoas passam ou estão sentadas por ali, ignorando-os, como se aquelas pobres pessoas sem casa fizesse parte da paisagem.

Este mundo está a andar às arrecuas. Não consigo aceitar isto sem que se me gelem as minhas impotentes mãos.

Mas faço por não pensar nisto. Enquanto por aqui ando, estes meus pensamentos são fúteis, inúteis. Esqueço-os.


Muito frio. Apesar do que se vê por todo o lado, é agradável andar a passear à noite, sentindo o frio. O meu marido tira do bolso um gorro. Com a gola subida e o gorro enterrado fica muito bem, gosto de o ver assim. Tem um ar quase subversivo que me agrada. 

Depois penso que um chocolate quente é que era. Ele não quer, não aprecia coisas doces. Compramos, então, só para mim. A empregada da loja pergunta que mais. Digo que é só o chocolate e ela admira-se. Venho então pela rua, encasacada, com o meu chapéu de feltro quentinho, com um copo de chocolate espesso, bem quente. E sabe-me tão bem. Bebo-o aos golinhos gulosos, devagar, porque está muito quente e para que renda mais.


Mais à frente, os donos desta livraria de rua, meio alfarrabista, recolhem, com vagar, as mesas com livros. Parecem não sentir o frio.

Logo a seguir alinham-se cabeleiras coloridas. Se calhar é porque um dia destes vai ser, outra vez, carnaval. Tenho sempre vontade de trazer uma. Já, noutras vezes, estive para trazer uma. Aliás, já uma vez trouxe uma cabeleira ruiva, ondulada, comprida. Mas é quase normal, não fora tão avermelhada e tão brilhante e quase pareceria cabelo de verdade. Não dá pica usá-la.

São as lilases ou azuis turquesas que mais me atraem. Talvez seja desta. O meu marido vai achar um disparate. Claro que é um disparate. Mas há coisa mais disparatada do que nunca fazer disparates?


Depois, já tarde, regressámos. Não sei de notícias. Presumo que as televisões continuem a recordar Soares e fazem bem. Também acho bem que se fale dele com alegria, a rir, recordando a sua valentia descarada, a sua capacidade de ver para além do imediato, a formidável displicência que vinha da sua absoluta confiança na sua intuição e na sua alegria de ir experientando as surpresas da vida.

Tirando isto não sei que mais diga. Vou ver se espreito os jornais online a ver o que aconteceu no mundo. E vou ver os blogues aqui ao lado onde há gente que escreve tão bem e sobre temas tão interessantes.

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Talvez até já.

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5 comentários:

bea disse...

A JM tem que estar noutro país que por cá são as 10,11 e publicou às 10,40. Ou estarei respondendo antes da publicação mas já a lê-la, o que tem o seu interesse:)

Não li A Gorda e não sei se vou ler. Mas, hoje, neste momento, estou a julgar que numa oportunidade que surja, compro. Até por haver outras boas críticas. Mas primeiro tenho que ler um bocadinho a ver se me agrada que com novos autores (os que nunca comprei) sou cautelosa.

Quanto a Mário Soares: Portugal tem uma dívida eterna para com o homem e o político. Mas é iniludível que o que fez o fez com alegria, cheio de energia e de vontade de fazer: por gosto. Morreu velho e só lamento que o não tivessem deixado partir mais cedo para junto da sua Maria de Jesus sem a qual, como dizia, a vida seria outra coisa (presumo que queria dizer muito pior). E para quem não acredita na vida eterna, rumou em direcção ao nada onde a acompanha na mesma. Homenageio o senhor sem tristeza, ele deu-se à vida com alma, fez muito, foi e continuará sendo muito amado, tem os seus ódios de estimação como também compete. Não me parece que algo falte no seu exuberante e astucioso cardápio. Mas que foi muito bom tê-lo no meu tempo, isso foi.

Um dia também vou experimentar perucas, acho que me diverte. Mas não de carnaval. Das verdadeiras ou quase. A imaginar-me outra pessoa. Quem sabe faço uma loura de jeito. Ou uma ruiva. Ou uma velhota branqueada(cabelo azul ou roxo é que não). Uma ruiva aos caracóis a desmanchar... logo se vê.

Bons passeios

P. disse...

Ouvi outro dia, na semana passada, na Antena 2, uma pequena entrevista com ele, exactamente sobre esse seu livro, “A Gorda”. Gostei da sua voz, da boa disposição com que falou. Quanto ao livro, vou folheá-lo um dia destes numa livraria e depois decido-me.
Quanto a Soares, ainda uma pequena nota de rodapé: Freitas do Amaral contou, no dia em que MS faleceu, num canal qualquer da TV, que Mário Soares, depois de ter vencido aquelas eleições que disputou com ele, não me recordo se num dia a seguir, se após ter tomado posse como PR, lhe enviou um enorme ramo de flores, com umas palavras amigas para ele, Freitas e sua mulher, Maria José (a Maria Roma dos livros que escreveu), acto que muito os sensibilizou. Soares era, entre muitas outras coisas, um cavalheiro, um Senhor! Quem teria sido capaz de idêntico gesto? Outro aspecto que retirei daquela sua entrevista à Fátima Campos Ferreira (uma extraordinária entrevista), foram as observações que fez, pelo menos em duas ou três ocasiões, sobre uma ou outra mulher que o contactou, sobre as respectivas belezas delas, como por exemplo aquela jovem que o esperava no aeroporto em Paris a fim de o levar até ao Eliseu, para almoçar com o recém-eleito PR, François Mitterrand, que o convidava a ele e Maria de Jesus. Soares foi sempre um apreciador do Belo Sexo (a UJM que o diga, quando nos revelou aquela situação de o ter surpreendido a olhar para trás, para si – e olhe que um homem só se decide por essa “ousada” atitude se a mulher for de facto atraente. Será o seu caso, se me é permitido o “piropo” (dá direito a multa pela polícia municipal?)
P.Rufino

Um Jeito Manso disse...

Alô, alô bea,

Bea,

Às tantas ando com os relógios assarapantados. Por acaso até é mesmo verdade. O meu relógio tem o ponteiro dos minutos certo. O das horas é que anda sempre desatinado. Mas eu já aprend a orientar-me assim.

E vai ver que vai gostar de ler A gorda. è um bom livro.

E olhe, bea, por aqui cabeleiras normais não há. Só das escandalosas, mesmo. O meu marido sugeriu que eu experimentasse levar uma em castanho escuro ou preto. nep. Nada disso. Turquesas, Pink,lilases, laranjas, coisas assim.

Um Jeito Manso disse...

Olá P. Rufino.

Praticamente não tenho visto televisão mas, quando vejo, emociono-me. Há um momento em que nos confrontamos com o fim físico mesmo daqueles que parecem estar acima disso.

E sim, é verdade, Mário Soares tinha fama de gostar de olhar para mulheres. E isso só abonava a a favor dele pois as mulheres são um milagre da natureza -- lamento mas mais do que os homens... -:)



Anónimo disse...

Concordo com esse seu comentário, de facto, as mulheres são um milagre da natureza. O único em que acredito e a quem dedico a minha maior admiração.
Boa semana!
P.Rufino