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sexta-feira, dezembro 09, 2016

O sereno devenir in heaven




Esta quinta-feira deveria ser o Dia da Mãe. Durante anos pensei que dia 8 de Dezembro era dia feriado por ser Dia da Mãe. Isto antes de mercantilizarem o dia da mãe. Afinal é por ser dia da Imaculada Conceição -- fui agora confirmar.

Andei parte do dia a sentir que era sábado. Depois lembrei-me que não. Dia de Nossa Senhora. Lembrei-me das Anunciações da Maria Teresa Horta. O melhor livro do ano. Mais plausível a jovem Maria de Maria Teresa Horta que as outras histórias da catequese. Desliguei-me de vez dos ensinamentos católicos quando, aos oito anos, projectaram um filme lá na nossa escola. Era a história da perseguição brutal a Cristo, toda a violência que culminou na cruz. Depois a ressurreição. Lembro-me que pensei que nada daquilo tinha jeito, nem a história nem estarem a mostrar aquilo a nós, crianças pequenas.


Era uma escola particular, muito protegida. A catequese era quase uma actividade curricular. Íamos à catequese e eu detestava, tudo aquilo me passava ao lado. Não havia racionalidade nem beleza naquelas histórias. E a ideia do pecado sempre muito presente. E a confissão. Um absurdo. Eu, que tinha tanta facilidade em aprender, não fixava nada daquilo, nada daquilo me interessava. Lembro-me que às vezes a minha mãe me perguntava o que tinha aprendido e eu não fazia nem ideia. A algumas pessoas deve acontecer isso em relação à matemática ou à física. A mim era com a catequese.

E nem consigo lembrar-me de quem era a catequista. Nem me lembro se a catequista ia à escola ou se éramos nós que íamos à capela. Varreu-se-me tudo. Só me lembro que aquilo era, para mim, um castigo.

Fiz a primeira comunhão e a comunhão solene. Mas, no meu íntimo, sabia que aquilo era uma coisa que me era completamente alheia. 

Nunca gostei de ir à missa, nunca senti que pertencesse àquele mundo. Apenas me lembro, e com agrado, do cheiro a rosinhas de Maio por alturas da minha primeira comunhão ou, no ano antes, em que fui de anjinho na procissão.
Já o contei e até já tive vontade de mostrar: a fotografia em que estou assim de branco, vestido até aos pés, grandes asas, uma fita com flores brancas a segurar o cabelo comprido que ondulava ao sol e eu a rir, feliz, é talvez das minhas fotografias preferidas. 
Gostava do cheiro das flores e dos cânticos, a Capela do Bairro iluminada, toda florida, jarras com grandes ramos de gipsofilas e rosinhas brancas, o sol a entrar, coado pelos vitrais, e as pessoas a cantarem. Disso eu gostava.


Do resto não. Esqueci tudo. Nada sei de evangelhos, de histórias biblícas. Nada. A igreja católica, com os seus métodos, destruíu qualquer possibilidade de eu me alguma vez me tornar devota ou fiel. Na escola e, mais tarde, no liceu ou na universidade, o meu santo nunca cruzou com os santos de gente beata, sempre todos muito apertadinhos, muito cheios de nove horas, gente que sempre me pareceu sem rasgo, sem visão, sem condescendência ou generosidade.

Os anos foram passando e fui continuando a conhecer gente ligada à igreja. Muitos têm tentado puxar por mim, acham que tenho uma alma religiosa. Não sei se tenho, se não. Mas, se não consigo alinhar-me em nada, muito menos poderia alinhar-me numa coisa tão pessoal. Uma pessoa quando se filia num movimento desapessoa-se, perde liberdade e eu perder a minha liberdade é deixar de ser eu. 

Mas vem a isto a propósito de esta sexta feira ter sido feriado religioso, dia de Nossa Senhora mas, se bem percebo, não por ter sido uma corajosa mãe de um filho rebelde, que perdeu a vida por uma nobre causa, mas por, supostamente, ter engravidado por obra e graça. Se fosse pela verdade histórica eu talvez desse importância ao dia. Mas tirar a humanidade a Maria, fazê-la mãe virgem (talvez por se pretender associar o acto sexual a um acto reprovável), isso a mim não me diz nada. Mas, seja como for, é boa ideia ser dia feriado e eu não sou esquisita quanto aos motivos.


Hoje o dia, como já mostrei, foi passado in heaven. Dia tranquilíssimo, sem televisão, sem notícias. É certo que agora à noite estive a escolher as fotografias pré-selecionadas, uma a uma, a marcar quantas de cada para depois a dar a este, àquele e ao outro. Ao todo, as impressões ultrapassam as setecentas. Concordo: se calhar exagero mesmo. Mas, poderia escolher só uma dúzia, por exemplo, seleccionando apenas de entre as dos dois últimos meses? Se calhar, faria mais sentido. O problema é que não sei ser moderada.

Em algumas entrevistas de emprego, o entrevistador pergunta: qual o seu principal defeito? Geralmente, os candidatos, que já sabem que esta pergunta é um must a que dificilmente escaparão, já levam a resposta engatilhada. Dizem que é a teimosia pois sabem que, numa certa perspectiva, isso pode ser uma qualidade. Se eu entrevisto pessoas não pergunto nada disso, quero é perceber como é a pessoa, se é boa onda, se tem vida própria, se vai trabalhar bem em equipa. A última coisa que quero é um cromo, um obcecado, um chato.

Se a mim alguma vez me tivessem feito essa pergunta, eu seria sincera: que tenho muitos defeitos, todos difíceis de controlar e que um deles é ser imoderada. Certamente não seria seleccionada. Ou, com um bocado de sorte, o entrevistador perceberia que ser-se imoderada, também numa certa perspectiva, pode ter algumas vantagens. Agora ia escrever 'por exemplo' mas estaquei, não consigo lembrar-me de nenhuma. Mas tem vantagens, tenho a certeza que sim.


Bem.

Acho que, quando comecei a escrever isto, tinha alguma em mente. Mas pus-me para aqui a ouvir música, a divagar, e perdi o rumo à conversa.

Talvez quisesse apenas dizer que, depois de andar a passear pelo campo e a fotografar os cogumelos que rebentam por todo o lado e o orvalho e as belas cores de outono e o musgo no chão e a rocha húmida, negra, vim para casa. A salamandra a aquecer a casa, o cheiro bom do azinho, as cores quentes da casa. Quando cheguei levava uma echarpe de lã que a minha mãe me deu mas depois, com o calorzinho bom, tirei-a.

Continuei a ler A Gorda. Há uma humanidade sem filtros que nos aproxima da autora. Ao contrário de Elena Ferrante que esconde a identidade para que a obra seja independente de quem a escreve, Isabela Figueiredo coloca-se inteira nos livros que escreve.


É muito bom estar enovelada, aninhada, em paz, a ler, sentindo o tempo a correr devagar. O lento devir.


À noite, fomos comer um gelado. Gosto sempre de comer gelados mas, não sei porquê, ainda mais no tempo frio. Comi um cone de chocolate fondant. Soube-me muito bem. Ia à procura de chocolate negro com laranja mas não havia. Uma vez comi um gelado de uma fruta de que nunca tinha ouvido o nome e que me disseram ser umas laranjinhas pequeninas. Era mesmo bom. Nunca mais lá apanhei desse. Também nunca mais me consegui lembrar do nome.

E agora acho que está na hora de vos deixar em paz que isto vai longuíssimo. Parece-me que é noite de sábado mas, afinal, o dia que se segue é de trabalho. Felizmente é sexta-feira. E eu ando com uma vontade de passear... Saio do trabalho à noite, vejo as luzes da cidade, tendinhas a vender não sei o quê, movimento nas ruas, e só me apetece largar o carro e pôr-me a pé, misturada com quem passa, com quem não tem pressa de chegar a casa, e pôr-me a fotografar, eu feita turista acidental. Tomara poder tirar uns dias de férias e ir à descoberta de um lugar qualquer. Estou mesmo a precisar.

E já estava outra vez a divagar, credo. Peço desculpa por esta seca que vos dei. Só visto.

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As fotografias foram feitas in heaven
Lavinia Meijer interpreta Divenire de Ludovico Einaudi. 

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3 comentários:

bea disse...

A JM bem sabe que dantes o dia 8 de Dezembro era dia da Mãe e de Nossa Senhora. E também sabe que, apesar de toda a movimentação da igreja, os filhos todos, desta vida e da outra, pensavam nas sua mães. E por certo Cristo pensava na dEle.

Pois...ser religioso não tem assim tanto a ver com seguir práticas instituídas, sejam elas quais forem. Pode ser-se profundamente religioso sem as seguir. A JM estará neste grupo.

É bom saber que o seu advento, à parte o trabalho que é muito - o que até pode ser salutar -, decorre in heaven e no quente.

Tenha um bom sábado (ainda que hoje só seja sexta). Agora a sério, pra valer, que ter um sábado à quinta feira é encurtar demais a semana.

Corvo Negro disse...

"... Tomara poder tirar uns dias de férias e ir à descoberta de um lugar qualquer. Estou mesmo a precisar."

Pois aproveite e.... , se ainda não conhece, recomendo-lhe este. Daquilo que "conheço" de si deste Blogue, vai bem com a sua personalidade e com os seus gostos. Acresce que tem nos arredores outros locais de sonho para visitar (Avô, Piódão, Serra do Açor, Fraga da Pena, Coja e o "Lagar"... etc.). Obrigado pelos seus textos.

http://www.quintadageia.com/pt/

CV

Um Jeito Manso disse...

Olá Corvo Negro,

É mesmo para lugares assim que está a apetecer-me ir. Já transcrevi a sua recomendação (hotel incluído) para lá ir logo que possa.

Provavelmente só daqui por mês e picos é que conseguirei tirar férias mas 'guardado está o bocado para quem o há-de comer'....

Muito obrigada!