Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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domingo, dezembro 04, 2016

Escolhas possíveis, impossíveis





Nunca li ou vi o Harry Potter. Não li ou vi a Guerra dos Tronos. Não li os contos da Condessa de Ségur. Há muito tempo que não leio nada da Isabel Allende. Nunca li nenhum livro da Margarida Rebelo Pinto ou do Valter Hugo Mãe. Não aprecio banda desenhada. 

Nunca entrei num Starbucks. Não tenho Facebook ou Instagram. Não tenho conta de Linkedin. Não conheço os blogues mais vistos do país. Não sou seguidora-inscrita de nenhum blogue.

Não tenho ídolos. Se tivesse que escolher o político português da actualidade que mais admiro ficaria bloqueada. Admiro medianamente um ou outro mas nada que me faça ser sua cega apoiante. Ando um bocado espantada com o Marcelo, lá isso ando, mas calma aí. Internacional, nem vou por aí. Talvez o Obama; mas são tantos os actos reprováveis que os Estados Unidos patrocinaram que preferiria não ter que escolhê-lo. Nem a ele nem a qualquer outro. Simpatizo com o Papa Francisco. Não sei se é um líder extraordinário mas é uma lufada de ar fresco a atravessar a igreja católica. Mas não sei se não estou a esquecer-me de alguém mais devedor de admiração.


Se tivesse que dizer qual a música da minha vida não saberia o que responder. Nenhuma das que muito gosto, e são tantas, é mais importante que as outras. Por exemplo, se quisesse escolher a banda sonora deste post, obrigar-me-ia a descobrir uma música que nunca antes tivesse ouvido. All the world is green na voz que me risca a pele e aquece a alma Tom Waits. Por exemplo.

Se tivesse que escolher um pintor, um só, baixaria os olhos, fingiria que não tinha ouvido o pedido. E, se quisesse agora escolher imagens para aqui colocar, apetecer-me-ia ir à procura de pintores japoneses, por mim desconhecidos. Tikashi Fukushima, Seiho Takeuchi, Geun-Taek Yoo, Katayama Bokuyo, Reiji Hiramatsu, Sadamasa Motonaga. Por exemplo.

Se tivesse que dizer qual a cena de cinema da minha vida não poderia confessá-la.

Se tivesse que escolher um actor, um só, não seria capaz de cometer tamanha injustiça perante os restantes de que também tanto gosto. Nem actrizes. Tantas. Porquê só uma?

Se tivesse que dizer qual o livro da minha vida, não seria capaz de dizer. Se, por caridade, me fosse permitido escolher dez, ficava na mesma. Se tivesse que escolher entre poesia e prosa não conseguiria. Claro que não.

Se tivesse que dizer qual a viagem que, até hoje, mais me marcou, não conseguiria dizer. Se tivesse que escolher a viagem dos meus sonhos também não saberia dizer.

Se tivesse que escolher o blog que mais gosto de ler, teria que escolher mais do que um. Vários. E até poderiam ser da mesma pessoa. Ou não, sabe-se lá. Tantos tão bons. Mas, pronto, se obrigada a escolher, talvez uns três ou quatro. Uma meia dúzia, vá.

Se tivesse que dizer qual a minha estação preferida, para ser honesta, teria que responder que as quatro. O devir do tempo na natureza. A magia da existência.

Se tivesse que escolher entre peixe e carne teria que me abster porque gosto de peixe e de carne. E de fruta. E de queijo. E de mel com nozes. Ou pinhões. E de ostras com o mar dentro delas. E de batatas cozidas fumegantes, temperadas com azeite. E de pão. De tanta coisa.

Se tivesse que escolher a minha cor, de imediato responderia que o encarnado. O cor de sangue, o cor de vinho, o cor de mantos rubros, o cor de céu ardente no anoitecer de verão. O rouge. Mas que também o azul. O claro, o límpido, o alegre, o profundo. E o azul escuro-veludo macio como uma carícia roubada ao cair da noite. E o amarelo de todos os tons. Vibrante, mel, luminoso, luz indecente. E o verde. Verde aguarela, verde molhado, verde macio, verde cristalino. O verde de todas as cores. E o branco. E o branco cheio de luz. E o castanho dourado de todas as cores de todas as folhas de outono, de todas essas folhas amorosamente recolhidas para que um dia.

E se tivesse que escolher um animal, eu escolhia a gaivota. A gaivota a voar lá no alto, no vento. E o cavalo. E a águia. Qualquer animal de pêlo macio e olhos perigosos. O tigre azul, por exemplo. Mas sei lá.

E, se tivesse que escolher uma flor, eu diria que é impossível escolher uma flor. Uma flor são todas as flores. Mas, se tivesse mesmo que, então o lírio do campo. E o amor-perfeito. E o brinco de princesa. E a orquídea. E o delicado e perfumado rosmaninho. Ou o alfazema. E, claro, a rosa. De preferência a rosa eterna. A rosa eterna, amor. De Paracelso.


Se eu tivesse que escolher um sonho, eu fecharia os olhos e imaginaria não uma mas mil, mil sonhos transparentes e macios. Voar, passear por florestas íntimas e infinitas, aspirar a maresia e ver o mar, caminhar no aconchego de um braço dado, de um abraço, ou descobrir uma casa imensa, cheia de livros, relíquias, memórias, ou estar sentada num jardim a ouvir poesia, talvez numa língua desconhecida, talvez dita por uma voz desconhecida. Tantos sonhos bons. Porquê só um?

E se tivesse que escolher um jardim por onde passear, devagar, descobrindo os recantos, sentindo a beleza do tempo a passar devagar, eu não saberia escolher. Árvores com sombras macias e pássaros endiabrados, lagos que reflectem o céu e a copa das árores e por onde deslizam patos coloridos, cisnes majestosos, caminhos por entre pequenos riachos, sombras aconchegantes, relva estendida ao sol, risos de crianças, quietudes misteriosas, gatos intrigados, vultos, lembranças de outros dias. Qualquer jardim, de preferência um daqueles onde a lua gosta de mergulhar.


Ou um deus. Qual? Nenhum. Ou qualquer um. Com mil olhos, mil braços, mil asas, falando mil línguas, transportando mil augúrios, deixando mil vestígios, contendo mil poderes. Ou invisível, misturado com as águas que jorram de fendas na montanha, escondido nas palavras nascidas de mãos abençoadas ou malditas.

Não.

Escolher não. Não teria capacidade para escolher. Nem um deus, nem um sonho, nem uma cor. Nem nada. Porquê escolher? Nem tentaria. Acho absurdo escolher uma coisa quando não é caso para pódios e onde muitos amores cabem. 

Ou melhor.

Não sou de ficar sem responder. Responderia. Responderia, sim. Mas não estaria certa de que estivesse a fazer a melhor escolha. Também não me preocuparia com isso. É que tenho mil gostos, mil desvergonhas, mil tentações de provocar, mil vontades de descobrir, mil mundos por habitar. E gosto de sentir o olhar deleitado perante todas as mil cores e o coração inundado por mil afectos e de ter as mãos cheias de mil sonhos, mil acordes, mil palavras .


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2 comentários:

bea disse...

Pois deleite-se que a vida é constante escolha e, como dura algum tempo, escolhe muita vez e muita diferença. Na verdade pode escolher isso tudo que diz, por atacado ou singularmente. Aos molhinhos curtos ou em grandes e variegados ramos.

Também me parece um tanto palerma haver um objecto ou similar a sobrepor para a vida. Mas, admitindo a mutação que é mais minha que do mundo, as pessoas que me importam estão à parte.

Anónimo disse...

Só a grande sensibilidade impede a escolha, e bem.
Recomendo Pessoa-"Não sei quantas almas tenho"