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terça-feira, novembro 08, 2016

Vazio é o mundo sem 'femmes fatales'


Elas querem a lealdade dos indulgentes, o vigor dos apaixonados e a canção dos poetas. Quem tiver o privilégio de encontrar uma remanescente de carne e osso, que não hesite em denunciá-la. Sem dúvida, les femmes fatales preferem ser cultuadas de perto e por muitos, simultaneamente.
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Algo no jeito de sorrir, de ousar acender o cigarro encarando o companheiro e pedir que ele feche o zíper da blusa, sei lá, uma personalidade surpreendente, formada de pequenos e elegantes gestos e geradora de grande excitação. Uma coisa é certa: essa especie de fêmea é sutil e deve ser cortejada nos detalhes.

Pode ser a nuca exposta pelo coque despretensioso, consequência do mau humor do dia, que dispensa um penteado mais elaborado; e ainda o sinuoso movimento do quadril, insistindo em pelear com o vestido ingênuo, de corte reto, enquanto caminha; ou simplesmente uma voz doce e meio infantil, que entoa palavras inteligentes, com a delicadeza de quem está cantando.

A verdade é que não há como resistir à femme fatale, uma realeza, adorada por machos que abdicaram em disputar o poder entre si, para simplesmente aproveitar o melhor das suas existências, compartilhando momentos com ela.Nesse mundo de completa entrega masculina, crianças são bem-vindas, vícios são consumados sem culpa, a transa é frequente e o campo intelectual filosófico, verdejante.



Qual seria então a essência desse ser tão provocador? A fêmea fatal se alimenta da sedução e é ávida por liberdade. A sua identidade não é ser apenas sexual, mas sensorial. Quer provar de tudo, de todo jeito e abundantemente. Quer fazer isso em comunhão. Para tanto, não abre mão de cúmplices, sempre seus parceiros apaixonados.

A história registra um elenco considerável de mulheres dessa estirpe. Temos desde Cleópatra, soberana do Egito - por quem o general romano Marco Antonio desistiu de um império e foi convencido a doar a vida - à intelectual russa Lou Andreas Salomé (1861 -1937), que reuniu em sua alcova, ao mesmo tempo e outrora, o marido e escritor francês Paul Rée, além de Freud e Nietzsche, num quadrilátero amoroso insuspeitável.

Tamanho poder não torna mulheres fatais arrogantes e soberbas, o que presumivelmente ocorreria a alguém ciente da sua grande capacidade de deslumbrar. É da natureza da fêmea fatal atrair, mas se é insaciável na persuasão, também é generosa no amor. 

Infelizmente, as fêmeas fatais, se não foram extintas, hoje operam em petit comité.

Quem tiver o privilégio de encontrar uma remanescente de carne e osso por aí, que não hesite em denunciá-la. Sem dúvida, “les femmes fatales” preferem ser cultuadas de perto e por vários, simultaneamente. Se ninguém quer perder essa chance, o mundo também agradece.


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Fotografias de Bruce Weber

Excertos de artigo com o título 'Vazio é o mundo sem femmes fatales' da autoria de Ilma Pessoa em Obvious

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