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quinta-feira, novembro 24, 2016

Prever o futuro


Li que há 'supervisores' de um tipo especial. A notícia nã se refere a pessoas dadas a supervisionar trabalhos ou equipas mas, sim, a pessoas que conseguem prever o futuro.


As palavras de Philip E. Tetlock foram ouvidas, esta quarta-feira, na Universidade de Lisboa, no âmbito da conferência “A Ciência das Previsões”, organizada pela Fundação Francisco Manuel dos Santos. O cientista social da Universidade da Pensilvânia, Estados Unidos, considera que, hoje, não só é possível fazer previsões com alguma segurança, como essas previsões podem ser melhoradas.
Quis saber mais. Fui à procura. Ouvi entrevistas de Tetlock. Julguei que ia ficar entusiasmada. Não, nada. No que li e ouvi pareceu-me faltar o golpe de asa que o tema pede. O assunto é aliciante mas, como frequentemente me acontece, parece que quem lhe pega não o faz transportando na bagagem ferramentas como a poesia, a física, a pintura abstracta, o prazer do silêncio. E isso, a meu ver, faz toda a diferença.


Acontece que, durante algum tempo, trabalhei com modelos, com previsões e com coisas desse género. É matéria que me interessa e agrada. Contudo, como é sabido, sou de tipo flaneuse, não de tipo plongeuse (se assim me posso exprimir). Afloro as coisas, passeio por elas -- ou seja, não mergulho nelas. Sinto que alcanço melhor a essência das coisas se delas tiver uma visão distanciada, não comprometida. Sei que este meu método contraria as práticas académicas e, portanto, nem quero falar em método, prefiro falar em pancada. Para ver se me protejo dos impropérios vindos dos sacrossantos Illuminati que pululam por aí, vou logo alegando que ando por cá só a ver as montras, que não sei nem quero saber muito de coisa nenhuma e, quem acha que sou uma pobre coitada, pois olhe, se calhar tem toda a razão. 


Mas adiante.

A nível de modelos complexos, já o disse, os que mais me atraíam eram os que se prendiam com a simulação, algo que, na altura, se aproximaria da inteligência artificial.

Contudo, se aparentemente, estava num reino em que a racionalidade e o determinismo imperavam, a verdade é que, para mim, tudo aquilo tinha o seu quê de magia.

Já não navego hoje por essas águas. Contudo, há coisas que deixam marcas. Ou que são genéticas -- não sei. 


Acontece-me por vezes, nomeadamente a nível profissional, estar a ver um projecto ou uma estratégia e achar que vai dar buraco, que aquilo não leva a lado nenhum, que é pura perda de tempo e gasto de dinheiro, ou achar que ali há esturro - e mais ninguém achar isso e, portanto, ficarem a pensar que é pessimismo meu ou, pior, desalinhamento. Se uma pessoa prevê uma coisa não tem como demonstrá-la e, portanto, ao falar nisso é inevitavelmente olhada de través.

Agora mesmo, neste momento, ando desconfiada em relação a uma situação. A ser verdade, é uma situação grave que pode causar danos e que, se comprovada, deverá levar ao afastamento compulsivo de uma pessoa. Mas como provar? Esperar que aconteça algo que pode ser um estrago irreversível causando sérios danos de várias ordens? Mas qual a alternativa séria? Afastar uma pessoa sem provas do que quer que seja, correr o risco de cometer uma tremenda injustiça e metermo-nos num trinta e um legal? Não me parece.

Cenas maradas. 


E as vezes que isto já me tem acontecido... O meu colega mais próximo diz-me muitas vezes que ver antes do tempo é praticamente a mesma coisa que não ter razão. Por isso, se por vezes parece que vejo ao longe, o que tenho a dizer sobre isso é que não há qualquer prazer em antecipar situações nas quais ninguém acredita e que, por via disso e não só, não se conseguem evitar.

Portanto, não sou supervisora nem nada disso -- e ainda bem. Sou um bocado intuitiva, acho eu. Mas isso de pouco me serve. Nem sei se o sou. E, para dizer a verdade, tanto se me dá.

E é que, com isso, das duas uma: ou uma pessoa passa por lunática e ninguém acredita ou passa por dizer banalidades, lapaliçadas.


Por exemplo, qual o gozo de coisas como estas?

. Achar que o láparo vai andar por aí aos caídos e nem para comentador televisivo o hão-de querer contratar?

. Ou que um dia destes o BE se vai ver embrulhado por via de problemas entre Catarina Martins e Mariana Mortágua?

. Achar que Fernando Medina vai ser um dia primeiro-ministro?

. Achar que Paulo Portas vai aparecer aí um dia metido num caso judicial?

. Achar que um dia vamos ter um casamento gay envolvendo uma figura da política?

. Achar que a Teresa Guilherme, anda, anda, anda e ainda a vamos ver a gerir uma casa de meninas?

. Achar que a Merkel anda, anda, anda e ainda a vamos ver a receber o Nobel da Paz?

E etc. 

Ou banalidades ou parvoíces, como dizia atrás. Sem préstimo, portanto.



Por isso, vou mas é ver se consigo paciência para ouvir o senhor Philip E. Tetlock a falar de Why an Open Mind Is Key to Making Better Predictions que pode ser que aprenda alguma coisa de útil.


Mas não é hoje. Hoje, se me permitem, fico-me com a voz de Marlon Brando e as palavras de T.S. Eliot´.

The Hollow Men - How Cultures Die



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Lá em cima Agnes Obel interpreta Smoke And Mirrors e as imagens que espalhei ao longo do texto mostram trabalhos da ucraniana Yelena Yemchuk.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma quinta-feira muito feliz.

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1 comentário:

bea disse...

Gosto qb dos trabalhos da ucraniana. A voz do Marlon Brando, apesar de sexy não me apetece. E estou um tudo nada como a menina, dantes era um bocadinho intuitiva, agora nem por isso, mas também não faz diferença que se veja. E a vida tem-se empenhado em mostrar-me que as minhas intuições não alteraram no curso dos acontecimentos (mais ou menos como diz o seu colega).
E BFS para si.