Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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domingo, outubro 30, 2016

Paredes faladeiras


Ora, então, muito bem. Agora que já tive o meu momento publicitário, comerciando canudos à dúzia (títalos a preço de chuchu e garantindo uma escalada rápida e bem remunerada a putativos doutores, bacharéis ou eternos badamecos), volto ao turismo.

Caminho por ruas, vielas, escadas e escadinhas, espreito as casas, leio as paredes. E fotografo.

Bombardear pela Paz é como foder pela Virgindade


A obrigação de produzir
aliena a paixão de criar

De vez em quando passo por estas bandas, mas, sendo em trabalho, não me sobra tempo para curtições. Ou é coisa de ir e vir no mesmo dia e passeio a pé ou de carro a ver as vistas viste-lo (passe a redunância) ou, se mete pernoita, é chegar à cidade para entrar directinha no hotel, check in, ida ao quarto, telefonemas a correr, encontrar cá em baixo para ir jantar, voltar tarde, ir para o quarto, depois levantar cedo para nova implacável jornada, check out, carro, reuniões e ala para casa que se faz tarde.
E que não se pense que é porque gosto. Não, nada disso. Ia lá eu gostar de um tal regime? É apenas porque sou uma maria vai com os outros. Num grupo predominante ou exclusivamente masculino e achando os cavalheiros que é este regime que faz crescer a economia, não consigo ter voz activa para lhes mudar os hábitos. Claro que lhes digo que estão enganados, que a dita crescia melhor se a gente tivesse tempo para passear, se a gente se levantasse mais tarde, se as reuniões fossem mais curtas e feitas à beira rio, a olhar o reflexo das árvores nas águas ou se eles, de vez em quando, me agraciassem com um poema. Mas, ocupados com noplats, ebitdas, swots e outras frioleiras, nem me ouvem. Não sonham com o que perdem mas esperar o quê se é sabido que os homens só conseguem usar um neurónio de cada vez...?

Mas, portanto, dizia eu que não é que a cidade me seja desconhecida. Mas é quase como se fosse. 

O meu marido hoje teimava que já estínhamos estado ali, justamente naquele sítio. Olhei. Sim, de facto. Mas quando? 

Nenhum cor-de-rosa faz sentido

Lembrou-se, então. No casamento de um colega. Todos vestidos de branco, de boné, enfeites dourados, de espada e nem sei se até de luvas brancas. Cruzaram espadas e os noivos passaram por baixo. Fizeram umas saudações. Uma coisa com simbolismo. Não sei qual mas isso também não interessa para nada -- foi bonito. Eu jovenzinha, cabelo curtinho, quase rapadinho, vestidinho com bordados às cores. Era ele marinheiro de água doce e, quando todos juntos, eram bonitos demais para imporem respeito a algum inimigo. Devia ter eu vinte e três anos, já uma filha bebé, e ele, vá lá saber-se porquê, foi chamado para ir fazer a tropa. Nem percebíamos. A tropa? Se já ninguém ia para a tropa, que ideia. Foi ele e mais uns quantos. Para a Marinha. Foi dar aulas. Deviam estar com falta de professores. Mais de dois anos. Ao princípio assustei-me, ia perder o emprego -- e que coisa era essa de ir para a tropa? Depois gostei, aquilo era bom. Mas ele não. Não tem pingo de militarismo. Apesar de aquilo ser agradável e de ser bem tratado e estimado, estava deserto para se ver livre de fardas. Convidaram-no: um curso nos Estados Unidos, uma carreira. Não quis. Tive pena. O Clube Naval, a Messe de Oficiais e essas coisas, tudo era deliciosamente civilizado.

Adiante que iso agora não é para aqui chamado.

Pouco tempo depois de lá estar, na Marinha, um dos colegas de recruta e de não sei quê (não sei como se chama o período a seguir à recruta) casou-se e convidou-nos bem como a outros marujos. Uma diferença abissal dos casamentos das nossas bandas. Logo que chegámos já havia banquete em casa dos pais dele. Depois o casamento e as fotografias. Estava calor como este sábado e aquilo não acabava. A minha tensão baixíssima. Depois o copo de água. Nunca tinha visto uma coisa daquelas. Não sei onde era, um espaço enorme, várias mesas corridas, centenas de pessoas. Começou a vir comida e não acabava, toda a gente comia como se não houvesse amanhã. As mesas davam a volta àquele enorme salão e ao meio as crianças andavam a correr e a brincar. Depois houve baile ali ao meio enquanto nas mesas ainda se comia.  Eu não, não conseguia. Mas também já nem conseguia ver comida. Tanto que aquela gente comeu, senhores. Tanto, tanto. Por fim, já andava tudo alegre, camisas de fora das calças, cantavam e dançavam e riam e bebiam, uma algazarra indescritível. Saímos de lá já de noite e eu com a cabeça completamente feita em água. 

Não é normal ter medo de amar

E é verdade, foi aqui e passámos por onde hoje voltámos a passar. A passear.

Passear: das coisas boas da vida.

Andar a pé, a ver tudo, a ouvir as paredes. Fotografar. O meu marido diz: 'É isto. Os exageros'. Gosta de andar em frente, sem parar. E eu gosto de tudo, paro a ver, fotografo. Hoje mais de duzentas. Mas há bocado, enquanto fui tomar um duche, disse-me 'deixa lá ver as fotografias'. Aborrece-se quando ando a fotografar mas depois gosta de ver. Também me fotografou. Ao ver, disse 'ficaste bem' -- e eu a achar que tenho que perder uns três ou quatro quilos.

Mas, como ia dizendo, hoje o dia foi tranquilo. Comemos bem mas não tanto como quando eu era uma miúda toda orgulhosa por ser casada com um marinheiro tão garboso; e hoje não houve cantoria nem baile armado.

Andámos imenso a pé. Horas. Quando ando mais cansada só me apetece espanejar. Escalámos a cidade, visitámos e espreitámos, horas de sobe e desce, e sinto-me descansada e leve que dá gosto.


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E, aqui chegada, volto a perguntar: onde é que eu ando?

Já recebi um palpite mas com ponto de interrogação. Não vale. Portanto, façam-me um favor: quero certezas, não perguntas.

Dou uma ajudinha. Bem, nem é uma ajudinha, é quase dizer o nome da cidade. Ora vejam a fotografia abaixo. 

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Tenho que incluir banda sonora...?

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E, enquanto não volto para tirar a prova a limpo, desçam, por favor, para uma informação preciosa a propósito dos ditos títalos universitários e para verem, logo a seguir, gente levitadeira.

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7 comentários:

Anónimo disse...

É mesmo: Coimbra. Sem ponto de interrogação.

bea disse...

Desconheço completamente. Não responde à pergunta, mas é afirmativo.

Anónimo disse...

2 em 1 pode ser?
:)
Olha que fixolas também por cá estou este fim de semana
:)

https://www.flickr.com/photos/vitor107/11280103053

GG

Anónimo disse...

Esta ponte vista durante a noite é surrealismo puro
escolhidas ao acaso
:)

http://olhares.sapo.pt/ponte-pedonal-coimbra-pedro-e-ines-foto5089052.html

http://jomirifefotos.blogspot.pt/2015/04/ponte-pedro-ines-noite.html

http://www.rotadabairrada.pt/irt/show/ponte-pedro-e-ines_pt_387

https://www.tripadvisor.com.br/LocationPhotoDirectLink-g189143-d635298-i87386865-Ponte_Pedro_e_Ines-Coimbra_Coimbra_District_Central_Portugal.html

http://cdn.olhares.pt/client/files/foto/big/109/1095373.jpg


GG

Um Jeito Manso disse...

Pois Anónimo, já lhe disse no outro comentário: fiquei furiosa. Não, furiosa não. Admirada. Conhece a varanda suspensa ou o quê? Aquele pequeno trecho de paisagem não dava para desvendar a cidade, pois não?

Mas pronto, acertou e eu devia ter um prémio para oferecer. Um voucher para qualquer coisa, para aí... :) Como não tenho, ficam apenas os meus parabéns!

Para a próxima vou tornar a coisa mais díficil a ver se acerta na mesma...

Um Jeito Manso disse...

Olá Bea,

Afinal, pelo que vi num cometário posterior, não desconhecia completamente... Mas lá que foi afirmativa, lá isso foi. Aliás é uma das suas imagens de marca: pão pão, queijo queijo.

Um Jeito Manso disse...

Olá GG!

Andámos as duas em Coimbra? Ter-nos-emos visto?

E o calorão que esteve...? Parecia um dia de verão-verão.

Não andei na ponte de noite mas andei de dia e gostei muito. Mas, pelas fotos que enviou, deve mesmo ser um espanto!

Bjs, GG!