quinta-feira, outubro 27, 2016

O bestiário ou o cortejo de Orfeu


A minha vida já deu cinquenta mil voltas, já trabalhei em vários locais, já tive colegas que perdi de vista, já perdi a conta àqueles com quem gostei tanto de conviver e de quem já raramente me lembro. Um dos meus mais fantásticos colegas começou por ser grande inimigo. Mas acabámos bons amigos. Diziam que liderávamos facções antagónicas dentro da empresa. Vínhamos de empresas que antes eram concorrentes e o processo de fusão começou por não ser bem assimilado. Se havia facções inimigas, eu não fazia por isso. Mas ele eu acho que sim. Os homens têm aquele lado bélico que os faz gostarem de ter inimigos, cultivar o ódio ao outro para alimentar tropas fiéis, travar batalhas, contabilizar despojos. As mulheres não são assim. Mas a verdade é que eu também não lhas perdoava e, de cada vez que eu achava que ele estava a pôr-se a jeito ou a ser menos transparente ou menos correcto, caía-lhe em cima a pés juntos.

Volta e meia ele apresentava queixas de mim ao presidente da empresa e este vinha tirar a coisa a limpo comigo. Só o facto de eu saber que ele se tinha armado em queixinhas já me tirava do sério e era só até surgir a hipótese de eu lhe aparecer pela frente, dando-lhe desandas que o deixavam apeado. Lembro-me que uma vez ele me tinha feito uma que me tinha deixado furibunda. Segurei-me para deixar que surgisse o momento em que o justo correctivo lhe ia doer a sério. E um dia, com ele entre os subordinados, deixei-o verdadeiramente arrasado. O vexame custa mais quando é testemunhado.

Fazer isto não me deixava feliz. Na verdade, era mais forte que eu. Por cada uma que ele me fazia, geralmente à traição, respondia-lhe eu à bruta, em campo aberto.

Numa altura, tivemos um desentendimento tão sério a nível profissional que teve que ser chamada uma empresa de consultoria para vir arbitrar a contenda. Mais uma vez a nossa empresa se dividiu ao meio, cada um de seu lado, numa luta sem tréguas. Uma vez, quando a coisa estava feia, ele tentou negociar: ele cedia numa coisa, eu cedia noutra - propôs ele. Neguei-me, que não negociava as minhas convicções. A administração assistia incrédula a uma tal disputa, tentando deitar água na fervura, tentando que conseguíssemos conciliar pontos de vista. Não conseguiu. Fomos até ao fim. Ganhei e ofereci-lhe o meu silêncio para que não pudesse acusar-me de deitar sal em ferida aberta. 

Mas, não sei como nem porquê -- talvez porque tanta guerra tão extremada tenha feito com que cada um de nós reconhecesse no outro alguns méritos -- tudo isso ficou para trás e, mais tarde, acabámos a rir das guerras que tínhamos travado.

Era uma pessoa que sendo um excelente profissional e uma pessoa que cultivava, em público, uma certa snobeira tinha, depois, em privado, um lado de desconcertante maluqueira.

Poderia escrever dezenas de posts a contar peripécias a que lhe assisti. Há pouco, depois de acordar (uma vez mais caí aqui no sofá e adormeci), a ver se espertava, pus-me a ver excertos do João de Deus. E, ao ver este aqui abaixo, lembrei-me que este meu colega, senhor director muito importante, gostava de estar no gabinete de janela aberta. Por baixo da janela havia um jardim. Por isso, volta e meia, havia uma mosca ou melga sobrevoando-lhe a secretária ou a mesa de reuniões. E estavamos nós, fossemos quantos fossemos ou fossemos quem fossemos, a tratar de assuntos que até poderiam ser importantes e, de repente, ele sacava de um mata-moscas daqueles à antiga que tinha sempre à mão, ou debaixo da cadeira (se estivesse na mesa de reuniões) ou por baixo do tampo da secretária, um daqueles que são constituídos por uma haste com um rectângulo de plástico na ponta, e zás, uma traulitada na mosca. Ainda me lembro de um dia em que ele estava, como sempre, à cabeceira da mesa e a mesa cheia de gente em volta e a tratarmos de assuntos sérios com pessoas com quem ele até nem tinha muita confiança e, estando um outro cavalheiro a falar, vai ele e zás, pumba!, um assassinato em cima da mesa mesmo à frente do outro que, não estando à espera de tal coisa, deu um salto na cadeira, verdadeiramente assarapantado.

Eu fartava-de de rir com tamanho despropósito. Depois ficava a mosca espatifada na mesa. Ele pedia licença, levantava-se e, com um papel, arrastava a defunta para outro papel que atirava para o lixo. E prosseguia a reunião como se nada de insólito se tivesse passado.

Outras vezes, dava com o mata-moscas no ar, vidrado na mosca, não descansando enquanto não a matasse. Se a mosca voava na minha direcção e eu o via ameaçador, dizia-lhe 'nem lhe passe pela cabeça dar-me com isso' porque já o tinha visto dar com aquilo em colegas, nos braços, nas costas.

Contando isto assim talvez se fique a pensar que se trata de um maluco. Talvez seja um bocadinho. Mas é um profissional dos melhores que já conheci e, quem não lhe conheça este lado mais privado (digamos assim), nem de tal suspeita já que guarda uma certa distância e gosta de mostrar um lado de gentleman, algo superior.



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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela quinta-feira.

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2 comentários:

Anónimo disse...

O João César Monteiro era uma personagem única! Imortal!
P.Rufino

Um Jeito Manso disse...

Olá P. Rufno,

Eu achava-o um maluco para além da conta, não lhe ligava muito por isso, achava que dali nunca haveria de vir nada minimamente equilibrado. Agora acho-o um maluco extraordinário e sobretudo porque dali tudo o que vinha era do mais disparatdo que havia.

Um belo dia para si, P.Rufino!