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terça-feira, outubro 25, 2016

E se fosse consigo...?
E se fosse consigo...?
E se fosse consigo...?


Não posso olhar apenas para o hoje. Em todas as eras houve maldições, êxodos, desesperanças. E se alguma coisa me causa estranheza é apenas que a espécie humana, ao contrário de outras, nada aprenda.

O aperfeiçoamento natural, fruto de experiências anteriores, não acontece com as pessoas. Encontramo-lo em animais que vivem no fundo do mar, nas mais inóspitas escarpas, em grutas onde o ar mal circula. Mas não nos humanos. 

Em nome de religiões, de racismos, de guerras fraticidas do passado, em nome de qualquer coisa, os homens viram-se uns contra os outros, esquecem séculos de civilização (e falo em séculos porque sei como a memória é curta, senão diria milénios) e, sem pesos na consciência, regridem aos tempos da escravatura, da barbárie, da mais rudimentar selvajaria. A espécie humana é autofágica.


O que se passa com os refugiados é disso prova. Pessoas como nós fogem à guerra e à miséria, despojados dos seus bens, dos seus familiares, de afectos, de tudo, atravessam mares, caminham pela noite. Procuram a paz, esperam encontrar o futuro. E nós, os que ainda não fomos tocados pela gangrena da miséria absoluta, indiferentes.

Sujeitos à abjecção, tratados como indesejáveis animais, deitados pelas ruas, ao frio e à chuva, acantonados em tendas, vendo frustrado o sonho em nome do qual arriscaram a vida, os refugiados vivem o grau zero da dignidade humana. E nós, os locais, indiferentes.

Nem imagino o que estas pessoas sofrem. Nem imagino. 

E ver o sofrimento -- humano, tão humano -- destas pessoas reconduz-me à minha condição de cúmplice. Envergonho-me de mim.


A solução para um problema desta dimensão não a conheço. Tem que ser construída. Se fossemos gente de bem, unir-nos-íamos para estudarmos como pôr fim a tamanho sofrimento. Saberíamos ajudar estas pessoas no seu país ou, se impossível, saberíamos acolhê-los com humanidade.

Não são gestos individuais que podem travar esta calamidade -- todos os dias a morrerem nos mares, todos os dias a virem em carrinhas sem condições, vítimas de um asqueroso comércio. Sinto que as minhas lágrimas de nada servem quando vejo as lágrimas indefesas de gente igual a mim. 

A selva de Calais está, e bem, a ser esvaziada. Aquele era um zoo imundo em que se enjaulavam pessoas que, coitadas, se tornavam violentas, más, perigosas. 


E aqueles milhares de pessoas, que deixaram a vida para trás e sofreram todas as dores para chegarem até lá na esperança de alcançarem um imaginado el dorado, um reino unido que os receberia de braços abertos, vêem-se agora divididos em grupos e transportados para outros alojamentos, mais longe da fronteira dos seus sonhos. Voltam a separar-se de amigos, voltam a ver o seu destino à mercê nem sabem de quê. 


Na despedida da selva, abraços e lágrimas. Arrastam malas com mudas de roupa e agasalhos que lhes foram doados. Uns partem para uma nova paragem do desconhecido acreditando que a sua vida um dia fará sentido, outros vão tristes, sem asas, sem amparo, temendo novos perigos.

E nós aqui sem querermos saber de nada.

Mostram-lhes um mapa de França, pedem-lhes que escolham e, consoante a escolha, assim são encaminhados.
Muitos escolhem ao acaso

(Na madrugada do do 1º dia da evacuação de Calais)



Desespero e esperança no campo de refugiados de Calais


(17 de outubro de 2016)



Evacuação da 'jungle' de Calais: a manhã de segunda feira


(24 de Outubro de 2016)


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Para um registo completamente diferente (e para o caso de serem como eu -- assistir ao sofrimento é tão insustentável que, perante a minha humilhante impotência, sinto necessidade de mudar de assunto), desçam por favor para verem o que é uma declaração de amor a preceito.

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10 comentários:

bea disse...

Tem razão. Isto deixa-nos de mal connosco.Mesmo sabendo que individualmente nada mudamos. É assim uma vergonha de pertencer a este mundo indiferente.

Bmonteiro disse...

«A solução para um problema desta dimensão não a conheço»
Nem eu, mas If I could have a dream...
Defender, ajudar estes 'desgraçados', era garantir-lhes uma travessia segura*.
Era recebê-los nas costas de origem, fazendo desaparecer assim o tráfico miserável a que são sujeitos.
Era exercer o poder-politico, militar, económico-para convencer os poderes limítrofes a colaborar: a bem...ou a mal.
*Com orientação para destinos acordados em Bruxelas.
Quanto ao poder da UE:
Mostra-se no Mediterrâneo, com militares e polícias, a fazer ali duas coisas:
a) Que servem para alguma coisa evitando o abandono total, sossegando assim as consciências europeias;
b) Militares e policias, todos profissionais, felizes por exercer o serviço, idem pelo recheio nos vencimentos, sem perigos de maior.
No "América América" de Elia Kazan, os emigrantes europeus-turcos desembarcando em NY: recebidos nos cais em espaços de encaminhamento para o destino seguinte.
Outro mundo.



Abraham Chevrolet disse...

Quantas mortes já provocaram,em Calais,esses emigrantes? São tão perigosos que assim é urgente desbaratá-los? Terão armas de destruição maciça com eles?
O decoro e a urbanidade não deixarão sem punição os medrosos que por hora detêm o poder por lá. E quando, réprobos e mínimos, num futuro breve choramingarem por não terem sabido avaliar bem a situação,que os agora expulsos,aristocráticamente os consolem, dizendo:não é fácil avaliar quão pouco sabemos...

Anónimo disse...

Caramba

Um Jeito Manso disse...

Olá bea,

Ver lágrimas tão tristes e abraços tão desamparados faz-nos doer, não faz? A mim custa-me muito e mais ainda por saber que nada faço e que tantas vezes nem me lembro do sofrimento destas pessoas.

Tenho tanta pena destas pessoas...

Um Jeito Manso disse...

Olá Bmonteiro,

Tem razão.

A mim isto custa-me tanto. E é um drama com causas tão profundas e tão vastas e consequências tão devastadoras que me deixa quase soterrada, como se nem valesse a pena a gente sentir-se entristecida com isto, quase como se fosse uma inevitabilidade. Uma pessoa vê esta gente que arrisca a vida para depois para ali andar, aos caídos, como animais sarnentos que ninguém quer por perto -- e nem sabe o que pensar. Como se luta contra isto? Pode lutar-se contra a indiferença geral, contra a maldade mais cruel?

Quem se mete a caminho ou se faz ao mar numa balsa talvez venha com esperança. Mas já não há um mundo novo por descobrir como houve em tempos em NY.

Coitados, eles, que são um estorvo neste mundo velho.

Um Jeito Manso disse...

Olá Abraham,

Sujam as ruas, as tendas cheiram mal, perturbam a higiene das terras. São negros, árabes, não tomam banho todos os dias, não têm trabalho, não têm nada a perder: são uma ameaça.

Se calhar se eu tivesse a minha rua cheia de gente assim também ficava desejando que os mandassem embora. Sozinhos somos uns cobardes e nunca nos ocorre juntarmo-nos.

Quando o menino vestidinho que parecia dormir deu à costa, ficámos todos perturbados. Mas já ninguém se lembra. A nossa mente viciou-se na indiferença.

Não sei se algum dia, nas nossas vidas, vamos ver o fim deste drama terrível. Aleppo está destruída, pedras e pó apenas, e a destruição não acaba. A maldade parece que se descontrolou.

Um Jeito Manso disse...

Anónimo,

Caramba mesmo.

Uma boa noite para si (ou um dia feliz - consoante a hora em que me leia)

JG disse...

Esta é uma tragédia humana de dimensões sem precedentes. Contudo, penso que não constitui uma surpresa. As más políticas de muitos países, reiteradamente mantidas durante anos, alguma vez teriam que produzir efeito.
A responsabilidade cabe a todos e a alguns países, nomeadamente os EUA que agora não é afetado.
Não é uma surpresa o comportamento da Europa. Todos estes países têm, há muitos anos, inúmeros sem abrigo sem medidas eficazes para resolver o problema. Tratando assim os seus, como poderíamos esperar que tratassem melhor refugiados de outros países?

Um Jeito Manso disse...

Olá JG, boa noite,

Tem razão. Os países civilizados rejeitam aqueles que ficam nas franjas do 'desenvolvimento'. O incómodo que os deserdados causam confronta os bem sucedidos com os pés de barro do edifício construído.

Mas acho que isto não é só com a europa. Sobretudo penso que isto é mesmo uma deficiência da espécie humana. A facilidade com que se assiste à morte e sofrimento de alguns iguais é assustadora. Percorra-se e mundo e ver-se-á as chacinas que ocorreram à frente de todos, consentidas.

Não concorda?