Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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sexta-feira, setembro 02, 2016

De novo, a observar os outros






O lugar do pequeno-almoço é amplo: estende-se entre a sala de jantar, o largo terraço coberto com um telheiro de madeira onde grandes ventoinhas suspensas agitam o ar, transmitindo a ideia de fresca aragem, e a varanda sobre o jardim. Pode estar muita gente em simultâneo que não se dá por isso.


Vimos o irmão de grada figura de Estado, quase igual ao mano nos gestos, na camisa dez números acima e igualmente descontraído. Ninguém o conhece, presumo, pois, que me aperceba, há pouquíssimos portugueses. 

Há um rapaz que está com o que deve ser a mãe e que é, nos modos, tal e qual o tal da Little Britain, the only gay in town.


Fisicamente é extremamente parecido com James Corden. Ao princípio pensei que fosse mesmo ele e surpreendi-me por ser tão gay já que Corden é casado e nunca lhe vi tiques abichanados. Depois vi que são apenas sósias.

Apresenta-se todos os dias com calção curto e justo, blusa justa de alças e com os chinelinhos turcos que estão no quarto para uso com o roupão após o banho. Como são muto leves, se ele andar com passo mais largo, as chinelinhas caem-lhe dos pés. Então, anda com passinho miúdo, como se fosse uma gueixa. E anda com as mãos levantadas, todo a dar ao rabo e só não sacode o cabelo porque não o tem para isso. A mãe também é grande e bem nutrida e usa o cabelo liso, presumo que pintado de preto, e veste-se toda de negro, num curioso look gótico. O filho deve ser muito divertido porque, quando ele fala, ela frequentemente desata a rir-se à gargalhada.

Ontem à noite alguém tocava piano no grande hall do hotel mas, pelo aspecto, e pelo que tocava, fiquei na dúvida se não seria um hóspede. Muito bom e completamente inesperado.

Quem lá vimos a escutar a música com ar encantado foi aquele curioso casal cuja nacionalidade ainda não conseguimos identificar. Inclino-me para que sejam israelitas. Vestem-se de forma ocidental. Os três filhos muito bonitos e modernos, um rapaz de uns 17 ou 18 anos com um daqueles cortes de cabelo muito na moda em que parte é curta e parte, no alto da cabeça, é maior, depois uma miúda linda de uns 14 anos e uma que terá uns 12.  O homem tem um aspecto também ocidental e é alto e bonito. A mulher é que é o elemento especial da família. Parece uma adolescente mas, olhando bem, vê-se que adolescente não é. É magra, tem corpo de miúda. Usa vestidinhos justos e curtos. E tem traços diria que levemente árabes. Usa rabo de cavalo, um cabelo escuro e liso como o das filhas. E anda muito direita, sempre com um meio-sorriso, e frequentemente põe a cabeça de lado, com um ar zen. Nunca a vejo a conversar com o marido nem ele com ela, mas andam sempre juntos, ele muito sereno e ela em estado de quase levitação. Ao pequeno almoço, os filhos vão buscar o que querem que os pais nada dizem. A mais pequena apenas traz mini-bolas de berlim, bolas e mais bolas, e a mãe olha com ar de flamingo suave como se o tema não lhe interessasse. A do meio apenas come fruta. Traz melancia, uvas, laranja, melão, taças de fruta e nada mais. O rapaz traz uma tigela de cereais secos, sem leite ou iogurte. E para os pais tudo bem. Os miúdos conversam uma língua que desconhecemos e riem entre eles e os pais olham-nos sem nada dizerem, suaves e sorridentes, como se observassem uma realidade que lhes é estranha. Na piscina, o rapaz lê, está sempre a ler, as irmãs mergulham e brincam, o pai olha para o céu ou dorme e a suave jovem mulher de vez em quando lê, de vez em quando olha para a copa das árvores e parece sorrir.

Gostava de os conhecer porque me intrigam.

Hoje calhou coincidirmos ao pequeno-almoço, embora em mesas relativamente distantes, com o indiano/paquistanês/inglês. Afinal usa óculos de ver e, assim e vestido, fica ainda mais interessante. Estava só com os filhos. Ele conversa com eles, vigia o que comem, de vez em quando faz-lhes um pequeno gesto de carinho, sempre atento. O meu marido disse-me: 'As duas ficaram a dormir'.

Voltei a encontrá-los na piscina. Ele sempre com aquele seu ar diligente, dobra a roupa, tira o protector solar do saco e põe nos filhos, ajeita o chapéu de sol, ajeita as toalhas nas espreguiçadeiras. Depois foi tomar banho com os filhos, brincou com eles na água. Quando o meu marido chegou da sua caminhada, ao vê-lo só com os miúdos, perguntou-me com ar de gozo: 'Então? As louras continuam a dormir, não...?'. Pelos vistos.

Voltei também a ver um curioso casal que já no outro dia tinha visto na praia: ele, alto, bronzeado, corpo cuidado, diria que já pelos 70 mas ainda muito bem. Cabelo completamente branco, penteado quase para trás, corte que as entradas favorecem. Uns calções de banho de risqunhas finas verticais em cinzento claro e branco. Tem um ar distinto. Com ele, uma que deve ser modelo, escultural, talvez nos trintas. Ele passa a vida a fotografá-la. Hoje ela usava um bikini cor de rosa vivo, tem cabelo louro muito claro pelo meio das costas e presta-se, proactivamente, às sessões fotográficas que ele, embevecido, faz. Parecem um casalinho apaixonado.

As duas miúdas lourinhas lá estavam hoje também: a ler, a beber cerveja, a conversar, a irem nadar. Inseparáveis. Também não percebo. A cada dia usam bikinis e túnicas diferentes, elegantes, vê-se que tudo de boa qualidade. Olhei-as bem. São mesmo muito miúdas ainda. Decididamente não percebo que duas jovens adolescentes venham de Inglaterra, sozinhas, para passar férias num hotel destes, limitando-se a circular entre a piscina e a praia e sem procurarem a companhia dos muitos outros jovens que por aqui circulam.

Na beira da piscina, entre pessoas que me parecem 'normais' e que não despertam a minha atenção, reparei também em três new-balzaquianas louras, que falam sem parar, riem, segredam, conspiram. Uma tem um bikini muito bonito, preto com bolinhas pequenas brancas e com um folhinho em baixo, na pequena tanga, e em cima, no cavado soutien. Muito sexy. Ela tem generosa carnadura mas nada de mais e, muito bronzeada, fica bem com aquele modelo. As unhas são em pink brilhante. E está sempre a escrever no telemóvel. As mãos ágeis como nunca vi, escreve com as duas mãos, com as unhas grandes, e sem quase olhar para o aparelho, pois conversam ininterruptamente. Não sei como o consegue, ao sol, com as grandes unhas e sem olhar para o que escreve. E o que será que escreve tão copiosamente?
Vou para lá sempre bem intencionada, de livro na mão, com muita vontade de me deixar estar ali a ler naquele cenário tão tranquilo. Contudo, passado pouco tempo, estou nisto: a observar os outros. E agora persisto: a relatar-vos o que vejo. A ver se me inspiro noutra coisa qualquer para não vos voltar a maçar com isto.


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Lá em cima a companhia de dança barroca "Neveux de Rameau" interpreta uma passacaglia. Pertence à ópera Armide de Jean-Baptiste Lully.

As duas últimas imagens mostram peças da autoria de ​Alyson Mowat nas quais cristais (duradouros) são colocados em flores (efémeras).

As ondas de vidro são peças da autoria do casal Marsha Blaker e Paul DeSomma

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E queiram, por favor, descer até a uma verdadeira amazing Grace. Tomara que não seja daqueles sucessos precoces que ficam pelo caminho.

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1 comentário:

Anónimo disse...

Deixo aqui um elogio às suas fotografias que tem vindo a divulgar desde que "aterrou" aí nesse paraíso algarvio. Belíssimas fotos!
P.Rufino