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segunda-feira, agosto 22, 2016

Cumplicidades à beira-mar


Após ter escrito sobre um homem que anda há mais de cinquenta anos a construir uma catedral com as suas próprias mãos, de ter estado a pintar (ah, que bem que me tem sabido estar aqui a pintar! há quanto tempo não enchia o espaço de tintas, paletas, tigelas com água, pincéis) e de ter estado a espreitar a espectacular cerimónia de encerramento dos Jogos Olímpicos Rio 2016 (e como gostei de ver o Grupo Corpo a bailar as suas belas coreografias), fiquei na dúvida sobre se ainda me apetecia cá voltar. Mas volto.


Depois de um sábado preenchido (e, sim, com um encontro imediato de terceiro grau com uma pessoa de quem já aqui falei mil vezes - mas do qual não vou falar porque não quero ser indiscreta), que incluiu um passeio sobre o rio e no qual ainda coube uma ida ao campo, uma ida às compras e sei lá que mais, este domingo foi bem tranquilo. Uma doçura de dia.

Não vou maçar-vos com o making of deste domingo calmo mas vou mostrar-vos algumas imagens da praia. A maré vazia, um areal imenso, um mar fresco do qual subia uma aragem refrescante - e eu, como sempre, caminhei à beira da água, sentindo a rebentação suave. 

Enquanto caminhava, ia conversando serenamente, olhando a paisagem. 
Se vou com a máquina fotográfica em estado de prontidão, parece que reparo em cada pormenor. Quando não, se vou com ela pendurada na mão, parece que vou em estado de meditação, absorta, apenas sentindo o bem estar de por ali poder andar. Têm que me dizer, olha ali a tatuagem no rabo daquela, tatuou um surfista numa prancha, ou olha aquela a ensinar o cão a nadar -- senão não dou por nada.
Mas, já quando caminhava de regresso, reparei outra vez nas afinidades ou, talvez ainda melhor, nas cumplicidades e resolvi fotografar. Se eu soubesse que me era permitido ou se tivesse um assistente que fizesse o favor de contactar as pessoas a perguntar-lhes se me autorizavam a fotografá-las de frente, o que eu me deliciaria a apanhar momentos mesmo curiosos. Hoje por exemplo, teria apanhado aquela gorda deitada numa daquelas pequenas piscinas que se formam quando o maré vaza, em cima do seu franzino homem, beijando-o e quase o sufocando com o seu volume, ou aquele casal já não muito novo, abraçado e aos beijos, ambos nus (e como ele estava animadinho quando o abraço terminou...!).

E mais.

Assim, limito-me a fotografar as pessoas de modo a que não seja possível serem identificadas. Gosto de fotografar casais e o seu reflexo nas águas, amigas que conversam e riem enquanto enfrentam a rebentação, pessoas nadando com o seu cão. E o mar e o céu e Lisboa do outro lado, diluída em azul.












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Penso sempre que tenho muita sorte por viver num país tão bonito, onde temos paz, sem as terríveis agruras de um mundo tantas vezes sob bombas ou disparos, que tenho sorte por ter saúde e poder procurar aquilo de que gosto, que tenho a bênção de viver rodeada por pessoas a quem quero bem e que também me querem bem -- mas penso também que tudo é efémero e um dia posso não ter tudo aquilo que hoje agradeço. E essa sensação ainda me faz ter mais vontade de me sentir agradecida e feliz.

Não sei se estas imagens e estas palavras conseguem, de alguma forma, passar para quem aqui me acompanha a beleza a tranquilidade de que me sinto rodeada. Gostava que se sentissem como que contagiados e também agradecdos e felizes. Mas talvez seja ingenuidade minha pensar que tenho essa capacidade. Seja como for, saibam que gostava mesmo que, quem aí está agora a ler-me, sorrisse e sentisse que a vida sabe melhor se a vivermos numa boa onda.

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E é isto. É tardíssimo e eu estou aqui para as curvas, ainda com vontade de ir ali esbater um bocado aquele azul ou acrescentar um pouco de branco ali na linha de água. Mas não vou - até porque já arrumei as tintas, já lavei os pincéis e etc (senão, daqui a nada, o meu marido quando se levantar fica passado: ocupas o espaço todo, quer-se andar e há tintas e tralha por todo o lado...). Não. Está já (quase) tudo arrumadinho.

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E queiram descer, por favor, porque a catedral feita à mão por D.Justo é de cortar a resspiração. Uma coisa que não dá para acreditar.

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2 comentários:

Pôr do Sol disse...

Cara Jeitinho,
Suponho que seja ligeiramente mais nova que eu. Mas é por esta nossa idade que se aprecia verdadeiramente a vida. Até aqui estivemos demasiado ocupados com a profissão/carreira, com os filhos, os seus cursos os seus casamentos, os apoios familiares etc. Uma ida à praia era por vezes uma canseira.Toalhas, mudas de roupa, merendas, brinquedos e birras.

Hoje, numa outra etapa, atribuimos valor a coisas simples como as que refere. a tranquilidade, a beleza do nosso país, o amor que damos e recebemos. Um passeio na praia tem um efeito regenerador. Ter tempo para olharmos o mar faz-nos sentir vivos e amar a vida.

Pena é que seja tambem nesta idade que o corpo acusa o desgaste e reclama a substituição de peças. Mas sejemos positivos e como diz o medico que me assiste- ainda bem que vao descobrindo peças.

Um beijinho e fique certa de que as suas palavras surtem o efeito desejado. Para-se para pensar.

Um Jeito Manso disse...

Olá Pôr do Sol,

Gostei tanto de a ler. E fez-me rir. Por razões cá das minhas andanças, ando agora a fazer fisioterapia. A fisioterapeuta que é uma bacana, goza com as maleitas que por ali passam e diz que se chega a uma idade que é a idade do com-dor. Quando não é o cu que dói, doem as calças. E conta peripécias divertidas que metem médicos, velhinhas com doenças estranhas como a tal da PDI (que não sabem o que é), etc.

Mas é o que diz, Pôr do Sol: muita ou pouca, com ou sem dor, o importante é que cá andamos e, ao menos, que, na medida do possível, andemos bem, felizes e contentes, satisfeitos com o que temos e vemos e fazemos.

E portanto é isso aí, Sol Nascente, bora mas é curtir a vida agora que os filhos estão criados e nós, felizmente, ainda nos mexemos :).

Um beijinho e votos de felicidades para si e para toda a família!