Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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sábado, julho 02, 2016

António Guerreiro e os jornalistas




A verdade é que deixei de comprar jornais. Onde trabalho há jornais em papel que também não leio. Jornais, agora, só online e, ainda assim, são percorridos em diagonal, apenas para perceber a quantas ando. Mas logo constato que, se não os lesse, não perdia muito pois, a julgar pelo que leio, não saímos do mesmo sítio. E, também, quem escreve fá-lo, em geral, sem alma ou arte.

Penso que não é nostalgia o que sinto quando me lembro da era antes da internet, quando esperava com gostosa expectativa os jornais em papel, quando os folheava procurando as crónicas de determinado jornalista, as entrevistas, as reportagens, as opiniões. Se calhar sou já vcc (= velha como o caraças) mas eu procurava, por entre as páginas dos jornais, os jornalistas.


Agora não. Os jornalistas foram saindo dos jornais. Tirando o Fernando Alves, senhor tão inteiro que mais parece uma abstração, tirando um bravo e quixotesco António Guerreiro e mais uns quantos outros, talvez aqueles a quem a reforma já dá o conforto necessário à liberdade de escrita, aquilo a que se assiste é ao produto da actividade de entretenimento ou a outra coisa qualquer, que jornalismo não é. A questão é que as redações devem estar rarefeitas com a saída de tantos jornalistas de verdade. Foram ficando os outros. Parece haver agora, sobretudo, agendas escondidas (ou, mesmo, mal escondidas), fretes, repetições frouxas do que os spin doctors debitam para as redacções. E depois textos banais, fraquinhos, cópias quase integrais de notícias de um para outro jornal online.

Talvez seja a juventude dos jornalistas, e quase só ficam os jovens porque baratos (que os mais velhos, os mais caros, esses já foram encostados às boxes), talvez seja o medo que a precariedade traz e que condiciona a criatividade e a liberdade. Não sei. Mas é pena. O jornalismo perdeu o seu lado nobre, vertical, romântico, aventureiro. Parece já quase não haver lugar aos textos burilados, feitos com dedicação e paixão que se encontravam no bom jornalismo.

Estou a ser injusta para os que ainda resistem, eu sei. Mas a questão é que uma pessoa toma a decisão de abandonar um jornal porque a linha geral desilude e, portanto, acabam por ser injustamente castigados os que ainda conseguem manter a integridade.


Vem isto a propósito de mais um honesto texto de António Guerreiro no Público. Transcrevo apenas uns excertos mas aconselho que sigam o link para poderem ler o texto na íntegra.

 A jornalização em curso (2ª parte)


Em 1853, o escritor alemão Gustav Freytag, que nunca ocupou nenhum lugar de destaque na história literária, publicou uma comédia chamada Os Jornalistas que tem uma personagem exemplar, pela qual a peça continua a ser citada. Chama-se Schmock, essa personagem, e a sua réplica mais famosa, a que melhor serve para a caracterizar como um jornalista que se molda a todo os ambientes porque não se sente condicionado por convicções nem princípios, é aquela em que proclama: “Aprendi [...] a escrever para todas as tendências. Escrevi à esquerda e depois à direita. Sei escrever de acordo com qualquer tendência”. A actualidade de Schmock está bem visível na dança frenética de directores, sub-directores, editores, colunistas e outros membros da oligarquia que domina hoje os órgãos de comunicação social: de jornal para jornal, da televisão para o jornal, do jornal para a rádio e vice-versa e em todos as direcções. (...) 
Eles só existem e prosperam no seio de uma cultura decorativa, onde se pode escrever ou programar à esquerda ou à direita, de acordo com a tendência de ocasião. E todo o seu trabalho é dirigido a uma massa informe, em que também os leitores e os espectadores são vistos como receptores acríticos. Eles cumprem uma função que só se pode desenvolver sobre as cinzas do jornalismo e de todo o projecto cultural. Como Lacan dizia do amor, também eles poderiam dizer dos jornais, rádios e canais de televisão que dirigem, por turnos: a nossa missão consiste em dar o que não temos a alguém que não o quer. Sem projecto, sem tendência que não seja a dos ventos da estação, os media ficam ao serviço desta sociedade implosivo-mafiosa: este é o panorama com que estamos confrontados.

(...) Mas os Schmock do nosso tempo – e são muitos – dão a ver também outra coisa: que os órgãos de comunicação social não estão nas mãos dos jornalistas e de quem neles escreve ou produz “conteúdos” (como se diz hoje), mas nas mãos de decisores gestionários. Abaixo desta estrutura gestionária está a massa dos jornalistas proletarizados, sem qualquer autonomia, mesmo que continuem a assinar com o nome próprio: o jornalismo deixou de se conformar às exigências do trabalho intelectual. Foi esta verificação que dois jornalistas franceses fizeram há poucos anos, num livro que tinha um título deprimente:
Notre métier a mal tourné. Isto é: a nossa profissão correu mal. 

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As fotografias que usei são da autoria de Oliver Curtis. Condolence é interpretada por Benjamin Clementine.

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E agora, caso estejam para aí virados, queiram descer e aceitar o conselho sobre alguns dos Livros para morrer antes de ler.
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