Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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quinta-feira, junho 02, 2016

Outros blogues


Se no post abaixo já agradeci a todos quantos me têm acompanhado nesta minha caminhada que já levou a que mais de um milhão e meio de visitas tivessem sido recebidas no Um Jeito Manso, referi também todos os outros blogs que leio com deleite e aos quais reconheço qualidades que tomara eu que o meu um dia as atingisse.

Tivesse eu tido tempo, preparava uma antologia cuidadosa de modo a garantir que todos quantos admiro aqui estivessem representados. Mas não tive tempo. O meu dia foi complicado e esta quinta feira rumo a norte, daqui a nada, antes do sol nascer, estou a pé.

Por isso, cometendo mil injustiças e deixando de fora os outros blogs que leio mas que geralmente se ocupam ou quase só de imagens ou de vídeos musicais ou, ainda, de temas políticos e económicos e que, portanto, têm textos relativamente datados, vou ousar aquilo que tenho evitado: ir pela minha galeria de blogs abaixo e, um pouco ao acaso, seleccionar um ou outro parágrafo de entre os seus posts. São excertos, ou seja, textos truncados. Não pretendo ser cuidadosa ou exaustiva (ou melhor, pretender até pretendia, não tenho é tempo). Sem delongas, vamos lá. Sem que a ordem signifique grau de preferência: ao acaso.





Subia ontem à floresta a dar mais uma demão de protector de madeira no drikketrau (ou bebedouro) que por lá construí.

Para evitar a deslocação do amigo, e o conduzir até aqui abaixo ao centro de Oslo, tomei eléctrico e autocarro até à periferia a norte. No autocarro, sentada à minha frente, uma adolescente dedilhava frenética no iphone. Contudo, e ali era o caso, lendo o The Book of the City of Ladies, versão em inglês da medieval defesa da educação das mulheres de Cristina de Pisano, a mania irritante de mensagem vai, mensagem vem, facilmente se transforma em sorriso. O mundo, não sendo perfeito, é hoje bem melhor do que foi.





Hoje é o Dia Mundial da Criança. Para assinalar a data, proponho que se veja o filme infantil brasileiro "Tainá — A Origem", um filme cheio de aventuras passadas na Amazónia. A sua atriz principal é uma indiazinha de verdade, chamada Wiranu Tembé, que à data da rodagem do filme tinha cinco anos de idade e que desempenha o papel de uma menina que defende a floresta contra o mal.

Fernando Ribeiro em A Matéria do tempo



Já tenho escrito várias vezes sobre as famosas distracções da minha mãe, que vão desde não se lembrar que determinado amigo já morreu há uma data de anos, a ter perdido o telemóvel dentro do peru, no meio de uma azáfama natalícia.

Tendo cinco filhos, é também vulgar trocar-nos os nomes, chamar frigorífico ao forno e abanar o copo de água em vez do frasco de ben-u-ron quando está prestes a medicar um neto. 

Francisca Prieto no Delito de Opinião


Era um homem que estava de bem com as suas memórias. Gostava, por isso, de conversar. Falámos muito. Sentava-se comigo à mesa e ficou amigo de amigos meus do Canadá, do Algarve, do Porto. Alguns voltavam só para o ver, já nem me vindo quase ver a mim: diziam-me que ele inspirava tranquilidade. A minha filha, nesses anos 90, era uma criança e confiava em tudo o que ele pusesse na mesa, como se estivesse a comer comida da avó.  E nem a avó, nem as tias, lhe farão umas farófias como as farófias do “Fiorde”, as melhores do mundo. Eram as farófias que convenciam a minha filha? Não só. Há pessoas que têm uma franqueza no olhar que faz os miúdos confiarem logo neles.

Manuel S. Fonseca no Escrever é Triste


Como me atrevo, pela manhã, aos pensamentos mais sombrios, mais desesperados? O amor aos meus filhos, só esse, é absurdo, paradoxal: salva-me e condena-me. Explico-lhe que não precisa de contar detalhadamente o que acontece em cada um dos seus dias, pode escrever apenas uma frase sobre o que mais o marcou, a comida sensaborona do refeitório, uma brincadeira no recreio, as participações disciplinares do Sandro, um episódio do Mundo de Gumball. Olha-me demoradamente e contrapõe: “Mas assim não é um diário, mãe. É outra coisa qualquer”. 

Ana Cássia Rebelo no Ana de Amesterdão



O inglês (ou anglófono, ainda não sei), cumprimentando-me com aquele sossegado Hi Alex!.uma vez mais, hoje, aliás, por duas vezes. Uma mulher não é de ferro, most definitely (não me recordo da última pessoa que me chamou Alex, mas gosto, muito mais do que Xana).
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(Há pouco, arrumou o portátil, as canetas, o estojo, os cadernos,virou-se para trás e sorriu-me, sem despedidas; a minha amiga comentou, bincalhona,  - melosa!).

Alexandra G em Imprecisões



O sol é como o teu rosto.

Tão perto da meia-noite, tão longe dos seus lábios.

Entrei no labirinto para que os medos que me seguem se desorientassem.

Se depois de tanto procurares, encontrares algo dentro de mim, não mo leves. Pode ser a única coisa que me resta.

Xilre em Xilre



Um amigo que muito prezo constatou com alguma ironia que este blogue frequentemente parece um muro de lamentações. É verdade que aqui exponho domesticidades, misérias, angústias, irritações. Encarem estes desabafos com alguma benevolência, como se numa garrafa bem fechada, acabasse de dar à costa mensagem de angústia ou desespero enviada não se sabe de onde, por alma desconhecida. Não interessa tanto quem a recebe, importa que a enviei.

Fernando Lopes em Diário do Purgatório


As sociedades modernas perderam a consciência do tempo cíclico, do eterno retorno do mesmo, e a retórica do progresso – que ainda hoje anima alguns exaltados – desfez o véu ilusório, mas fundamental para dar sentido à vida, de um tempo que sempre retorna. Ficou a poesia. Ela é o dispositivo que resta na luta contra o tempo, na busca da experiência mítica, na reconstrução de um véu de ilusão que nos permite aceitar a vida e a morte. Por isso, ela luta com e contra a língua, destrói-lhe os hábitos, obscurece o significado, conflitua com a gramática, para que desça até aos homens uma linguagem mais pura e original, não maculada pela história, e lhes proporcione a ilusão que eles precisam para viver e para aceitar a sua inelutável mortalidade.

Jorge Carreira Maia em Kyrie Eleison 


Italiana de Catania, trabalhava em Londres, era a sua primeira visita a Portugal, estava encantada com Lisboa, que não esperava tão alegre e luminosa.
Contei-lhe eu algo da minha juventude em Lisboa, e de como uma vez me tinha atrevido a entrar neste mesmo restaurante, esperançado de entrever um ou outro dos meus ídolos literários  
Despedi-me terminado o café, e fui à minha vida, contente de como podem ser agradáveis os encontros com estranhos. É talvez porque neles, ao invés dos encontros com conhecidos, não temos de baixar a viseira, dispensamos a troca de salamaleques, nada nos obriga ao fingimento.

J. Rentes de Carvalho em Tempo Contado


No tasco:

– Boa noite, o que vai ser?
– Eu gostava de ser cosmonauta, mas já não vou a tempo.
– ??
– Ah, pode ser um café.



A Igreja manifesta-se, ou arranja quem o faça, a favor dos contratos de associação. Os senhores bispos já foram derrotados nas batalhas de costumes e não querem perder a guerra das prebendas do Estado. Caberá à esquerda demonstrar que a saúde pública é melhor sem as misericórdias e que não devem persistir isenções fiscais para uma confissão religiosa. A despenalização do aborto, o casamento gay, foram combates pueris face aos  que se aproximam.

Luís M. Jorge em Vida Breve


Depois, há o regresso e há a sensação de ter passado por aqueles caminhos como se o não tivesse feito. Fica uma memória difusa. Como se por ali tivesse pedalado como um fantasma. Gosto de pensar que talvez seja porque, como dizia o outro (!), tenha sido inteiro no que fiz, nada exagerei nem excluí. Quer dizer, vi com os olhos, cheirei com o nariz, ouvi com os ouvidos sem me socorrer das paisagens, dos aromas e dos sons que já esta armazenados em padrões no meu cérebro e que podem filtrar, fazer um efeito tampão, colocar-me em modo automático ... impedindo-me de criar padrões verdadeiramente novos.



Cada mulher tem a sua obsessão.
Quando vim para a casa decidi que o quarto da frente seria o dos papás. O quarto da frente é o principal no lar, portanto, pertence aos mais altos na hierarquia familiar. Talvez tenha sido eu que me coloquei sempre, à partida, numa posição subalterna.
Quando, de costume, afirmo que, ao chegarem de África, nenhum deles era capaz de me olhar como adulta, talvez queira dizer que nunca fui capaz de ver-me como adulta junto deles. Que não sabia ter, com eles, o poder de uma pessoa crescida, ao seu lado, como igual. Não tive essa escola lenta de ir progredindo em companhia. Fui criança e depois mulher, e o que ficou pelo meio perdemos os três. 

Isabela Figueiredo em Novo Mundo


Portugal é um país onde a hipocrisia compensa. De repente, deixámos de ouvir falar dos horrores do desemprego e da emigração forçada, as histórias recorrentes no jornalismo do ano passado. A profunda indignação das corporações disto e daquilo também desapareceu. Os jornais discutem minuciosamente temas fracturantes que interessam a meia dúzia de portugueses, desviam para canto as notícias embaraçosas, insistem nas opiniões inócuas dos comentadores que falharam todas as suas previsões nos últimos cinco anos e que continuam a debitar de cátedra.

Luís Naves no Fragmentário


De regresso pela A8, com o capuz enfiado na cabeça e os vidros do carro todos abertos para que o frio não me deixasse adormecer, uma cassete velha a encher o ar de Jimi Hendrix Experience, caleidoscópio crepuscular de vários tons cinza, e uma nuvem a olhar para mim, a perseguir-me durante todo o caminho com 120 regrados quilómetros por hora de luz lunar, a sorrir por cima da noite meia dúzia de palavras com um único significado de infinitas interpretações: nitidamente o canto do noitibó dentro do coração.

Henrique Manuel Bento Fialho em Antologia do Esquecimento


disse-lhe: não sei o que me fizeste. podes fazê-lo de novo.

algo na voz dela parava os relógios

apenas precisava de um abraço de que nunca tivesse que sair.

Mil em Mil Anos


E reparai no seguinte: o maior soldado de todos os tempos, o guerreiro sem par, é o maior derrotado da guerra: na humilhação que o líder dos exércitos lhe impõe, na morte do amigo tão amado, na desolação que o leva a considerar corajosos e cobardes como iguais, na vingança que exerce sobre Heitor, não fazendo mais do que atrair a vergonha sobre si; o mais nobre dos homens, Heitor, aquele que é não o herói do poema, mas o herói do poeta, é morto, abandonado pelo deus, deixando a cidade, a mulher e a prole à mercê da pilhagem e da escravatura; Helena, como já vimos, a mais bela das mulheres, a mais infeliz das criaturas. E assim com todos.

Pedro em Peripsema


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Fotografias de Francis Giacobetti

Catrin Finch e Seckou Keita interpretam Les Bras De Mer

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E, caso queiram saber quais os 5 posts mas vistos do Um Jeito Manso ou quais as estatísticas de comentários ou países visitantes, queiram, por favor, descer até ao post seguinte.

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2 comentários:

MCS disse...

Obrigado pela referência, UJM. E em que boas companhias fiquei.
Eu não mereço... :-)

Um Jeito Manso disse...

MCS,

De nada, eu é que agradeço os seus posts sempre tão oportunos, com um humor por vezes tão irónico. E as imagens que arranja ajudam à festa.

Por isso, sim, merece, sim senhor.

Um abraço,