Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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segunda-feira, junho 06, 2016

Chegou uma carta




Gosto muito de escrever. Gosto de escrever a pensar que alguém gosta de me ler. Gostaria de escrever de modo a que cada uma das pessoas que me lê sentisse que era para ela, em particular, que escrevi.

Gostaria que as minhas palavras fossem como uma carta para cada um de vós.

Há muito tempo que não escrevo uma carta à mão para alguém -- ao mesmo tempo que não recebo nenhuma carta pelo carteiro. Por vezes, pelo natal ou pelos meus anos, uma amiga minha manda-me um cartaozinho no qual me pergunta por mim, pelos meus filhos, pelos meus netos, e informa-me sobre o seu filho, sobre ela, a quem sinto cada vez mas sozinha. Fico sempre com pena de as nossas vidas nos terem levado cada uma para seu lado, ela tão frágil desde que perdeu o marido, companheiro e amor da sua vida.

Dantes eu escrevia muitas cartas. Era um prazer. Sentava-me à escrivaninha e escrevia longas cartas. A seguir, ia, à pressa, pô-las no marco de correio já antecipando o prazer de receber a resposta pouco depois.

Agora há os mails. Gosto de receber mails, gosto dos que se parecem com cartas. Não consigo responder a todos nem consigo ser tão extensa como desejaria, mas isso deve-se, sobretudo, a que escrevo aqui. O meu tempo disponível não é muito.

Permitam, pois, que vos escreva. Se fosse por correio, juntaria uma fotografia ou as pétalas de uma flor.


Meu querido Leitor,

Espero que esta carta o/a encontre bem. Não tenho tido muitas notícias suas mas, como se costuma dizer, se não há notícias, isso são boas notícias. 

O verão está à porta e eu, como sabe, gosto de ir para perto da água. Este domingo estive na praia. Não estava muita gente. A água estava muito boa. 

Tinha havido um casamento, havia um toldo e bancos brancos e a areia estava cheia de pétalas. Junto à rebentação, estavam muitas conchas brancas, quase parecia um rasto de espuma para anunciar que por ali tinha passado uma noiva.

Vi também uma mulher que tinha umas ancas muito largas e umas nádegas excessivamente gordas e, imagine, vestia uma tanga de tipo fio dental. Usava um pareo à volta da cintura mas atrás levantou-o para ficar com o rabo ao sol. Ficava muito curioso. Ia andando e era como se tivesse levantado a saia e ficasse com o rabo de fora, um rabo descomunal. Aconteceu uma coisa também curiosa mas essa só a descobri agora. Queria fotografar um casal que, ao longe, brincava na água, aos mergulhos, e eu queria apanhá-los com a paisagem em fundo. Mas veio uma onda e eu desviei a máquina. Agora, ao passar as fotografias para o computador, vi que a fotografia está torta, que desse casal apenas apanhei metade da mulher e que, sem querer, apanhei um homem que estava sozinho na água. Vejo agora que estava nu e com uma erecção. Na fotografia está de perfil. Imagine.

Mas, claro, não mostro essas fotografias aqui. Prefiro mostrar conchinhas ou as flores das dunas, tão bonitas.

De tarde fui comprar uns ténis de rede, frescos. Custa-me sentir calor nos pés enquanto caminho, e não me dá muito jeito andar de sandálias. Fomos também comprar tintas. Escolhi um azul esverdeado e um verde azulado. Vou conjugar as cores para pintar umas paredes lá no campo.

Há bocado fiz sopa e fiz assim: numa panela meia de água e com um pouco de sal, juntei uma beterraba, um bom bocado de abóbora, uma cebola grande, quatro dentes de alho, uma courgette. Noutro tachinho, cozi alho francês cortado fino e feijão verde laminado. Quando estava tudo cozido, juntei azeite na panela e moí bem moído, para ficar bem cremoso. Depois juntei o feijão verde e o alho francês. A sopa ficou cor de vinho e muito saborosa. 

Estive também a ler o livro O copo de cólera e, tal como ontem, gostei muito. De vez em quando aparece uma conjugação de palavras que cintila. E o texto vai decorrendo entre amores e calores, e da escrita transparece a sensualidade de que aquele casal transborda, e a gente a sentir que qualquer coisa ali começa a revelar uma qualquer tensão, nada que se tenha materializado, apenas uma electricidade invisível que parece aproximar-se do casal que faz amor de uma forma tão erotizada. 

Mas estou a falar só de mim e isso não está certo. Deveria falar de si, querido/a Leitor/a, deveria dizer-lhe que gosto que esteja bem. E aproveito para dizer que me intriga não saber há algum tempo do André, que também nunca mais soube da Estrela, que me faz impressão não saber de pessoas de quem a gente se habitua de ouvir as palavras. Em tempos também eu sabia da Leonor, da Margarida, da querida Margarida, do António, e tanto que eu gostava das coisas do António, ou da Maria, sempre tão directa. E de tantas pessoas de quem há tanto tempo não sei se estão bem. Se souber alguma coisa dessas pessoas, diga-me, está bem?

Escolhi para ouvir enquanto lhe escrevo o pianista Alexandros Kapelis a interpretar, de Jean-Philippe Rameau, L'entretien des muses. Espero que goste.

Receba um abraço meu. Um abraço é a casa de que precisamos para guardar o nosso afecto.


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Talvez porque gosto muito de ler cartas, também gosto de as ouvir. Permita-me, pois, que partilhe consigo um vídeo de que muito gosto (e que pertence a uma série relativa, justamente, à leitura de cartas).

Trancrevo a história que prova a importância que, por vezes, a troca de correspondência tem na vida de algumas pessoas.

In September 1943, Chris Barker was serving as a signalman in North Africa when he decided to brighten the long days of war by writing to old friends. One of these was Bessie Moore, a former work colleague. The unexpected warmth of Bessie's reply changed their lives forever. Crossing continents and years, their funny, affectionate and intensely personal letters are a remarkable portrait of a love played out against the backdrop of the Second World War. Above all, their story is a stirring example of the power of letters to transform ordinary lives.
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 Já antes aqui tinha tido Benedict Cumberbatch a ler “My dearest one", uma carta de Chris Barker dirigida a Bessie Moore.

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Hoje tenho Louise Brealey a ler uma carta de amor de Bessie Moore a Chris Barker

"Dearest Chris"


Não é tão bonito?
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As fotografias que usei para ilustrar o texto (excepto, obviamente!, a de Bessie e Chris), foram feitas na Costa de Caparica.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela semana a começar já por esta segunda-feira.

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8 comentários:

P. disse...

Cara UJM,
Foi com gosto que recebi a sua carta. Há anos que ninguém me envia uma carta, ou postal. Curiosamente, a última vez foi de um dos filhos que vive lá por fora e que insiste em, pelo menos ocasionalmente, em enviar um postal!
O que em tempos constituía um prazer, que era o de abrir a caixa do correio, para ver se havia alguma carta ou postal, hoje até me esqueço, ou quando o faço é contrariado pois só vem “lixo”: ou das Finanças, ou dos bancos, ou publicidade, etc. Imagine que outro dia até um tal “Dr. Zulmiro” – que diz curar tudo, desde caspa no cabelo, a calos, vista cansada, gripe, pé-de-atleta, rouquidão, gases, unhas encravadas e sei lá que mais! – me deixou as suas “credenciais” na minha pobre caixa de correio!
Tenho pena que se tenha deixado de escrever (à mão) e enviar uma carta, ou postal.
Lá tenho de ir agora, nos dias de hoje, ao tal correio electrónico para saber notícias, mas, mesmo esse vai tendo um conteúdo mais reduzido, visto, ao que parece, a malta preferir comunicar através de outro tipo de redes sociais, como o facebook, twitter, whatsapp, e outras tretas, a que não estou ligado (nem quero!).
Foi pois com gosto que cá li a sua carta!
Por aqui também se vai indo, com um tempo agradável, felizmente ainda sem vento. A ver se um dia destes vou comer umas sardinhas. Dizem-me que este ano estarão mais caras, por causa de certas limitações à sua pesca, coisas dos burocratas da UE, que preferem preocupar-se mais com a sardinha e menos com as questões sociais e económicas no seu seio.
Ah, já me ia esquecendo de lhe contar uma “graça”! Outro dia, numa manhã, quando me dirigia do Guincho para Cascais (e dali para Lisboa), como muitas vezes faço o percurso à beira-mar pela estrada do Guincho, ocasionalmente páro por um momento (não tenho, felizmente, horários a cumprir, daí dar-me ao luxo de ir mais rápido, ou menos), a ver o mar àquelas horas. E quando assim estava, deparei, ao olhar para a pequena praia em baixo, com uma mulher ainda jovem a tomar banho…nua. Veja lá! Estava sozinha e feliz, pela forma entusiasmada como gozava o seu banho nas águas frias daquela praia. Ainda bem! Achei por bem sair de cena. E lá regressei ao caminho.
E é tudo por agora. Não tenho mais novidades!
E, como se dizia então, no tempo em que se enviavam cartas e postais, ao terminá-las, aqui lhe “deixo um afectuoso abraço, ou cumprimentos amigos, para si e família!”
P.Rufino

Gina disse...

Obrigada.
Venho aqui há pouquíssimo tempo, para aí uma semana, e confesso que apareci levada pela curiosidade de a saber no meu blogue, mas eis que gostei muito deste post. Ou desta carta. Espero que este comentário a encontre bem de saúde. ;)

Um Jeito Manso disse...

Olá P.Rufino,

Gostei de receber esta sua carta. Folgo em saber que está bem tal como a sua família. Saiba que penso que é homem de sorte: morar num lugar tão bonito e, por lá, poder passear com os seus cães, ver as praias e as suas veraneantes, poder deslocar-se de comboio, tudo tão bom.

Receba um abraço extensível à família.

Um Jeito Manso disse...

Olá Gina,

Gostei de a ver por aqui depois de já a ter visto em 45 segundos de felicidade ou a tratar de exercitar a sua espontaneidade. E gosto de saber das suas receitas. Espero que tenha uns quantos comilões em casa para a poderem poupar ao 'sacrifício' de comer iguarias que se adivinham mesmo boas...!

Obrigada pela sua visita que veio sob a forma de bilhetinho que, por pena minha, ainda não é animado senão gostaria de a ter aqui em filme, divertida como sempre.

Um abraço, Gina !

Gina disse...

Olá, UJM

Posso arranjar-lhe qualquer coisa em filme, olhe que não seria a primeira pessoa (leitor/a) a quem dedico discursos.
Fico sempre deveras espantada quando me dizem que veem os meus vídeos e/ou leem o meu blogue, mas confesso que haver quem veja os vídeos me espanta mais ainda. Sério. Sei lá, é mais cru ou assim, mais espontâneo também, mais expositivo do menos bom que há em mim. Não sei se me estou a fazer entender, pronto, a gente mostrando cara e voz tem menos 'apaixonados' de volta.
Das comidas que faço, pois que tenho cá em casa uns comilões, tenho. Que bom a UJM adivinhar como sendo boas as minhas iguarias, é muito bom.

Tété disse...

Olá Tazinha,
Espero que ao receber estas linhas se encontre de boa saúde assim como todos os seus, que eu vou andando graças a Deus.
Fico muito contente por se ter lembrado de escrever, porque infelizmente, como o tempo escasseia a quase toda a gente, as cartas perderam-se na imensidão do turbilhão das vidas.
Cá tenho andado com os meus afazeres do costume, mas tenho sempre tempo, se não for todos os dias, é sempre que posso que a visito. Comentar, nem sempre, mas visitá-la também faz parte do final do meu dia. Às vezes até é mais do que uma vez porque se ainda não tiver deixado a sua mensagem, volto mais tarde para ver se já está.
Acho que não deu por isso, mas o meu neto já fez 12 anos e está um rapazinho catita. Lá vai passar para o 7º ano - no nosso tempo era o 3º mas enfim, temos que acompanhar o progresso.
O meu filho também acabou o curso de medicina, mais um. Vamos ver o que lhe trará o futuro, pois não tem tido muita sorte, embora seja de louvar a sua perseverança. Tenho esperança que desta vez consiga alcançar os seus objetivos e anseios.
Não quero maçá-la mais, desejo-lhe muita saúde, igualmente para toda a sua família e a continuação da sua sempre louvável boa disposição.
Aceite um grande abraço desta sua amiga, que se assina
Teresa (Tété)

Um Jeito Manso disse...

Olá Gina,

Não sei como consegue tal desenvoltura quer a escrever quer a ser filmada. É uma coisa sem censura interna, puro prazer. Gosto mesmo muito, acho que é uma coisa de liberdade total.

Faça um vídeo para mim, faça... gostava mesmo, acho que a Gina é daquelas pessoas que é sem rede, seja o que deus quiser. Acho notável.

E quantos às comidas e à forma engraçada como as descreve, acho que deve ser outra arte que pratica.

Imagino que os seus filhos se divirtam com a mãe que têm, tão diferente do comum. Não?

Um abraço, Gina!

Um Jeito Manso disse...

Olá Teté,

Então muitos parabéns ao filho que é um lutador e à mãe, que ter um filho médico é sempre um orgulho. E parabéns ao belo rapazinho, já um adolescente.

Espero que tenham sorte, que o futuro seja muito bom. E que haja saúde e alegria.

Gostei muito da sua cartinha, Teté. Um beijinho.