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terça-feira, junho 14, 2016

As minhas mãos e os frutos in heaven


Amoras a caminho, nas maganas das silvas que me deixam toda arranhada e que invadem tudo




Estive estes quatro dias in heaven. dormi até tarde, apanhei sol à tarde enquanto lia ou dormia, e, sobretudo, podei árvores e arbustos, para além de ter varrido o exterior à volta da casa no qual as folhas das azinheiras fazem uma densa cama.

Bolotinhas bebés

Como trabalhar no campo, em geral, me dá calor, e tanto mais quando está sol e temperaturas elevadas, só me aguento de calçoezitos e tshirt de alças. Luvas, então, nem pensar, põem-me as mãos a ferver e não sinto as coisas, e eu gosto de sentir.

O meu marido encolhe os ombros, descoroçoado, diz que nem vale a pena a dizer nada mas que, quando estiver toda arranhada, não me queixe. Naquelas alturas não tenho tempo para pensar no assunto, os afazeres são muitos, não é hora para frioleiras. Ou seja, não lhe dou ouvidos.

Ameixas
A questão é que, se tenho a força de um ucraniano -- e serro grossos troncos e carrego com pernadas enormes como árvores, e transporto o carrinho de mão a transbordar, tanto que nas curvas até quer capotar -- a verdade é que tenho pele de branca de neve e, portanto, o resultado já está à vista.

Já o ouvi dizer 'Nem digas nada' e, por isso, a bater a bolinha baixa, já fui à farmácia comprar pomada porque deve ter sido alguma árvore que se chegou demais aos meus braços e me está a fazer alergia ou fui picada por algum bicho mau. A questão é que estou com umas babonas que me dão um calor e comichão do catano. Até no pescoço, pois andei de rabo de cavalo. Por via das dúvidas comprei também um anti-histamínico. Tenho os braços que pareço nem sei o quê -- ceifeira ou lenhadora não, que essas devem cobrir os braços e as pernas. Estou cheia de arranhões, picadas, babas. Pus álcool e betadine e não deu, pode ser que a pomada acalme isto.

Amanhã, com reuniões com consultores e sei lá que mais e eu nesta linda figura. Como é que eu alguma vez na vida poderia ser uma madame de nails artisticamente produzidas? Impossível. Camponesa que se preze tem mãos de trabalho -- e apesar do incómodo que sinto, até não desgosto de todo de as ver neste estado, fazem-me lembrar as minhas boas andanças.

De qualquer maneira, já estive aqui a dar um leve ar da minha graça, passando um verniz incolor nas minhas unhas curtas. Mas o feito dos arranhões e das picadas anula-lhes o brilho.

Dióspiro bebé

Enfim, passa. E o prazer da lida ninguém mo tira.

No entanto, claro que, para além do trabalho pesado, andei de câmara fotográfica. Os frutos estão a formar-se, estão bebés, uma gracinha. Não tarda os pássaros já lhes chamaram um figo. Levam sempre a melhor. 

Fotografei também uma das minhas mãos para a pôr aqui para fazer pendant com os frutos e até escolhi um poema de Eugénio de Andrade do livro 'As mãos e os frutos'. Mas agora vi a fotografia e não ficou nada de jeito, não me ajeito com selfies. Ficam só os frutos, dourados pelo sol macio de Junho.


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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa terça-feira.

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