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segunda-feira, junho 13, 2016

Aquilo a que chamamos mulher não existe.
A mulher, percebi eu, é algo que pertence à esfera da lenda,
um fantasma que voa pelo mundo.




A verdade é que o que eu queria, o que estava a ver se conseguia, com aquela conversa urgente sobre pintura e retratos, era que ela se despisse, ali e agora, naquela cozinha gelada, ou melhor ainda, que me deixasse fazê-lo, descascá-la como um ovo e olhar, olhar e olhar para ela nua, à luz do dia literalmente fria. 



Não me interpretem mal. Não fui repentinamente tomado pela luxúria, pelo menos não pela luxúria no sentido habitual, que é uma coisa bem diferente do desejo, na minha opinião. Sempre achei as mulheres mais interessantes, mais fascinantes, sim, mais desejáveis, precisamente quando as circunstâncias em que as encontro são as menos adequadas ou promissoras.

É uma fonte inesgotável de espanto e assombro saber que, debaixo das roupas mais desenxabidas – aquela camisola disforme, a saia mal-amanhada, aqueles sapatos sem personalidade --, se esconde algo tão intrincado, abundante e misterioso como o corpo de uma mulher.



É para mim um dos milagres seculares – existe outro tipo? – as mulheres serem como são. Não me estou a referir à mente delas, ao intelecto, à sensibilidade, e eu sei que vão gritar comigo por causa disto, mas estou-me nas tintas. 


É ao facto visível, táctil, palpável da carne feminina, recobrindo tão aconchegantemente a sua gaiola de osso… é a isso que me refiro.

O corpo pensa e tem a sua própria eloquência, e o corpo de uma mulher tem mais para dizer do que o de qualquer outra criatura, infinitamente mais, aos meus ouvidos, pelo menos, ou aos meus olhos.



Era por isso que eu queria que a Polly se livrasse das roupas e me deixasse olhar para ela, olhar não, escutá-la, arrebatada e arrebatadoramente solta, escutar o seu eu corpóreo, como se fosse possível tal coisa. Olha e escutar, escutar e olhar: para uma pessoa como eu, estas são as maneiras mais intensas de tocar, de acariciar, de possuir.

(…)

E ali sentado, a contemplá-la (…), tive uma coisa a que só posso chamar uma revelação de cortar a respiração; literalmente, porque foi uma revelação e porque fiquei sem ar.

O que vi, com uma clareza irritante, foi que aquilo a que chamamos mulher não existe. A mulher, percebi eu, é algo que pertence à esfera da lenda, um fantasma que voa pelo mundo, instalando-se aqui e ali, numa ou noutra fêmea mortal incauta, transformando-a, breve e momentosamente, num objecto de desejo, veneração e terror.


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E, se me permitem, junto à festa um Poeta que também sabia dizer o seu amor pelas mulheres

Herberto Helder — O amor em Visita 
(aqui dito por José-António Moreira)


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Foi com prazer que juntei neste post John Banville, Leonard Cohen, Herberto Helder, três homens cujas palavras revelam terem percebido o que é gostar de uma mulher. 

Há por aí muitos amadores na arte de amar, todos prosas, tecendo considerações sobre mulheres, dizendo à boca cheia as competências ou os atributos femininos, todos eles se limitando a colocar a sua fraca competência na enumeração de partes do corpo e respectivas habilidades ou, fazendo-se já de senadores, enunciam os melindres das mulheres, dão-se ares de engraçados para, destilando ignorância, reduzirem a sua sabedoria aos já desbotados 'os problemas das mulheres...'. Tudo balofa facúndia que apenas revela que não sabem gostar de uma mulher como ela tem que ser gostada.

Gostar de uma mulher, mas gostar mesmo, é reconhecer que uma mulher é um milagre, uma infinita incompreensão, um corpo para ser amado a capela, um olhar para ser tocado com a suavidade de uma mal disfarçada emoção, uma alma para ser respeitada em todo o seu múltiplo mistério, um inexplicável voo envolto em indecifráveis segredos. E mais.

E quem não saiba isto não é digno de dizer que sabe gostar de uma mulher. Deverá ficar calado, quieto no seu canto, enquanto não aprender; não deverá fazer com que uma mulher perca o seu precioso tempo. Nem deverá dar-se ao trabalho de fazer posts ou escrever artigos de jornais. Muito menos deverá dar-se ao desfrute de escrever livros.

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Não seria justa se não referisse os homens que aqui fotografaram Laetitia Casta: Collier Schorr (1ª, 2ª e 4ª fotografias), Patrick Demarchelier (5ª), Mario Testino (última).

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E queiram, por favor, continuar a descer para uma troca de opiniões entre a diferença entre a verdade e a realidade em  Onde é que se encontrará esse raro lugar, pálido Ramon?


2 comentários:

Fernando Lopes disse...

Clap,cap,clap. Curvo-me humildemente perante tão brilhante posta.

Um Jeito Manso disse...

Gracias, Fernando.

Saber gostar de uma mulhre, mas gostar mesmo, não é para qualquer um, só para os connaisseurs :)

Um abraço!